A revolução Russa e o pós-capitalismo Lívia Cotrim 1 Resumo



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Verinotio - Revista on-line de Filosofia e Ciências Humanas . ISSN 1981-061X . Ano XII . abr./2017 . n. 23 . v. 1

 

Lívia Cotrim 



A Revolução Russa e o pós-capitalismo 

 

Lívia Cotrim

1

 

Resumo:  



Este  artigo  pretende  examinar  a  natureza  da  formação  social  que  se 

constituiu  na  União  Soviética  após  a  revolução  política  que  destituiu  o 

capitalismo,  acompanhando  a  análise  apresentada  por  José  Chasin,  que 

demonstra a inexistência ali de socialismo ou mesmo de qualquer processo 

de transição para essa nova forma histórica, e identifica como seu cerne a 

continuidade da regência do capital, sob forma coletiva/não-social, solo no 

qual se enraíza o estado como dispositivo apropriador-gestionário. 

Palavras-chave:  Revolução  Russa;  revolução  política;  revolução  social; 

capital; capitalismo; socialismo. 

 

Russian Revolution and Postcapitalism 

Abstract:  

This article aims at to examine the nature of the social formation that took 

place  in  USSR  after  the  political  revolution  that  overthrew  capitalism.  It 

follows the analysis proposed by José Chasin, which shows that it does not 

account for socialism, not even for any sort of process of transition to that 

new  historical  formation,  and  identifies  the  continuity  of  a  capital-based 

society,  where  capital  assumes  the  collective/non-social  form,  and 

constitutes  the  ground  where  the  State  as  an  appropriation-management 

apparatus sets its roots.  

Key  words:  Russian  Revolution;  political  revolution;  social  revolution; 

capital; capitalism; socialism.  

 

 

A  tragédia  da  Revolução Russa,  tragédia  autêntica  de  toda  a 



humanidade, (…) está precisamente no imperativo de fazer uma 

revolução que não pode ser realizada. 

J. Chasin

 

 

A



 Revolução Russa, ponto culminante, até o momento, das lutas da 

classe trabalhadora iniciadas em 1848, comemora seus 100 anos em clima 

mundial  de  retrocesso,  em  que  a  perspectiva  da  revolução  social 

desapareceu  do  horizonte  da  imensa  maioria  da  classe  trabalhadora, 

substituída, no melhor dos casos, pela suposta possibilidade de civilizar o 

capital  e  democratizar  o  estado,  e,  no  pior,  pelos  fundamentalismos 

religiosos e nacionalistas, que acrescentam à barbárie do capital inúmeros 

                                                 

1 Professora do Centro Universitário Fundação Santo André e da Cogeae/PUC-SP. 

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elementos da barbárie pré-moderna, a título de combate ao “Ocidente” ou 

ao imperialismo. 

Retrocesso  resultante  em  ampla  medida  do  próprio  fracasso  da 

tentativa  de  transição  ao  comunismo,  que  não  houve,  acentuado  pela 

convicção sustentada por décadas de que, ao contrário, estaria se dando tal 

transição e, ademais, de que não haveria outro caminho possível. 

Para estar à altura da comemoração do acontecimento histórico mais 

fundamental do século XX, a comemoração de seus 100 anos precisa tanto 

ressaltar a positividade da Revolução e recuperar a obra teórica e prática de 

suas  lideranças  mais  significativas  quanto  reconhecer  sua  derrota  e 

investigar o que a determinou, especialmente para contribuir para repor no 

horizonte aquele que foi seu télos: a emancipação humana, a superação do 

capital e do estado. 

Reconhecer cabalmente que não houve socialismo na União Soviética 

ou  no  Leste  europeu,  na  China  ou  em  Cuba,  nem  estava  em  curso  uma 

transição ao socialismo, permite escapar da armadilha de escolher entre o 

capitalismo e o pós-capitalismo

2

, e rejeitar ambos como expressões distintas 



da lógica do capital, em favor da superação desta. 

A armadilha da suposta escolha inevitável entre capitalismo e pós-

capitalismo  volta  as  costas  à  emancipação  humana,  à  revolução  social,  e 

assim ao melhor legado da Revolução Russa, e subordina-se aos limites do 

pensamento burguês, que, como já disse Marx,  não vai além, na teoria, dos 

limites que a burguesia não ultrapassa na vida – o limite do capital e sua 

lógica; aquela pseudoalternativa subordina-se ideologicamente à burguesia, 

ao capital, por mais revolucionárias que sejam as intenções, por mais que a 

fidelidade  de  classe  ao  proletariado  seja  afirmada  com  a  mais  plena 

honestidade subjetiva. 

