A telenovela na sociedade



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Capítulo I

A TELENOVELA NA SOCIEDADE

    1. O histórico da telenovela

A primeira telenovela do Brasil, “Sua vida me pertence”, foi exibida no Brasil em 1951, pela TV Tupi. A obra de Walter Foster estrou no dia 21 de dezembro de 1951 e foi encerrada em 8 de fevereiro do ano seguinte. “Sua vida me pertence” era exibida às terças e quintas-feiras e teve o total de 15 capítulos. A trama consistia na história de um homem mais velho que se apaixonou por uma jovem garota.

Já a primeira telenovela diária só foi exibida em 1963 pela TV Excelsior. “2.5499 Ocupado” era a história de amor entre uma detenta que trabalhava como telefonista no presídio e um homem que liga para lá por engano. A partir disso, se desenrola uma história de amor. A obra foi estrelada pelos atores Glória Menezes e Tarcísio Meira.

Apenas 6 anos mais tarde, uma atriz teve espaço nesse tipo de obra. Ruth Souza foi a primeira mulher negra a protagonizar uma telenovela. Em “A Cabana do Pai Tomás”(1969), uma adaptação do livro de mesmo nome da autora abolicionista estadunidense Harriet Beecher Stowe. Ela interpretou a esposa Cloé, a esposa de Pai Tomas. O tema da novela era o regime escravocrata no sul dos Estados Unidos.

Assim como “A Cabana de Pai Tomás”, as primeiras telenovelas tiveram forte influência dos Estados Unidos, de México e Cuba. QUE INFLUÊNCIA? COMO ERAM AS NOVELAS?

Atualmente, o Brasil é um dos maiores exportadores do conteúdo. No ano de 2013, por exemplo, a novela “Avenida Brasil” bateu o recorde de exportação superando todas as anteriores. A obra televisiva possui licenciamento para 130 países, alcançando todos os países da América Latina. Que discorrer sobre a audiência, licenciamento de produtos, ou até influência de escolha de nomes de filhos...porque se estamos mostrando que as novelas influenciam, precisamos dizer onde e como. Deste modo, é possível notar o poder de influência das novelas na população brasileira e mundial.




    1. Metodologia

A metodologia deste trabalho consiste em, primeiramente, um levantamento bibliográfico a respeito do tema. Em seguida, será realizada uma análise dos textos e explicação dos conceitos utilizados na pesquisa.






O corpus de análise será definido da seguinte forma:

  • 5 capítulos da primeira semana da novela

  • 5 capítulos de uma fase intermediária

  • 5 capítulos de uma semana próxima ao final da novela

Serão considerados os seguintes aspectos da obra: linguagem oral, isto é, falas dos personagens, indumentária e linguagem corporal. Para a análise do corpus, serão aplicados os conceitos apresentados no primeiro capítulo. O objetivo é analisar qualitativamente o conteúdo da novela de modo a descobrir se existe ou não um estereótipo com relação à sexualidade da mulher negra.




    1. Representação, identidade de gênero e identidade racial

Bourdieu (1988, p.11) explica que as relações de comunicação são relações de poder, assim, a televisão não está excluída deste efeito. Portanto, através de suas obras, ficcionais ou não, o veículo contribui para perpetuar a relação dominante-dominado.


É enquanto instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que os <> cumprem a sua função política de instrumentos de imposição ou de legitimação da dominação, que contribuem para assegurar a dominação de uma classe sobre outra (violência simbólica) dando o reforço da sua própria força às relações de força que as fundamentam e contribuindo assim, segundo a expressão de Weber, para a <>.

(BOURDIEU, 1989, p.11)


De acordo com Bourdieu, a produção simbólica ajuda a classe dominante, possuidora do capital econômico, a se manter na sua posição através do estabelecimento de hierarquias. Ou seja, na questão racial, o grupo dominante utiliza o poder dos meios de comunicação e sua credibilidade para disseminar os valores de hierarquia entre raças ou supremacia racial.

A distinção entre as classes é legitimada pela comunicação, de modo que as culturas são classificadas de acordo com a relação que têm com a cultura dominante. Quanto mais diferente do grupo dominante, pior é a cultura. Consequentemente, a televisão reproduz o padrão, expressando, sutilmente, graus de importância dados à cada cultura ou “subcultura”.

Deste modo, sabendo da existência de uma classe dominante podemos concluir também representa essa realidade. É comum nas telenovelas que haja a oposição entre rico e pobre ou o bom e mau que representam diferentes posições sociais. Por isso, a forma como um grupo ou categoria é representado ajuda entender os estereótipos desse grupo na vida real.

