A paternagem do pai adolescente



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A PATERNAGEM DO PAI ADOLESCENTE:

Novas configurações das relações de gênero nos cuidados parentais


A PATERNAGEM DO PAI ADOLESCENTE:

Novas configurações das relações de gênero nos cuidados parentais
Introdução

A gravidez na adolescência é um tema que permanece relevante no Brasil, devido à alta taxa de jovens que foram mães na adolescência, apontada nas recentes pesquisas feitas pelo IBGE1. Para essa fase da vida há um modelo hegemônico que não compete aos adolescentes se dedicarem à maternidade/paternidade, ou seja, a gravidez na adolescência é geralmente colocada como um “problema”.

Contudo, o foco dos estudos nessas área tende a se voltar exclusivamente para a experiência da maternidade na adolescência, assim como as políticas de saúde reprodutiva e de ações afirmativas relacionadas à gravidez na adolescência são direcionadas para as mães adolescentes. Seja nas pesquisas ou nas políticas, o pai adolescente torna-se quase invisível quando a gravidez na adolescência é abordada como aponta LEVANDOWSKI, (2001).

Durante muito tempo o cuidado foi naturalizado como questões femininas, porém, com a expansão da mulher no mercado de trabalho e o avanço dos estudos e movimento de mulheres, essa naturalização começou a ser questionada e pequenas mudanças começaram a acontecer. Nesse sentido procuramos dar visibilidade à essas pequenas mudanças ao pesquisar a paternidade na adolescência abordando os pais que paternam.

“Paternagem” é um termo recente e ainda pouco usual. Neste trabalho paternagem significa as ações do cuidado realizadas pelo pai, apoiando-nos nos apontamentos de Jean Le Camus, citado por Laurent (2005) que se refere ao lugar de cuidador que o pai deve ocupar desde o momento do nascimento da criança e nas semanas e meses seguintes, ressaltando a necessidade de chamar essas atividades de “paternagem (caregiving ou parenting, em língua inglesa) ”. (LAURENT, 2005, p. 103).

As nossas percepções, sensações, experiências e vivências da intensa desigualdade nas relações de gênero que se apresenta ainda de maneira sólida na sociedade, sobretudo em consequência da divisão sexual do trabalho, inspiraram-nos na construção deste estudo. Como as relações de gênero se constroem por meio das relações de poder, nossos pressupostos é de que paternagem na adolescência poderá lançar pistas de como essas relações se constituíram nas famílias investigadas.

Nossa fundamentação teórica aborda a teoria feminista que desconstrói a naturalização dos papéis sociais. Entendemos que são as ações que possibilitam as mudanças nas normatizações, criando novas possibilidades de paternidades, pois Butler (2015) refere-se à masculinidade e à paternidade como “um conjunto de práticas culturais desarticuladas variadas e variavelmente significativas” (BUTLER, 2015, p. 167). É na perspectiva da variabilidade que a paternagem pode ser pensada como uma prática cultural que ressignifica a masculinidade e a paternidade.

O objetivo da pesquisa apresentada nesse artigo foi investigar a paternagem a partir da percepção de jovens do sexo masculino acerca da experiência de ser pai na adolescência e sua participação no cuidado da criança. Mais especificamente, focamos nos sentidos da paternagem para o adolescente e nos processos de socialização que, de algum modo, possibilitaram aos pais adolescentes paternarem e desafiarem a divisão tradicional de papéis entre pai provedor/mãe cuidadora.


Materiais e métodos
A escolha do método qualitativo e da entrevista em profundidade para coleta de dados justifica-se na medida em que este é o melhor método para compreendermos as relações sociais, segundo Bauer et al. (2002):

A entrevista qualitativa, pois, fornece os dados básicos para o desenvolvimento e a compreensão das relações entre os atores sociais e sua situação. O objetivo é uma compreensão detalhada das crenças, atitudes, valores e motivações, em relação aos comportamentos das pessoas em contextos sociais específicos. (BAUER et al., 2002, p. 65).


Essas entrevistas foram semiestruturadas e individuais, realizadas com auxílio de um roteiro temático. Exploramos as experiências jovens do sexo masculino que foram pais na adolescência com relação à criação que tiveram, os modelos de provedor (a) /cuidador (a) e a relação dessas funções para atribuição dos sentidos que esses jovens dão à masculinidade/feminilidade e maternidade/paternidade.

O recrutamento desses pais ocorreu por meio de investigações em instituições, indicações de colegas e abordagens aleatórias nas ruas. A amostra se restringiu à delimitação do campo, a nossa delimitação foi paternidade na adolescência baseada no ECA2, e o fato de exercerem a paternagem.