A  alegada  necessidade  de  escolher  entre  capitalismo  e  pós-

capitalismo  e  a  insistência,  ainda  hoje  presente,  em  atribuir  ao  último 

identidade  socialista  obstou  o  entendimento  dessa  formação  social,  bem 

como  a  guerra  contra  o  capital  e  o  estado.  Ademais,  colaborou  para 

transformar  o  pós-capitalismo  soviético  em  parâmetro  inescapável, 

reproduzido em todos os lugares em que houve posteriormente revoluções 

anticapitalistas,  bem  como  para  que  a  derrocada  do  pós-capitalismo  não 

significasse  o  início  da  transição  ao  socialismo,  e  sim  o  retorno  ao 

capitalismo – em todas as unidades nacionais pós-capitalistas, sem exceção. 

                                                 

2

  Termo  utilizado  por  I.  Mészáros,  J.  Chasin  e  outros  pesquisadores  para  identificar  os 



países ou regiões que ultrapassaram o capitalismo pela eliminação da propriedade privada 

dos meios de produção (e, consequentemente, da burguesia), mas, como veremos adiante, 

não eliminaram o capital (a relação social na qual os trabalhadores permanecem separados 

e subordinados aos produtos de seu trabalho), o qual assume a forma de capital único, e 

nem o estado, que passa a regê-lo. 

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Resgatar o legado positivo da Revolução Russa para a emancipação 

humana e repor no horizonte a revolução social, sobre o alicerce da crítica 

ao capital em suas duas formas  –  capitalista e pós-capitalista  –, impõe o 

resgate  da  reflexão  marxiana.  O  malbaratamento  desta,  por  sua 

vulgarização e/ou simbiose com concepções pré ou antimarxianas, liga-se 

às derrotas sofridas pela classe trabalhadora, amplificadas pela insistência 

em afirmá-las  como vitórias, em uma relação de mão dupla: os fracassos 

favorecem  o  descarte  e  as  distorções  do  pensamento  marxiano,  o  que, 

desarmando os trabalhadores, facilita a colheita de novas derrotas. 

Pretende-se  aqui  examinar  a  natureza  da  formação  social  que  se 

constituiu na União Soviética após a Revolução que destituiu o capitalismo, 

suas raízes e seu desabamento, acompanhando a análise apresentada por 

José Chasin,  cuja trajetória intelectual foi marcada pelo duplo esforço de 

resgatar  o  pensamento  próprio  de  Marx,  apoiado  na  redescoberta  de  sua 

natureza  ontológica  por  G.  Lukács

3

,  e  de  apreender  a  realidade  presente. 



Não  se  trata  de  esforços  paralelos,  mas  que  se  entrecruzaram 

necessariamente, como partes interligadas de um mesmo todo, pois, dado o 

estatuto  ontológico  do  pensamento  de  Marx,  “todos  os  seus  enunciados 

concretos, se interpretados corretamente, isto é, fora dos preconceitos da 

moda,  são  ditos,  em  última  análise,  como  enunciados  diretos  sobre  certo 

tipo de ser” (LUKÁCS, 2012, p. 281). Compreender o pensamento marxiano 

é  compreender  o  ser  social  em  suas  diversas  facetas  ou  modos  de 

manifestação,  em  seus  lineamentos  mais  gerais  e  em  suas  formas 

contemporâneas  de  existência,  na  historicidade  de  seu  ser,  e  portanto 

também  em  suas  potencialidades  de  vir  a  ser.  Apreender  a  realidade 

presente é apreender o ser social em um momento específico de sua história 

e na particularidade de seu modo de existência em dados lugares, tendo por 

ponto  de  partida  a  apropriação  do  conhecimento  já  produzido  por  Marx 

sobre o ser social em geral e a forma contemporânea de sociabilidade. 

Não  se  trata,  pois,  de  duas  ordens  simplesmente  paralelas  de 

problemas, e muito menos da “aplicação” aos fatos empíricos singulares de 

uma teoria ou de um método elaborados na esfera supostamente autônoma 

do pensamento. Tal como Marx, também Chasin não se configurou como 

um “pedestre inexperto em traje bizarro de experimentador, a cruzar, sem 

fim, entre a calçada da empiria e a calçada das abstrações” (CHASIN, 1983, 

p. 48). 

