A mística e a espiritualidade da pastoral da juventude



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A MÍSTICA E A ESPIRITUALIDADE DA PASTORAL DA JUVENTUDE


A MÍSTICA E A ESPIRITUALIDADE DA PASTORAL DA JUVENTUDE

Uma Igreja que não confere centralidade aos pobres e não assume a causa da justiça dos pobres não está na herança de Jesus”. Leonardo Boff – Teólogo.


Na América Latina e no Caribe, no Brasil, precisamente, o compromisso com as causas do Reino, nas causas do Povo, fizeram da Pastoral da Juventude, um ponto de encontro para as discussões sócio-políticas, econômicas e religiosas que não podem ser vividas, entendidas e interpretadas separadamente: eis o longo Caminho de Emaús a ser percorrido!

Falar de Mística e Espiritualidade, nos dias atuais, dias de muita violência, pode representar e significar FUGA! E está significando fuga. Está significando: uma falta de compromisso com a realidade a qual estamos inseridos.

Falaremos aqui, da Mística e da Espiritualidade da Pastoral da Juventude, portanto, uma mística e uma espiritualidade pé no chão, cristã, católica e da Libertação.

É encontrar em nós e na comunidade o Mistério que nos faz viver com os pés no chão, mesmo quando voamos alto em nossos sonhos e utopias, atentos aos apelos, aos clamores de nossa gente simples, espoliada, excluída, marginalizada.

Tenho dito nas assessorias que presto aos grupos de base que:

Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a História e a Utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa.

Espiritualidade é aquilo que faz no ser humano uma transformação. O nosso modo de entender o que há de transcendente à nossa volta.

Entendo por transcendente, aquilo que vai além dos limites da experiência, o que nos ultrapassa. Assim dizemos que Deus e as realidades espirituais são transcendentes.

Mística e Espiritualidade não são terrenos onde só andam os que possuem algum tipo de religião. Religiosos ou ateus, todos possuem seus critérios de interpretar os fatos, de enxergar o invisível em tudo o que lhes chega ao conhecimento. As pessoas são diferentes, mas todas têm uma mística e uma espiritualidade.

Nestes anos todos de diakonia e koinonia à Pastoral da Juventude e principalmente ao Reino, entendo que o único espaço de revelação do transcendente que nos é concedido nesta Vida passa exatamente pelas realidades mundanas nas quais existimos, e por elas optamos, sofremos e nos alegramos. Nossos sonhos, nossos valores fazem parte da nossa mística e da nossa espiritualidade porque eles modificam o filtro através do qual enxergamos e interpretamos o mundo. Eles modelam a qualidade da nossa mística e espiritualidade e principalmente do nosso agir enquanto seres humanos.

Necessitamos do mistério, necessitamos do invisível.

A palavra mística tem a sua raiz na palavra MISTÉRIO = O QUE ESTÁ VELADO, OCULTO. Este mistério, para nós da Pastoral da Juventude, é o Mistério Pascal do Moreno de Nazaré, Vivo-Crucificado-Ressuscitado; é a partir dele que a nossa mística acontece, e em nenhuma outra.

Assim também nossa espiritualidade. A palavra espiritualidade tem sua raiz na palavra ESPÍRITO = SOPRO, HÁLITO DE VIDA. É o Espírito Santo de Deus que nos faz caminhar em direção aos jovens, aos pobres, ao Povo, nas causas do Reino, inclusive no martírio.

Nossa mística e espiritualidade busca mais o sentido da Vida!

Se encaramos, se assumimos que somos apenas seres humanos, por isso mesmo, imperfeitos, devemos deixar Deus ser Deus, e daí nossa felicidade será intensa, completa.

Estamos vivendo uma crise da pós-modernidade: guerras, corrupção, violência, aumento do consumo de drogas, AIDS. Neste contexto, o retorno do sagrado é muito forte e desordenado.

Desordenado, pois vários deuses aparecem como se fossem águas represadas. E aparecem aos montes e para todos os gostos. Deuses, no plural, costuma a se equivaler a ÍDOLOS. Aqui na América Latina e no Caribe, o problema não é a falta de Deus, mas o excesso de deuses. Nós temos deuses para tudo quando é lado.

Então qual é o Deus verdadeiro?