Resultados e discussão

Dois contatos foram realizados por meio da nossa rede de convívio profissional (na SEDUC - Secretaria Municipal de Educação de Contagem). Um pai foi encontrado por meio dos dados do Programa Bolsa Família. Conseguimos dois rapazes, por meio de abordagens aleatórias, um em um centro comercial indicado pelo irmão, e o outro numa vila na qual saímos abordando os moradores que se encontravam pelas ruas. E o outro pai conseguimos o contato por meio de sua esposa, que é agente comunitária de saúde.

Todos os pais entrevistados experimentaram a gravidez na adolescência e participaram de alguma maneira das atividades do cuidado. Esses pais moram em bairros de periferia na cidade de Contagem/MG. Dos seis pais apenas um é branco e possui ensino médio completo e a havia expectativa na família de que ele seguisse os padrões de um modelo de adolescência hegemônica. Os cinco pais restantes se declaram pardos e relataram não ter idealizado, antes da paternidade, com exceção de um pai que aos quinze anos planejou ter filho, construir uma família para, segundo ele, não se envolver na criminalidade. Todos os pais relataram conhecer métodos anticoncepcionais.

Nenhum desses jovens possuía irmãs que morassem na mesma casa, em quatro destes, as mães, ao entrarem para o mercado de trabalho, delegaram as atividades de cuidado da casa ou cuidado com irmãos.

Os equipamentos, como por exemplo, hospitais contribuíram positiva ou negativamente para a paternagem destes jovens, sugerindo a necessidade de pesquisas mais especificas para verificar essa influência.

Os jovens que paternaram na adolescência, não apontaram problemas quanto a segurança de suas masculinidades devido ao fato de terem realizado atividades do cuidado. Porém, com apenas uma exceção, eles também exercem o papel de provedores, fato que também sugere uma investigação mais específica nessa relação.

Todos relataram que não se arrependem de terem experimentado a paternidade na adolescência, percebemos que esse evento lhes trouxe reconhecimento social, sendo a porta de entrada para o mundo dos adultos e uma forma de se sentirem respeitados perante a comunidade. Com apenas uma exceção, esses jovens não perceberam muitas oportunidades de escolha para o futuro. Estudar e ter uma carreira profissional não foi narrado por eles como uma possibilidade, como ocorre na classe burguesa para essa fase da vida. A maioria relatou perceber apenas duas possibilidades de futuro anterior a experiência da paternidade: constituir uma família tendo uma renda para provê-la ou entrar para a criminalidade. Para um dos entrevistados, a paternidade foi motivo relatado pelo jovem, de sua saída da criminalidade e entrada no mercado de emprego formal.
Conclusão

Apontamos algumas conclusões obtidas com este trabalho. Primeiro, com relação à nossa proposta de investigar a paternagem, observamos que em todos os casos, a desocupação da mulher dessas tarefas, abriu espaço, por necessidade, para que esses jovens exercessem as tarefas do cuidado.

A segunda observação, que a princípio não era o foco deste trabalho – pois, não delimitamos a amostra pelo fator renda - é de que esses jovens de periferia não têm muitas oportunidades de futuro. O mundo do crime é muito próximo de suas realidades e estes percebem apenas o caminho de formar uma família para não se renderem ao crime, como relataram ter acontecido com muitos de seus amigos de infância. Isso nos sugere políticas públicas emergenciais para ocupação do tempo e ampliação das possibilidades de escolha de vida para jovens de periferia.
Referências

BAUER, Martin W.; GASKELL, George. (Editores). Pesquisa qualitativa com texto: imagem e sam : urn manual pratico I .- Petrópolis, RJ : Vozes, 2002.

BRASIL. LEI Nº 8.069, DE 13 DE JULHO DE 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, 1990. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L8069.htm. Acesso em: 15 de junho de 2013.

BUTLER, Judith. Quadros de Guerra: Quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

IBGE, “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios”. 2013. Disponível em: htttp://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2013. Acesso em: 23 de set. de 2015.

LAURENT, E. O Nome-do-Pai entre Realismo e Nominalismo. Opção Lacaniana, v. 44, p. 92-105, 2005.



LEVANDOWSKI, Daniela Centenaro. "Paternidade na adolescência: Expectativas, sentimentos e a interação com o bebê." PhD diss., Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2001a. Disponível em: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/1598. Acesso em 15 de ag. de 2013.


1 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2013).

2 Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) que estabelece a adolescência até os dezoito anos.


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