O  conhecimento  radical,  apanhando  o  mundo  social  em  sua 

historicidade e potencialidades de transformação, aponta para uma prática 

também radical, visando à revolução social e à emancipação humana. 

Como  parte  desse  duplo  esforço,  teórico  e  prático,  Chasin  se 

debruçou sobre a União Soviética, paradigma dos países pós-capitalistas. 

                                                 

3

 Mas sem se subsumir a ele e, em certos aspectos, ultrapassando-o. 



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O primeiro texto em que expôs sua análise desse complexo temático 

foi  publicado  há  três  décadas,  em  1983  (ano  do  centenário  da  morte  de 

Marx), período em que a esmagadora maioria dos militantes e intelectuais, 

dentro  e  fora  do  marxismo,  mesmo  os  mais  críticos  à  União  Soviética, 

assumiam que havia ali socialismo, ainda que adjetivado (socialismo real ou 

socialismo realmente existente) e especificado por termos indicativos dos 

problemas, limites ou contradições identificados, principalmente na esfera 

política:  totalitarismo,  estado  burocrático-autoritário,  estado  operário 

degenerado etc. 

Apoiado  na  crítica  de  Marx  à  politicidade,  elemento  basilar  da 

reflexão  do  filósofo  alemão,  Chasin  identificava  a  vigência  de  uma  dupla 

barbárie:  a  barbárie  do  capitalismo  avançado  (que,  naqueles  primeiros 

passos  para  a  globalização,  mostrava  já  novas  facetas  e  feitios  de  suas 

contradições)  e  a  barbárie  do  pós-capitalismo,  à  época  designado  mais 

comumente como “socialismo real” ou “socialismo de acumulação”, ambas 

tendo por cerne o capital. 

A  análise  demonstra  que  não  havia  socialismo  e  nem  sequer  se 

desencadeara qualquer transição nesse rumo, seja na União Soviética seja 

nos  demais  países  pós-revolucionários.  Ao  contrário,  sob  uma  forma 

histórica inusitada e insuspeitada por Marx ou pela vanguarda da Revolução 

Russa, reiterara-se e se reproduzira a vigência do capital, com seu cortejo de 

opressões, desprodução do produtor, alienação, estranhamentos. 

Essa conclusão foi facultada pelo resgate de traços centrais da análise 

marxiana do  capital, destacando-se a distinção, ressaltada também por I. 

Mészáros  (1983),  entre  capital  e  capitalismo,  diferença  crucial  para  o 

entendimento  da  gênese  e  desenvolvimento  históricos  do  capital,  que 

assume  inicialmente  as  formas  comercial  ou  mercantil  e  monetário  ou 

usurário, antes de alcançar a configuração de capital industrial ou básico; 

este último é o chão social do capitalismo verdadeiro, mas também não se 

confunde com ele. 

Houve,  portanto,  figuras  pré-capitalistas  do  capital,  nas  quais  este 

não  dominava  a  produção,  atributo  peculiar  do  capital  industrial,  que 

transforma  a  produção  de  produtos  em  produção  de  mercadorias  ao  se 

apropriar não apenas de produtos ou do excedente na circulação, mas sim 

“da  própria  energia  que  produz  –  força  de  trabalho  (convertida  em 

mercadoria)” (CHASIN, 1983, p. 24)

4

. A forma básica do capital é, pois, uma  



relação social de produção que subordina o trabalho assalariado 

ao trabalho acumulado.  Em suma,  na máxima  generalidade de 

sua forma acabada, o capital é uma relação social de dominação 

fundamental e matrizadora (CHASIN, 1983, p. 24). 

                                                 

4

 A propósito das condições dessa transformação, ver Marx (1986; 2013). 



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O  capitalismo,  configuração  mais  acabada  ou  apropriada  dessa 

relação  social,  efetiva-se  “pela  encarnação  das  personae  do  capital: 

proprietários privados, postos em concorrência” (CHASIN, 1983, p. 24). 

