A planta inteligente



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A planta inteligente

Cientistas debatem um novo modo de entender a flora

por MICHAEL POLLAN

Em 1973, um livro afirmou que as plantas são seres sencientes que têm emoções, preferem música clássica a rock’n’roll e podem reagir a pensamentos não expressos verbalmente de seres humanos a centenas de quilômetros de distância. Entrou para a lista de best-sellers do New York Times, categoria de não ficção. A Vida Secreta das Plantas, de Peter Tompkins e Christopher Bird, apresentou uma fascinante miscelânea de ciência botânica autêntica, experimentos fajutos e culto místico da natureza que arrebatou a imaginação do público numa época em que o ideário new age começava a ser assimilado pela cultura dominante. As passagens mais memoráveis descreviam os experimentos de Cleve Backster, um ex-agente da CIA especialista em detectores de mentiras. Em 1966, porque lhe deu na veneta, Backster ligou um galvanômetro – um medidor de correntes elétricas – à folha de uma dracena plantada num vaso do seu escritório. Ficou pasmo ao constatar que, quando ele imaginava a dracena pegando fogo, a agulha do polígrafo se mexia, registrando um surto de atividade elétrica indicador de que a planta sentia estresse. “A planta poderia ter lido a mente dele?”, indagam os autores. “Backster teve vontade de sair pelas ruas gritando: ‘As plantas pensam!’”

Backster e seus colaboradores resolveram conectar polígrafos a dezenas de plantas: alfaces, cebolas, laranjas e bananas, entre outras. Ele relatou que as plantas reagiam aos pensamentos (bons ou maus) de humanos que estavam próximos e, no caso de pessoas com quem elas tinham mais familiaridade, a grandes distâncias também. Em um experimento concebido para testar a memória dos vegetais, Backster descobriu que uma planta que testemunhara o assassinato de outra (pisoteada) era capaz de identificar o assassino dentre seis suspeitos enfileirados, registrando um aumento da atividade elétrica quando punham o culpado diante dela. As plantas de Backster também demonstravam forte aversão à violência interespécies. Algumas ficavam tensas quando se quebrava um ovo diante delas ou quando camarões vivos eram jogados em água fervente, um experimento que Backster descreveu em 1968 no International Journal of Parapsychology.

Nos anos seguintes, vários botânicos sérios tentaram em vão reproduzir o “efeito Backster”. Boa parte da ciência em A Vida Secreta das Plantas caiu em descrédito. Mas o livro deixou sua marca na cultura. Americanos começaram a conversar com plantas e a tocar Mozart para elas, e sem dúvida muitos ainda o fazem. Isso pode parecer inofensivo; provavelmente sempre haverá uma veia sentimentalista a influenciar nosso modo de ver as plantas. (Dizem que Luther Burbank e George Washington Carver falavam com as plantas com as quais fizeram seu brilhante trabalho, e as ouviam também.) Mas na opinião de muitos botânicos, A Vida Secreta das Plantas causou danos duradouros a sua área de estudo. Segundo o biólogo Daniel Chamovitz, autor do livro recém-publicado What a Plant Knows [O que Sabe uma Planta], Tompkins e Bird foram responsáveis por emperrar “importantes pesquisas sobre o comportamento das plantas, pois os cientistas passaram a desconfiar de qualquer estudo que sugerisse paralelos entre sentidos dos animais e sentidos dos vegetais”. Outros argumentam que A Vida Secreta das Plantas introduziu a “autocensura” entre pesquisadores interessados em investigar as “possíveis homologias entre neurobiologia e fitobiologia”, ou seja, a possibilidade de as plantas serem muito mais inteligentes e parecidas conosco do que supõe a maioria das pessoas – dotadas de capacidades de cognição, comunicação, processamento de informações, computação, aprendizado e memória.