O modo como a TV hierarquiza as culturas é de suma importância para que o objetivo de dominação seja alcançado. Bourdieu explica que para saber o que pode ser dito no palco, é necessário conhecer o público. E, assim, quem não faz parte da audiência já é excluído de antemão.


A censura mais radical é a ausência. É preciso pois considerar as taxas de representação (no sentido estatístico e no sentido social) das diferentes categorias (sexo, idade, estudos etc), logo, as probabilidades de acesso ao local da palavra - e, depois, as probabilidades de acesso à palavra, mensurável em tempos de expressão. (BOURDIEU, 1989, p.55)
Outro ponto a ser lembrado é que, no caso de uma audiência mais livre como a TV, em que não é necessário comprar um ingresso ou enfrentar filas, a representação de uma determinada cultura em quantidade e qualidade revela se é dominante ou dominada. Por exemplo, à medida que os negros alcançaram novos espaços na sociedade, passaram a ser representados de formas diferentes do escravo e da empregada doméstica.

Na novela “Insensato Coração” (2011), o ator Lázaro Ramos interpreta um grande nome do ramo do design e a atriz Camila Pitanga é uma executiva da área de marketing. Considerando que os atores afrodescendentes já foram restritos à atuação nas chamadas “novelas de época”, já se pode dizer que é um avanço na narrativa ficcional. Mesmo sem analisar o conteúdo desses personagens, a posição dos negros aparentemente reflete uma nova perspectiva profissional das pessoas negras na sociedade brasileira.

A compreensão da identidade requer que nos situemos no tempo, Stuart Hall explica que o conceito de identidade é histórico e não biológico. O autor desvendou a identidade do sujeito na pós-modernidade, período que começou na Revolução Industrial. Os sistemas de identificação, como explica Hall (1990) estão sendo deslocados continuamente.

Ao contrário da concepção do Iluminismo e do sujeito sociológico, o sujeito pós-moderno não tem uma identidade fixa. Há um processo de fragmentação, na qual o sujeito pode ter várias identidades, até mesmo contraditórias entre si. “A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987).”.

Deste modo, é possível concluir que o personagem pode ser fragmentado por raça, origem social, gênero, escolaridade e que esses fatores entram e conflito. Estas categorias são somadas e vão resultar na construção da identidade do sujeito. Por exemplo, a personagem “Xica da Silva” é identificada como uma mulher, negra e proveniente do grupo escravizado, mas acaba por ascender socialmente, o que dita o enredo da novela.

Um dos conflitos de identidade na personagem de “Xica da Silva” é de ser uma escrava alforriada e, ao mesmo tempo, ser esposa do homem mais rico da região e, simultaneamente, mulher negra. De acordo com Hall, não há uma identidade singular que possa abrigar todas as identidades, nem mesmo a própria “classe social”. Ele alerta para o “jogo de identidades” que ocorre quando as mesmas se cruzam. No caso da novela, esses fatores podem acarretar diferentes percepções com relação ao papel de Xica e no seu trato que os outros personagens tem por ela.


Uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença. (HALL, 1997, p.16)
Neste aspecto, compreende-se que a forma como os outros personagens da trama encaram Xica pode variar de acordo com cada momento. Não é possível concluir, de antemão, se há identificação dos outros personagens negros com Xica da Silva ou se as mulheres também se reconhecem nela. Por isso, a análise compreende também a comparação do trato com outras personagens negras, no que tange à sexualidade.

De acordo com Goffman (1963), o estigma é resultado do processo de discrepância entre a identidade social virtual e a identidade social real. Ou seja, a diferença entre o que as características atribuídas ao sujeito e ao que ele é de fato. O estigma surge a partir de uma desqualificação dessa diferença.



O sujeito estigmatizado é julgado como não pertencente ou não merecedor. Goffman explica que o “estranho” torna-se passa de uma criatura comum a uma “pessoa estragada ou diminuída”. O autor determina basicamente três tipos de estigma.
Em primeiro lugar, há as abominações do corpo - as várias deformidades físicas. Em segundo, as culpas de caráter individual, percebidas como vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais, [...], homossexualismo, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento político radical. Finalmente, há os estigmas tribais de raça, nação e religião, que podem ser transmitidos através de linhagem e contaminar por igual todos os membros de uma família. (GOFFMAN, 1963, p. 7)
O que as formas de estigma têm em comum é que o indivíduo poderia ser plenamente aceito na sociedade caso não tivesse um traço que chamasse mais atenção do que seus outros atributos. Assim, entende-se que o estigma é uma característica que não corresponde às expectativas daquela sociedade.



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