Distinguir  entre  capital  e  capitalismo  é  crucial  para  entender  não 

apenas a gênese de ambos, mas também seu desaparecimento; pois, além 

de  precederem  o  capitalismo,  capital  e  produção  de  mercadorias 

necessariamente  sobrevivem  a  ele;  uma  vez  que  o  capital,  lógica  de 

produção e intercâmbio entre os homens, não desaparece de súbito, mesmo 

considerando  o  início  da  transição  entre  capitalismo  e  comunismo  nas 

condições  mais  favoráveis,  indicadas  desde  A  ideologia  alemã

5

:  alto 


desenvolvimento de forças produtivas, aí inclusa a relação universal entre 

os indivíduos, contraposto a uma massa de trabalhadores desprovidos de 

propriedade –  ambas resultado da existência de um mundo de riqueza e 

cultura – e revolução simultânea em diversos países desenvolvidos (MARX; 

ENGELS, 2007, p. 38). 

O  exame  dessa  distinção  entre  capital  e  capitalismo  prende-se  à 

precisa determinação do sentido do processo de transição para o socialismo: 

não se trata apenas da eliminação do capitalismo, mas da “radical superação 

da regência do capital na tessitura da formação nascente, que vem à luz, na 

imediatidade, apenas do rompimento de linhas dominantes da entificação 

do capitalismo” (CHASIN, 1983, p. 25). A nova forma histórica só se põe 

com  essa  superação  radical,  quando,  nas  palavras  de  Marx,  “A  figura  do 

processo social da vida, isto é, do processo da produção material, (...) como 

produto  de  homens  livremente  socializados,  ficar  sob  seu  controle 

consciente e planejado” (MARX apud CHASIN, 1983, p. 25), isto é, quando 

o  trabalho  vivo  não  mais  se  subordinar,  na  forma  do  assalariamento,  ao 

trabalho acumulado. 

Superar o capital é, pois, superar um modo de produção e reprodução 

da vida, uma forma de intercâmbio dos homens com a natureza e uns com 

os outros, que, sendo o homem “o que faz e como o faz”, irradia-se para todo 

o  leque  das  relações  sociais,  alterando-as  profundamente.  Trata-se  de 

superar  todo  o  feitio  de  existência  social  e  individual  presente,  de 

reconfigurar ontologicamente o ser social. 

Entre  o  capitalismo  e  o  socialismo  se  estenderá  um  período  de 

transição

6

,  que,  por  mais  longo  e  contraditório  que  possa  vir  a  ser



7

configura-se justamente como processo, passagem de uma a outra situação, 



                                                 

5

 Indicação mantida não somente no Manifesto comunista como em obras tão posteriores 



quanto O capitalGrundrisse e A guerra civil na França

6

 À semelhança, quanto a este aspecto, da transição entre feudalismo e capitalismo. 



7

 Como Marx reconheceu, não custa lembrar, em A guerra civil na França, tanto no texto 

definitivo quanto nos esboços. 

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e não como uma “maneira de produzir já ‘cristalizada’” (CHASIN, 1983, p. 

26)


8

Trata-se de ultrapassar a forma que “cria capital, ou seja, aquele tipo 



de propriedade que explora trabalho assalariado e que só pode aumentar 

sob a condição de produzir novo trabalho assalariado, a fim de explorá-lo 

novamente”  (MARX  apud  CHASIN,  1983,  p.  26).  Nesse  processo, 

metamorfoseia a força social (que, separada do trabalho vivo, é capital) em 

propriedade  comum  de  indivíduos  sociais,  de  sorte  que  o  trânsito  de  um 

ponto a outro se configura como  

confronto  entre  o  presente  (...)  na  determinação  rigorosa  de 

presente enquanto trabalho vivo, e passado enquanto trabalho 

acumulado”,  [como]  tensão  entre  o  domínio  sobrevivente  da 

mercadoria  e  a  potência  da  dominação  do  produtor,  que 

principia a se converter em ato no interior de uma contradição 

modificada, porém ainda não resolvida (CHASIN, 1983, p. 27)

9

.

 



Para  efetivar esse percurso, é fundamental ter clareza do ponto de 

chegada,  já  que  a  história  não  “faz”  nada,  mas  é  feita  pela  ação  prática 

consciente dos homens; pôr como finalidade da revolução a extinção apenas 

do capitalismo imprime a ela rota e talhe restringentes e passadistas. Porém, 

além e independentemente disso, as condições do ponto de partida – a um 

tempo objetivas e subjetivas – têm peso determinante. 