A citação sobre a autocensura está em um polêmico artigo de 2006 publicado na revista Trends in Plant Science, no qual os autores propuseram um novo campo de estudo e escolheram chamá-lo, talvez um tanto afoitamente, de “neurobiologia vegetal”. Os seis autores – entre eles o americano Eric D. Brenner, especialista em biologia molecular de plantas, o italiano Stefano Mancuso, fisiologista vegetal, o eslovaco František Baluška, biólogo celular, e a americana Elizabeth van Volkenburgh, bióloga botânica – afirmaram que os comportamentos complexos observados em plantas não podiam ser completamente explicados pelos mecanismos genéticos e bioquímicos então conhecidos. Os vegetais são capazes de sentir e reagir a tantas variáveis do ambiente – luz, água, gravidade, temperatura, estrutura do solo, nutrientes, toxinas, micróbios, herbívoros, sinais químicos de outras plantas – que talvez exista algum sistema de processamento de informação análogo ao cérebro para integrar os dados e coordenar a resposta comportamental de uma planta. Os autores salientaram que foram identificados em plantas sistemas elétricos e químicos sinalizadores, homólogos aos encontrados em sistemas nervosos de animais. Ressaltaram ainda que neurotransmissores como serotonina, dopamina e glutamato também foram encontrados, embora ainda não se tenha esclarecido o papel deles.

Viria daí a necessidade da neurobiologia vegetal, um novo campo “que visa entender como as plantas percebem suas circunstâncias e reagem de modo integrado a informações do ambiente”. Segundo o artigo, as plantas demonstram inteligência, definida como “uma capacidade intrínseca de processar informações de estímulos abióticos e bióticos que permite decisões ideais sobre atividades futuras em um dado meio”. Pouco antes da publicação do artigo, a Sociedade de Neurobiologia Vegetal realizou seu primeiro encontro, em 2005, em Florença. Uma nova revista científica, Plant Signaling & Behavior, foi lançada no ano seguinte.

 

Hoje, quando o assunto é botânica, dependendo do interlocutor, o campo da neurobiologia vegetal ou representa um novo paradigma radical em nosso entendimento da vida ou um escorregão de volta às turvas águas científicas revolvidas pela última vez em A Vida Secreta das Plantas. Para seus proponentes, não devemos mais considerar as plantas como objetos passivos – a mobília muda e imóvel do nosso mundo –, mas começar a tratá-las como protagonistas de seus próprios dramas, altamente especializadas em seus expedientes de disputa na natureza. Esses autores querem refutar o atual enfoque redutivo da biologia contemporânea sobre as células e os genes e voltar nossa atenção novamente para o organismo e seu comportamento no ambiente. Somente a arrogância humana e o fato de a vida das plantas acontecer em uma espécie de dimensão de tempo muito mais lenta nos impedem de valorizar-lhes a inteligência e o consequente sucesso. As plantas dominam cada ambiente terrestre e compõem 99% da biomassa do planeta. Em comparação, os seres humanos e todos os outros animais são, nas palavras de um estudioso da neurobiologia vegetal, “apenas traços”.

Muitos botânicos rechaçaram o nascente campo de estudo. Os primeiros foram 33 botânicos renomados (o italiano Amedeo Alpi e outros), que em resposta ao manifesto de Brenner publicaram uma carta azeda e depreciativa na revista Trends in Plant Science. “Para começar, queremos deixar bem claro que não há indícios de estruturas como neurônios, sinapses ou cérebro em plantas”, escreveram os autores. O manifesto não afirmara nada disso; falara apenas em estruturas “homólogas”, mas o uso do termo “neurobiologia” na ausência de neurônios de verdade aparentemente era mais do que muitos cientistas podiam tolerar.

