A “novelização” dos assassinatos na mídia



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A “novelização” dos assassinatos na mídia
Arrisco dizer que o lado sórdido é inerente à natureza humana. Em diferentes graus, somos atraídos por situações cujo elemento do mistério com uma pitada de morbidez desperta curiosidade e interesse também em diferentes graus. Essa afirmação não tem respaldo psíquico, parte de uma observação distante de quem faz parte do campo da comunicação. De quem acompanhou e acompanha os rumos do jornalismo, e suas áreas adjacentes, e percebe uma das vertentes que mais explora a decadência, a vitimização e a “vilanização” humana. Tragédias como a morte tornam-se um prato cheio para a “novelização” de um fato, com a criação implícita de personagens (vilão versus mocinho), lados (bem versus o mal) e resultados (vítimas versus sobreviventes). Um dos casos que elucida bem essa situação é assassinato da jovem de 22 anos, Dóris Terra, por um usuário de craque em São Francisco de Paula, cidade com cerca de 21 mil habitantes, localizada na Serra Gaúcha. O crime aconteceu no dia 20 de dezembro, às 14h30, quando a vítima saia de um supermercado no centro da município. O indivíduo, que já foi interrogado, é réu confesso e está preso aguardando julgamento, escolheu Dóris aleatoriamente, pois estava decidido a cometer um assalto ( tanto é que saiu armado com uma faca usada ao desferir quatro golpes nela). Por uma razão que foge a nossa capacidade de apresentar uma explicação convivente, ela foi a desafortunada que apareceu naquele ingrato momento.

O que de fato interessa à sociedade é informar que uma jovem foi morta a facadas em um município da região serrana do Rio Grande do Sul, afastado dos centros urbanos, com baixos registros de violência desse porte. Interessa saber que o criminoso estava em frente a um supermercado de tocaia esperando qualquer um para atacar. Interessa saber que estava armado com uma faca. Interessa saber que era usuário de craque e queria dinheiro para financiar o seu consumo. Interessa saber que o crime se espalha, que as razões para a violência seguem fortes e crescentes e que basta estar vivo para ser morto por morte matada. Demais consequências e providências fúnebres cabe aos familiares e amigos. Esse direito de sentir a dor do acontecido pertence à intimidade. Porém, na atual conjuntura, a privacidade da dor passou a ser coletiva via meios de comunicação impulsionado pelas redes sociais. Mas, como na maioria dos casos, não foi o que aconteceu.



Que jornalismo é esse?
Essa midiatização é decorrência da prática do jornalismo que em busca da construção de uma notícia agrega um valor informacional que se consolida em cima da narração e/ou exposição de particularidades e individualidades de um núcleo familiar que chora o desastre com um dos seus membros. Entende-se que explicitar o íntimo não acrescenta ao caráter noticioso nenhuma relevância informativa. Essa abordagem perpassa o que pertence ao privado para o público, transformando a ocasião de sofrimento da família num evento acompanhado pelo público. Ou seja, Dóris Terra recebe uma “fama póstuma” após ter perdido a vida num assalto.   A espetacularização da sua morte e sofrimento de familiares estampou redes sociais e veículos de comunicação. Guy Debord quando discorreu brilhantemente seu célebre livro A Sociedade do Espetáculo, em 1967, foi assertivo, embora talvez não tivesse tal discernimento do quanto o seu conceito se desdobraria em outras esferas, linguagens e meios, ao compor um pensamento que hoje é referência diante da multiplicidade de cenários que podem ser recriados por numerosos autores oriundos de tantas origens e com tantas ideias, umas proveitosas outras desprezíveis, mas mesmo assim produtores de mensagens que reverberam seus saberes. É uma crítica contundente e racional sobre o consumo na sociedade.
O espetáculo – diz Debord – consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa – diz Debord – são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’’.
Dessa forma, o consumo não está restrito ao escambo de mercadoria mediante pagamento, mas sim, ao consumo de informações nos meios de comunicação e nas redes sociais como forma de suprir os aspectos emocionais e sociais equivalente aos que saciamos ao adquirir um produto comercializado. O conteúdo é produto de consumo. E tudo que puder se enquadrar como item de consumo para satisfazer o público, vai ter as possibilidades de encantamento esgotadas em prol da adesão social. Esse encantamento pode ser justamente uma palavra muito usada para definir o jornalismo que se alimenta da dor: o sensacionalismo.
Velório sob flashs: morbidez pelo fúnebre

Nesse contexto, temos elementos dramáticos, simbólicos e sociais que permitem a construção de uma trama: jovem assassinada, morte precoce, família desestruturada pelo fato (drama), violência, marginalidade, crime por furto (social), família tradicional da serra e data Natalina (simbolismo). Aspectos sociais que delineiam a estrutura social


O jornalismo usa e abusa dos recursos de imagens e textuais produzindo uma combinação que resulta em uma construção noticiosa que escapa o tradicional modelo formação de notícia. A construção se desencadeia de forma sequencial, como se fossem capítulos. É a “novelizaçao” da vida real, onde pessoas viram personagens e acontecimentos de suas vidas passam a ser acompanhados pela sociedade. Uma conjunção de fatos culmina para que determinados casos gerem um interesse mais evidente dos meios de comunicação. Importante destacar que todos fatos tem valores e características que se relacionam às questões sociais que fazem parte da sociedade e que colocam cidadãos em situação de fragilidade diante das mazelas que não estão amparadas pelas ordens governamentais. Essa defasagem se reflete em mortes causadas por uma violência diversificada que aumenta as estatísticas de óbitos de pessoas que não estão envolvidas nessa massa criminosa. É o que pudemos perceber com a cobertura do caso Dóris Terra.

Com 22 anos, estudante de Direito, não pode colocar em prática a essência de justiça da atividade que decidiu seguir como vida profissional. Filha de família tradicional de São Francisco de Paula, com pai inserido na vida política, a jovem vivia na capital Porto Alegre e visitava com frequência a família na cidade natal aos fins de semana. Justamente, a sua morte prematura aconteceu na cidade com menores chances de ocorrer, por um cidadão que morava na cidade há quatro anos, conhecendo a geografia do município e a rotina calma e tranquila do interior. O rosto de Dóris reverberou nas redes sociais. Todos se compadeceram da morte da garota. Mas a cobertura não ficou restrita a isso. O sofrimento do pai, parentes amigos também ganham holofotes. O velório ocorreu sob flahs desde o carregamento do caixão, até o desolamento do pai diante da gaveta. As manchetes de jornais exploraram sem parcimônia o mistério que existia no início das investigações, criando um clima de “Quem matou Dóris?”, interrogação que foi capa de um jornal do estado gaúcho. A “novelização”, os personagens, a luta do bem contra o mal, a vítima e o vilão e a comoção da cidade viraram tema de semanas de notícias fomentando uma curiosidade mórbida.


Fotos usadas no site G1, mas que foram reproduzidas por muitos. Citamos o G1 por ser um site de amplo acesso e que determina muitos veículos menores. As imagens demonstram um velório sob flahs.

Velório de Dóris Terra Site: G1



Velório de Dóris Terra Site G1

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