No caso da Rússia, devido à peculiaridade do modo de objetivação do 

capitalismo, o ponto de partida é caracterizado pelo atraso, pela ausência 

daquelas condições materiais necessárias para a revolução social. Estas são 

concretizadas pela expansão da grande indústria (envolvendo o remate do 

processo de separação entre os indivíduos e seus meios de trabalho) e da 

transformação  dessa  massa  desprovida  de  propriedade  em  trabalhadores 

assalariados subordinados aos meios de produção convertidos em capital e 

cada  vez  mais  universalmente  inter-relacionados,  além  de  ampliar 

exponencialmente as capacidades produtivas materiais e espirituais. Sob a 

forma  alienada  e  estranhada  do  capital  em  sua  configuração  de  capital 

industrial no interior do capitalismo, as forças produtivas se tornam cada 

vez mais efetivamente universais, portanto genéricas, e o mesmo vale para 

os indivíduos de quem tais forças são os predicados. 

O domínio sobre a natureza – ou, em outras palavras, a capacidade 

de humanizar a natureza objetiva e subjetiva, de produzir a si e a seu mundo 

tendo por pressupostos capacidades e meios socialmente produzidos, ou de 

                                                 

8

 Ao contrário da visão presente na vulgata stalinista, em que o socialismo é considerado 



um  modo  de  produção  intermediário  entre  o  capitalista  e  o  comunista.  Disto  não  há 

qualquer traço em Marx. 

9

  Ver  Marx  (2011a),  em  que  tanto  a  natureza  processual  dessa  transição  quanto  o  seu 



sentido são claramente expostos, especificamente, como reabsorção pelos homens de suas 

forças sociais. O que já deve se iniciar como primeiro ato da revolução social destruindo o 

estado. Voltaremos a isso. 

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exercer  o  trabalho  com  base  em  pressupostos  objetivos  e  subjetivos  já 

produzidos  pelo  próprio  trabalho  (MARX,  2011b)  –  e  a  concomitante 

atualização da natureza social ou genérica dos homens constituem a base 

material  que  permite  superar  o  capital,  e  não  só  o  capitalismo,  já  que 

suprimem a carência que originou a divisão social do trabalho. 

Na ausência de tais condições, isto é, em face da escassez, “as lutas 

pelos gêneros necessários recomeçariam e toda a velha imundície acabaria 

por  se  restabelecer”;  igual  resultado  advém  da  tentativa  de  realizar  o 

comunismo  localmente,  caso  para  o  qual  Marx  visualizava  a  seguinte 

alternativa:  ou  o  intercâmbio  se  restringiria  à  localidade,  caso  em  que  as 

forças  produtivas  que  permitem  a  emancipação  humana,  de  cunho 

universal,  estiolam-se,  gerando  a  escassez  e  suas  consequências;  ou,  ao 

contrário,  o  intercâmbio  com  regiões  capitalistas  se  expandiria,  e  tal 

“ampliação  do  intercâmbio  superaria  o  comunismo  local”  (MARX; 

ENGELS, 2007, pp. 38-9). 

O  evolver  histórico  mundial,  entretanto,  deslocou  as  contradições 

“do  centro  para  a  periferia  e  induziu  a  ruptura”  nesta,  criando  uma 

“tendência histórica que sustenta e condiciona o prosseguimento da ruptura 

com o capitalismo pela mesma via” (CHASIN, 1983, p. 29). 

A  Revolução  foi  deflagrada  na  atrasada  Rússia  por  imposição  das 

condições  objetivas  locais  e  mundiais,  e  Lênin,  sua  principal  liderança 

teórico-política, tinha clareza da impossibilidade de consumar a transição 

para o socialismo nas condições em que a Rússia viria a se encontrar poucos 

anos após a Revolução, como deixou claro em seu discurso no XI Congresso 

do PC russo, em março de 1922: 

Agora  o  povo  e  toda  a  massa  de  trabalhadores  veem  que  o 

essencial para eles consiste em serem ajudados praticamente em 

sua extrema miséria e fome, e que lhes mostrem que realmente 

se verifica uma melhora necessária para o camponês, adequada 

a  seus  costumes.  O  camponês  conhece  o  mercado  e  conhece  o 

comércio.  Não  pudemos  implantar  a  distribuição  comunista 

direta. Faltavam para isso as fábricas e a maquinaria para elas. 

(LÊNIN apud CHASIN, 1983, pp. 29-30) 

De sorte que não faz qualquer sentido buscar a raiz da tragédia da 

Revolução Russa nem em sua vanguarda, nem em Marx. 


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