“Sim, as plantas enviam sinais elétricos de curto e de longo prazos e usam certas substâncias análogas a neuro-transmissores como sinais químicos. No entanto, os mecanismos são muito diferentes dos encontrados em verdadeiros sistemas nervosos”, explicou-me um dos signatários da carta de Alpi, Lincoln Taiz, professor emérito de fisiologia vegetal na Universidade da Califórnia, em Santa Cruz. Para Taiz, os textos dos proponentes da neurobiologia vegetal pecam por “interpretação forçada de dados, teleologia, antropomorfização, filosofice e especulações mirabolantes”. Ele aposta que um dia os comportamentos das plantas que ainda não compreendemos serão explicados pelas ações de vias químicas ou elétricas, sem recurso ao “animismo”. Clifford Slayman, professor de fisiologia celular e molecular em Yale que também assinou a carta de Alpi (e que ajudou a desacreditar Tompkins e Bird), foi ainda mais contundente. “‘Inteligência das plantas’ é uma divagação idiota, não um novo paradigma”, escreveu em um e-mail recente. Slayman referiu-se à carta de Alpi como “o último confronto sério entre a comunidade científica e um bando de malucos em torno dessas questões”. Cientistas raramente usam esse tipo de linguagem quando falam de seus colegas a jornalistas, mas esse é um assunto que tira do sério, pois enevoa a nítida linha que separa o reino animal do reino vegetal. A controvérsia não é tanto sobre as notáveis descobertas da recente botânica, mas principalmente sobre como interpretá-las e nomeá-las: comportamentos observados em plantas muito parecidos com aprendizado, memória, tomada de decisão e inteligência merecem ser chamados por esses termos ou tais palavras devem ser reservadas a seres dotados de cérebro?

 

Nenhum dos cientistas com quem falei no grupo interdisciplinar que estuda a inteligência das plantas afirma que elas possuem capacidades telecinéticas ou sentem emoções. Tampouco alguém acredita que localizaremos nas plantas um órgão com feitio de noz que processa dados sensitivos e guia o comportamento vegetal. Mais provavelmente, na opinião dos cientistas, a inteligência das plantas assemelha-se à que vemos em colônias de insetos, uma inteligência que se supõe ser uma propriedade que emerge de numerosos indivíduos desprovidos de mente organizados em uma rede. Boa parte das pesquisas sobre inteligência das plantas inspira-se na nova ciência das redes, computação distribuída e comportamento de enxame, que demonstrou alguns dos modos como comportamentos notavelmente análogos ao de cérebros podem surgir na ausência de um cérebro verdadeiro.

“Para uma planta, possuir um cérebro não é uma vantagem”, salienta Stefano Mancuso, talvez o mais fervoroso porta-voz do ponto de vista das plantas. Calabrês quarentão, franzino e barbudo, ele tem mais jeito de professor de humanidades do que de cientista. Quando falei com ele, no Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença, ele me contou que sua convicção de que os humanos subestimam extraordinariamente as plantas originou-se de uma história de ficção científica que ele teria lido na adolescência. Uma raça de extraterrestres que vivia em uma dimensão de tempo radicalmente acelerada chega à Terra e, incapaz de detectar movimentos nos humanos, chega à conclusão lógica de que somos “matéria inerte” com a qual eles podem fazer o que bem entenderem. E os alienígenas passam a nos explorar impiedosamente. (Mancuso escreveu depois para esclarecer que a história que ele contou era, na verdade, uma recordação truncada de um antigo episódio de Jornada nas Estrelas chamado “O piscar de um olho”.)

Na opinião de Mancuso, nossa “fetichização” dos neurônios, assim como nossa tendência a igualar comportamento a mobilidade, impede-nos de avaliar o que as plantas são capazes de fazer. Por exemplo, como elas não podem correr e frequentemente são comidas, é bom que não possuam órgãos insubstituíveis. “Uma planta tem um desenho modular, por isso pode perder 90% do corpo sem morrer”, ele diz. “Não existe nada parecido no mundo animal. Isso cria resiliência.”

