A Ópera dos três Vinténs (Kurt Weill / Bertold Brecht)



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A Ópera dos três Vinténs (Kurt Weill / Bertold Brecht)

Em 1728 a Europa vivia o despertar do iluminismo e a aurora das revoluções burguesas. Apesar da abertura de teatros públicos de ópera aproximadamente um século antes, o espectáculo em voga – a Opera Seria italiana – estava essencialmente identificado com a classe aristocrática. Foi neste contexto que o escritor John Gay lança, em Londres, a sua primeira Ballad Opera - «The Beggar’s Opera» - que se manteria durante duzentos anos como o record de permanência em cena. Partindo de uma peça de teatro de temática popular e quotidiana, onde os protagonistas eram mendigos, ladrões, prostitutas, proxenetas e polícias, Gay recolheu 51 temas famosos de ballad songs ou mesmo árias e adaptou-os à peça revestindo-os de novas letras. Os restantes 18 números, bem como a abertura foram providenciados por Pepusch, a quem também coube fornecer o baixo contínuo para toda a peça. O sucesso da peça não só ofuscou as produções de ópera italiana como diminuiu o seu prestígio em Inglaterra. Nos anos seguintes verificaram-se eventos similares pela europa: em 1733, em Nápoles, a obra-prima de Pergolesi – o intermezzo «La serva padrona» - atingia um sucesso superior ao da ópera em cujos intervalos foi executada e a sua performance em Paris, 19 anos mais tarde originaria a Querelle des buffons após a qual a ópera séria de corte nunca voltaria a recuperar o prestígio.

Em 1920, uma revival da obra de Gay viria quebrar o record de permanência em cena mantido até então pela edição de 1728, provocando uma onda de sucesso em Londres. Para comemorar o bicentenário da estreia da Beggar’s Opera, o editor Schott Söhne resolve encomendar uma nova versão a Paul Hindemith. Perante o desinteresse deste, o projecto foi proposto a Kurt Weill e Bertold Bracht que suspenderam a sua “Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny” para que nascesse a Ópera dos três VinténsDie Dreigroshenoper.



Os autores

Filho de um mestre de capela, Kurt Weill (1900-1950) cresceu a assistir frequentemente a espectáculos de ópera. Incentivado a estudar composição, teve aulas com Humperdink e Busoni paralelamente à sua precoce actividade profissional como maestro. Aos 26 anos estreia a sua primeira obra cénica – “O protagonista” – cuja recepção positiva por parte do público desperta a sua vocação para a música de cena e a vontade de caminhar em direcção a um estilo acessível para o público. No mesmo ano casa com a actriz Lotte Lenya para quem escreveu a maior parte do seu reportório lírico. Ainda em Berlim, musicou dramas de Caspar Neher e Georg Kaiser que não foram bem vistos pelo partido Nazi em ascensão. Forçados deixar a Alemanha, Weill e a sua esposa chegam aos Estados Unidos em 1935. “Knickerbocker Holiday” (1938) – em parceria com Maxwell Anderson – foi o seu primeiro sucesso para a Broadway. Nos doze anos que lhe restavam, dedicou-se a compor para o teatro musical. Em 1950, morre subitamente sem conseguir concretizar a ambição de criar “a primeira opera-popular americana”. Paralelamente à produção cénica, Kurt Weill é autor de duas magistrais Sinfonias, um Concerto para violino e sopros, uma sonata para violoncelo e piano, 3 cantatas profanas (incluindo “Das Berliner Requiem”) e uma vasta obra lírica dedicada à sua mulher.



Bertold Brecht (1898-1956) nasceu na Baviera, de uma família burguesa e religiosa. Estudou e exerceu brevemente medicina. As suas primeiras peças são estreadas em Munique após a primeira guerra o que o leva a conhecer o realizador Erich Engel com quem colaboraria durante o resto da vida. O seu trabalho com Erwin Piscator levá-lo-ia a revolucionar o conceito de Teatro Épico. Esta corrente pretendia, através do distanciamento entre o público e a acção, consciencializar e despertar o espectador para a vontade de mudar o mundo. A sua primeira obra de relevo neste campo foi “Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny”, uma ópera de sátira política com música de Kurt Weill. “Mahagonny-Songspiel” (1927), é a primeira colaboração entre os dois artistas à qual se seguiu a obra-prima “A ópera dos 3 Vinténs”, no ano seguinte. Posteriormente, lançaram a ópera juvenil ”Der Jasager” (1930) e, em Paris, “Die Sieben Todsünden” (1934).

Como encenador, Brecht pretendia que a cena retractasse e não transmitisse emoções de modo a não envolver o espectador na acção e preservar o seu pensamento crítico e racional. Isto levava-o a alterar constantemente as encenações das peças. Por volta dos 30 anos, torna-se Marxista vendo-se forçado a exilar-se, em 1933, primeiro na Áustria e por toda a europa até chegar aos Estados Unidos. Já no exílio, escreve “A vida de Galileu” criticando a instrumentação dos artistas e filósofos por parte dos Nazi.



A obra

O libreto original pretendia não ser mais do que uma “transposição” da peça para o contexto moderno mas acabou por ganhar uma dimensão absolutamente actual, não alterando o material mas sim a interpretação deste. Musicalmente, a estrutura da peça é bastante neoclássica: começa com uma Abertura em estilo francês (uma secção inicial lenta e solene, uma intermédia em forma de fuga e uma coda final novamente lenta e solene) a qual se deveria seguir imediatamente a acção. No entanto, Weill opta por introduzir um prólogo cantado pelo Músico de rua (mero figurante no resto da peça) à guisa de coro grego que descreve e introduz o protagonista-vilão. Este número viria a ser o excerto mais célebre de toda a obra – “Die Moritat von Mackie Messer”vulgarmente conhecida como ”A balada de Mack the Knife”.

A acção começa no Soho, na manhã em que o casal Peachum – “empresários” de um bando de pedintes que sonham em integrar a filha, Polly, na alta sociedade – descobrem que a filha está prestes a casar com Mackeath, o mais reputado salteador de Londres. Para impedir a desgraça da família, Peachum tenta mover as suas influências junto do intendente da polícia, Tiger Brown, que, por sua vez, é o padrinho de casamento. A peça desenrola-se numa história de corrupção, sensualidade e ciúme até que, por intermédio de Jenny, uma prostituta que se envolveu com Macheath no massado, a justiça acaba por capturar o vilão e condená-lo à morte. O amor entre este e Polly parece igualmente condenado até que num desenlace inesperado, e quase por intervenção divina (na verdade, da Rainha Victória), “Mackie” é salvo da forca e aceite na família Peachum, agora com perspectiva de um futuro próspero.

A orquestração

Após a 1º Guerra Mundial, a Alemanha tinha ficado enfraquecida e vexada a todos os níveis e, tanto as mortes na guerra como a falta de verbas ditaram o fim das produções com grandes efectivos orquestrais. Forçosamente, os compositores enveredaram por um estilo muito mais camerístico e de economia de recursos de que são exemplos o Concerto op. 24 de Anton Webern e “A História do Soldado” de Igor Stravinsky. Para a produção original, Weill idealizou uma “orquestra” de sete elementos que tocaria vinte e três (!) instrumentos:

I – Saxofones soprano, alto e barítono, flauta, flautim e clarinete;

II – Saxofones senor e soprano, clarinete e fagote.

III – 1º Trompete

IV – Trombone e Contrabaixo



V – Banjo, Guitarra, Ukulele, Bandolim, Violoncelo e Bandoneão

VI – Timpanhos, Percussões e 2º Trompete (!)
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