De fato, muitas das capacidades mais admiráveis das plantas podem ter origem em sua circunstância existencial única de estarem enraizadas no solo e, portanto, serem incapazes de mover-se quando precisam de alguma coisa ou quando as condições tornam-se desfavoráveis. O “estilo de vida séssil”, como o denominam os botânicos, requer uma ampla e sutil apreensão do ambiente imediato, já que a planta tem de obter tudo aquilo de que precisa e defender-se sem sair do lugar. Faz-se necessário um aparato sensitivo altamente desenvolvido para localizar alimento e identificar ameaças. Evoluíram nas plantas entre quinze e vinte sentidos, entre eles cinco análogos aos que possuímos: olfato e paladar (elas percebem e reagem a substâncias presentes no ar ou em seu corpo); visão (elas reagem de modo diferente a vários comprimentos de onda luminosa e também à sombra); tato (uma trepadeira ou raiz “sabe” quando encontra um objeto sólido) e, como se descobriu, percepção de som. Em um experimento recente, Heidi Appel, ecologista química da Universidade do Missouri, constatou que, quando ela executava uma gravação de uma lagarta mastigando uma folha para uma planta que não fora tocada, o som impelia o maquinário genético da planta a produzir substâncias defensivas. Outro experimento, feito no laboratório de Mancuso e ainda não publicado, concluiu que raízes de plantas procuram chegar a um cano enterrado onde existe água correndo mesmo se o exterior do cano estiver seco, o que leva a crer que, de algum modo, as plantas “ouvem” o som da água em movimento.

 

As capacidades sensitivas de raízes vegetais fascinaram Charles Darwin, que na maturidade viu recrudescer sua paixão pelas plantas. Ele e seu filho Francis fizeram numerosos experimentos criativos com plantas. Muitos envolviam a raiz, ou radícula, de plantas jovens. Os Darwin demonstraram que o vegetal era capaz de perceber luz, umidade, gravidade, pressão e várias outras qualidades do ambiente e então determinar a trajetória ótima para o crescimento da raiz. A última sentença do livro O Poder do Movimento nas Plantas, que Darwin publicou em 1880, assumiu uma autoridade de sagrada escritura para alguns neurobiólogos das plantas: “Não é exagero dizer que a extremidade da radícula, […] dotada como é da capacidade de dirigir os movimentos das partes adjacentes, atua como o cérebro de um dos animais inferiores, situando-se o cérebro na extremidade anterior do corpo, a receber impressões dos órgãos dos sentidos e dirigir os diversos movimentos.” Darwin pede que pensemos na planta como um tipo de animal de cabeça para baixo, com seus principais órgãos dos sentidos e o “cérebro” embaixo, no subsolo, e os órgãos sexuais no alto.

Cientistas descobriram depois que as extremidades das raízes vegetais, além de sentirem a gravidade, umidade, luz, pressão e dureza, também são capazes de perceber volume, nitrogênio, fósforo, sal, várias toxinas, micróbios e sinais químicos de plantas vizinhas. Raízes prestes a encontrar um obstáculo impenetrável ou uma substância tóxica desviam seu caminho antes de entrar em contato com eles. Raízes podem discernir se raízes próximas são de sua própria planta ou de outra e, neste segundo caso, se a planta é parente ou estranha. Normalmente, plantas competem com estranhas por espaço para as raízes, mas quando pesquisadores puseram no mesmo vaso quatro plantas da espécie Cakile edentula encontradas nos Grandes Lagos norte-americanos, elas restringiram seus comportamentos competitivos usuais e partilharam recursos.

De algum modo, uma planta colhe e integra todas essas informações sobre seu ambiente e então “decide” (alguns cientistas usam esse termo entre aspas para indicar uma metáfora; outros as dispensam) precisamente em que direção irá espalhar suas raízes ou folhas. Quando a definição de “comportamento” expande-se para incluir características como uma mudança na trajetória de uma raiz, uma realocação de recursos ou a emissão de uma substância potente, as plantas começam a parecer muito mais acentuadamente agentes ativos que reagem a pistas ambientais de maneiras mais sutis ou adaptativas do que a palavra “instinto” sugeriria. “As plantas percebem a presença de rivais e crescem para longe delas”, explicou Rick Karban, ecologista botânico da Universidade da Califórnia, em Davis, quando lhe pedi um exemplo de tomada de decisão por plantas. “Elas são mais desconfiadas da vegetação real do que de objetos inanimados, e reagem a possíveis rivais antes que estas lhes façam sombra.” Esses comportamentos são complexos, mas, como a maioria dos comportamentos das plantas, para um animal eles são invisíveis ou extremamente lentos.

O estilo de vida séssil também ajuda a explicar o extraordinário dom das plantas para a bioquímica, imensamente superior ao dos animais e, provavelmente, dos químicos humanos. (Muitas drogas, da aspirina aos opiáceos, derivam de compostos engendrados por plantas.) Incapazes de sair correndo, as plantas servem-se de um complexo vocabulário molecular para sinalizar sofrimento, dissuadir ou envenenar inimigos e recrutar animais para prestar-lhes vários serviços. Um estudo recente publicado na revista Science mostra que a cafeína produzida por muitas plantas pode funcionar não só como uma substância defensiva, como se pensava antes, mas, em alguns casos, como uma droga psicoativa contida em seu néctar. A cafeína incentiva as abelhas a lembrar-se de uma planta específica e voltar para ela, e isso as transforma em polinizadoras mais fiéis e eficazes.

Uma das áreas de pesquisa mais produtivas em botânica nos anos recentes é a da sinalização das plantas. Sabe-se desde o começo dos anos 80 que, quando as folhas de uma planta são infectadas ou mastigadas por insetos, emitem substâncias voláteis que sinalizam a outras folhas para que armem uma defesa. Às vezes esse sinal de alerta contém informações sobre a identidade do inseto, obtidas com base no gosto de sua saliva. Dependendo da planta e do atacante, a defesa pode consistir em alterar o gosto ou a textura da folha ou em produzir toxinas ou outros compostos que tornam a matéria da planta menos digerível para os herbívoros. Quando antílopes comem acácias, as folhas dessa árvore produzem taninos que as tornam intragáveis e difíceis de digerir. Há relatos de que, quando há escassez de alimentos e os animais passam a esgotar as acácias, as árvores produzem quantidades de toxina suficientes para matá-los.

Talvez o mais engenhoso exemplo de sinalização das plantas tenha a participação de duas espécies de inseto, a primeira no papel de praga, e a segunda, de exterminadora. Várias espécies, entre elas o milho e o feijão-de-lima, emitem um pedido de socorro químico quando são atacadas por lagartas. Vespas parasíticas que se encontram a certa distância localizam a origem do odor, dirigem-se à planta atacada e lentamente destroem as lagartas. Os cientistas chamam esses insetos de “guarda-costas das plantas”.

 

As plantas empregam um vocabulário químico que não somos capazes de perceber ou compreender diretamente. As primeiras descobertas importantes sobre a comunicação vegetal foram feitas em laboratório nos anos 80, isolando vegetais e suas emissões químicas em câmaras de Plexiglas, mas Rick Karban, o ecologista da Universidade da Califórnia, em Davis, e outros incumbiram-se da tarefa mais intrincada de estudar como as plantas trocam sinais químicos na natureza. Estive recentemente no terreno que Karban reserva para esses estudos na Estação de Pesquisas de Campo de Sagehen Creek, da Universidade da Califórnia, a alguns quilômetros de Truckee. Em uma encosta ensolarada no alto das Sierras, ele me mostrou os 99 pés de artemísia – arbustos baixos verde-acinzentados de crescimento lento, marcados com bandeirinhas de plástico – que ele e seus colegas vêm acompanhando atentamente há mais de uma década.

Karban, um esguio ex-nova-iorquino de 59 anos e cabeleira branca encaracolada que mal cabe no chapelão, mostrou que quando folhas de artemísia são cortadas na primavera – simulando um ataque de insetos que desencadeia a liberação de substâncias voláteis –, tanto a planta cortada como suas vizinhas intactas sofrem significativamente menos danos por insetos no decorrer da estação. Karban supõe que a planta alerta todas as suas folhas para a presença de uma praga, mas suas vizinhas também captam o sinal e se preparam contra o ataque. “Achamos que, no fundo, as artemísias bisbilhotam a vida umas das outras”, ele disse. Karban constatou que, quanto maior o parentesco entre as plantas, maior é a probabilidade de elas reagirem ao sinal químico, e isso sugere que talvez disponham de alguma forma de reconhecimento de parentesco. Ajudar os parentes é um bom modo de aumentar a probabilidade de sobrevivência para seus próprios genes.

O trabalho de campo e a coleta de dados necessários para fazer descobertas desse tipo são extremamente minuciosos. No fundo de uma pradaria varrida pela luz do verão, dois colaboradores japoneses, Kaori Shiojiri e Satomi Ishizaki, trabalhavam à sombra de um pequeno pinheiro, acocorados diante de pés de artemísia que Karban etiquetou e cortou. Usando contadores eletrônicos, eles contavam cada folha tridentada de cada ramo, depois contavam e anotavam cada dano nas folhas, uma coluna para mordida de inseto, outra para doença. No alto da pradaria, outro colaborador, o ecologista químico inglês James Blande, amarrava sacos plásticos ao redor de caules de artemísia e os inflava com ar filtrado. Depois de aguardar por vinte minutos enquanto as folhas emitiam suas substâncias voláteis, ele bombeava o ar por meio de um cilindro metálico contendo um material absorvente que coletava as emissões químicas. No laboratório, um cromatógrafo a gás-espectrômetro de massa gerava uma lista dos compostos coletados: mais de uma centena. Blande sugeriu que eu pusesse o nariz num daqueles sacos; o ar era intensamente aromático, lembrando mais uma loção pós-barba do que um perfume. Fitando a pradaria de artemísias, não consegui imaginar a conversa química invisível, incluindo pedidos de socorro, que acontecia por lá – tampouco que aquelas plantas imóveis estivessem ocupadas em algum tipo de “comportamento”.

No futuro, as pesquisas sobre a comunicação das plantas talvez venham a beneficiar a agricultura. Substâncias causadoras de sofrimento em plantas poderiam ser usadas para desencadear suas defesas, reduzindo a necessidade de pesticidas. Jack Schultz, ecologista químico da Universidade do Missouri responsável por parte do trabalho pioneiro sobre a sinalização das plantas no começo dos anos 80, está ajudando a projetar um “nariz” mecânico que, ligado a um trator e transportado por uma plantação, poderia ajudar os agricultores a identificar plantas sob ataque de insetos, o que lhes permitiria borrifar pesticidas somente quando e onde fossem necessários.

Karban contou-me que, nos anos 80, os estudiosos da comunicação vegetal foram alvo do mesmo tipo de insulto dirigido aos cientistas que hoje investigam a inteligência das plantas (um termo que ele aceita com cautela). “A coisa era imensamente polêmica”, ele diz, referindo-se aos primeiros tempos das pesquisas sobre acomunicação das plantas, um campo de trabalho que hoje é plenamente aceito. “Demorou anos para que eu conseguisse a publicação de alguns desses artigos. As pessoas gritavam de verdade umas com as outras nos encontros científicos.” E acrescenta: “Os botânicos costumam ser incrivelmente conservadores. Todos pensamos que desejamos ouvir ideias novas, mas não; no fundo, não.”

 

Conheci Karban em um encontro científico em Vancouver em julho de 2013, quando ele apresentou um artigo intitulado “Plant Communication and Kin Recognition in Sagebrush” [Comunicação das plantas e reconhecimento de parentesco em artemísias]. O evento teria sido o sexto encontro da Sociedade de Neurobiologia Vegetal, porém quatro anos antes, sob pressão de certos setores do establishment científico, o nome da entidade fora trocado para um menos provocativo, Sociedade de Comportamento e Sinalização das Plantas. Uma das fundadoras da associação, a botânica Elizabeth van Volkenburgh, da Universidade de Washington, disse-me que o nome fora mudado depois de um acirrado debate interno; em sua opinião, provavelmente foi melhor descartar o termo “neurobiologia”. “Um membro da National Science Foundation (NSF), a agência federal norte-americana de fomento à ciência, me declarou que sua organização jamais concederia verba para qualquer coisa que levasse o nome ‘neurobiologia vegetal’. ‘Neuro’ é para os animais, ele disse.” (Um porta-voz da NSF afirmou que, embora a associação não se qualifique para receber financiamento pelo programa de neurobiologia da fundação, “a NSF não pratica nenhum tipo de boicote contra a associação”.) Dois dos cofundadores da entidade, Stefano Mancuso e František Baluška, argumentaram tenazmente contra a mudança de nome, e continuam a usar o termo “neurobiologia vegetal” em seus próprios textos e nos nomes de seus laboratórios.

O encontro consistiu em três dias de apresentações em PowerPoint para cerca de 100 cientistas, numa sala de conferência grande e moderna na Universidade da Columbia Britânica, no Canadá. A maioria dos ensaios trazia material altamente técnico sobre sinalização de plantas – o tipo de ciência incremental que acontece confortavelmente dentro dos limites de um paradigma científico estabelecido, o que a sinalização das plantas hoje é. Mas alguns dos oradores apresentaram trabalhos acentuadamente condizentes com o novo paradigma da inteligência das plantas, e suscitaram reações arrebatadas.

A apresentação mais polêmica foi “Animal-Like Learning in Mimosa pudica” [Aprendizado semelhante ao animal em Mimosa pudica], um paper não publicado de Monica Gagliano, de 37 anos, ecologista animal da Universidade da Austrália Ocidental que trabalhava no laboratório de Mancuso em Florença. Alta, de longos cabelos castanhos partidos ao meio, ela baseou seu experimento em um conjunto de protocolos comumente usados para testar o aprendizado em animais. Concentrou-se em um tipo elementar de aprendizado conhecido como “habituação”, no qual um sujeito de experimento é ensinado a desconsiderar um estímulo irrelevante. “A habituação permite que um organismo se concentre nas informações importantes e descarte as inutilidades”, ela explicou à plateia de botânicos. Quanto tempo um animal leva para reconhecer que um estímulo é uma “inutilidade”, e depois por quanto tempo se lembrará do que aprendeu? A questão experimental da pesquisa era estimulante: seria possível fazer a mesma coisa com uma planta?

A Mimosa pudica, também chamada de “sensitiva”, é daquelas raras espécies de planta com um comportamento tão rápido e visível que os animais podem observá-lo; outro exemplo é a dioneia. Quando tocamos nas folhas da mimosa, parecidas com folhas de samambaia, elas se retraem depressa, presumivelmente para assustar insetos. A mimosa também retrai as folhas quando a derrubamos ou esbarramos nela. Monica Gagliano plantou 56 mimosas em vasos e montou um dispositivo que as fazia sofrer uma queda de 15 centímetros a cada cinco segundos. Cada “sessão de treinamento” consistia em sessenta quedas. A cientista relatou que algumas das mimosas começaram a reabrir suas folhas depois de apenas quatro, cinco ou seis quedas, como se houvessem concluído que aquele estímulo podia ser ignorado sem perigo. “No final, elas estavam totalmente abertas”, ela disse aos ouvintes. “Não se importavam mais.”

Seria apenas fadiga? Aparentemente não: quando as plantas eram sacudidas, tornavam a fechar-se. “Epa, isso é novo”, disse Monica, imaginando esses acontecimentos do ponto de vista das plantas. “Épreciso estar atento para as coisas novas que surgem. Em seguida, voltávamos às quedas, e elas não reagiam.” Monica relatou que depois de uma semana deixou as plantas em repouso e constatou que elas continuaram a desconsiderar o estímulo da queda, um indício de que se “lembravam” do que tinham aprendido. Passados 28 dias, a lição ainda não fora esquecida. A cientista lembrou aos colegas que, em experimentos semelhantes com abelhas, os insetos esqueciam o que tinham aprendido depois de apenas 48 horas. Ela concluiu afirmando que “cérebros e neurônios são uma solução refinada, mas não um requisito necessário para o aprendizado” e que existe “em todos os sistemas vivos algum mecanismo unificador capaz de processar informações e aprender”.

Seguiu-se uma discussão acalorada. Alguém objetou que deixar cair uma planta não era um estímulo desencadeador relevante, já que isso não ocorre na natureza. Monica retrucou que o choque elétrico, um estímulo igualmente artificial, é frequentemente usado em experimentos sobre aprendizado animal. Outro cientista aventou que talvez as plantas da pesquisa não estivessem habituadas, apenas exaustas. Ela redarguiu que 28 dias seriam tempo suficiente para reconstruírem suas reservas de energia.

Na saída da sala de conferência, topei com Fred Sack, eminente botânico da Universidade da Columbia Britânica. Perguntei-lhe o que achara da apresentação de Monica Gagliano. “Besteira”, ele respondeu. Explicou que a palavra “aprendizado” implica um cérebro e deve ser reservada a animais: “Os animais podem exibir aprendizado, mas as plantas ganham adaptações pela evolução.” Ele estava fazendo uma distinção entre as mudanças comportamentais que ocorrem durante o tempo de vida de um organismo e as que surgem ao longo das gerações. No almoço, sentei-me em companhia de um cientista russo, que também menosprezou o trabalho da pesquisadora. “Não é aprendizado”, disse ele. “Portanto, não há nada a discutir.”

Na parte da tarde, Monica pareceu ao mesmo tempo melindrada e desafiadora diante de algumas das reações a sua apresentação. Adaptação é um processo lento demais para explicar o comportamento que ela havia observado, disse-me. “Como as mimosas podem ser adaptadas a algo que nunca vivenciaram no mundo real?” Ela salientou que algumas de suas plantas aprendiam mais depressa do que outras, um indício de que “não se trata de resposta inata ou programada”. Muitos dos cientistas na plateia estavam apenas começando a acostumar-se às ideias sobre “comportamento” e “memória” em plantas (termos que até Fred Sack declarou-se disposto a aceitar); usar palavras como “aprendizado” e “inteligência” em plantas parecia-lhes, nas palavras de Sack, “impróprio” e “esquisito”. Quando descrevi o experimento para Lincoln Taiz, ele sugeriu que os termos “habituação” ou “dessensibilização” seriam mais apropriados do que “aprendizado”. Monica contou que seu estudo sobre a mimosa fora rejeitado por dez revistas: “Nenhum dos pareceristas encontrou problemas nos dados.” Em vez disso, fizeram careta para a linguagem que ela empregou na descrição desses dados. Mas a cientista não queria empregar outros termos. “Se não usarmos a mesma linguagem para descrever o mesmo comportamento” – observado em plantas e animais – “não poderemos compará-lo”, explicou.

Rick Karban consolou Monica depois de sua apresentação. “Também passei por isso, levei bordoada de todo lado”, disse a ela. “Mas você está fazendo um bom trabalho. O sistema é que não está pronto.” Quando perguntei a Karban o que ele achava do paper dela, ele respondeu: “Não sei se ela tem tudo bem amarrado, mas é uma ideia legal que merece ser divulgada e posta em discussão. Espero que ela não se desencoraje.”

 

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