Deus verdadeiro é o Deus desconhecido que Paulo falava!

Deuses conhecidos são feitos para satisfazer nossa imagem e semelhança, são deuses do escambo, são deuses do lucro.

Quando se conhece muito Deus, é que deixou de ser Deus, passou a ser um produto em nossas mãos.

O Deus verdadeiro é sempre desconhecido!

O Deus desconhecido se descobre no INFERNO: no inferno do sofrimento humano! No momento em que já quase não existe a dignidade humana, onde toda fiel esperança quase desaparece.

Se a mística e a espiritualidade não levam à liberdade, não é mística e espiritualidade.

Se não faz com que o ser humano possa caminhar, não tem sentido acreditar em sua existência.

O Moreno de Nazaré desce ao inferno do sofrimento humano para caminhar e abraçar o Deus Verdadeiro!

Não há outra forma de chegar a Deus se não for pelo sofrimento humano, não tem jeito. Fazer um deus segundo a própria vontade, somente irá justificar toda pequenez e egoísmo que há dentro de cada um.

Acreditar nos passos que podem e devem ser dados, um de cada vez, viver intensamente cada um desses passos é o primeiro caminho para se viver a mística e a espiritualidade da Pastoral da Juventude.

É preciso voltar às fontes primordiais de nossa fé, de nossa vida.

Melhor do que receber o copo d’água é ir a fonte!

A fonte de toda atividade profética da Pastoral da Juventude é o Moreno de Nazaré!

Deve-se tentar segui-lo na medida do possível; seus passos devem ser passos dados no cotidiano; é tentar cumprir o mandamento novo: amar a Deus como elemento fundante de uma mística e espiritualidade que brota do chão de nossos dias, que germina de nossa realidade dura e sofrida.

Os bispos diziam em Puebla (1979): “a opção preferencial pelos jovens é a mais notável tendência da vida religiosa latino-americana” , e é a mais notável tendência da vida da juventude que se coloca à disposição do Reino neste Continente da Esperança.

Jovens comprometidos com a realidade na qual se está inserido se tornam referenciais para toda a comunidade, para toda a Igreja e para toda a sociedade. Ao se afastarem de suas bases por conta de compromissos assumidos na estrutura eclesial, o elo se que quebra, se isso acontece com frequência, algo está errado na caminhada.

Um grupo de base da Pastoral da Juventude sempre reza, sempre ora, mas não esquece que toda discussão, parte de dentro para fora da Igreja, não há portas fechadas, não há línguas estranhas, nem anjos subindo ou descendo, pois se fala o que a juventude entende e compreende, não pode haver panelinhas, nem falsidades, deve prevalecer sempre: o respeito, a amizade, o diálogo e o perdão.

A mística e a espiritualidade nasce do sangue derramado pelos mártires da caminhada latino-americana e principalmente do sangue do primeiro mártir: o mártir Jesus!

A mística e a espiritualidade da Pastoral da Juventude não é para gente frouxa,não é para gente covarde; é mística e espiritualidade cristã que tem sua centralidade num ser humano, judeu, do século I E.C., um habitante das regiões do Oriente Médio, queimado de sol, agricultor, carpinteiro, contador de histórias, desde o nascimento: pobre (como a maioria dos pobres que encontramos nas ruas de nossas cidades todos os dias mas que não se dá a devida atenção).

Toda mística e espiritualidade da Pastoral da Juventude nasce de uma profunda vivência orante bíblico-litúrgica.

Como é prazeroso para um grupo de base poder degustar e refletir a Palavra de Deus a partir da realidade em que vive, usando inclusive, o método da Leitura Orante da Bíblia.

Iniciando a reunião, o encontro de irmãos, rezando o Ofício Divino: das comunidades, da juventude, dos mártires da caminhada...

Se colocando na frente de Deus, disposto a escutá-lo e saber o que Ele pede.

Todo grupo de base da Pastoral da Juventude inicia seu caminho místico, seu itinerário espiritual, a partir da Sagrada Escritura, da Sagrada Liturgia, inculturadas e encarnadas no cotidiano.

Deve construir suas experiências, escutando o que Deus fala hoje, agora mesmo.

Orar é escutar o que Deus tem a nos falar!

Orar é silenciar, mesmo no turbilhão barulhento de nossos dias!

Orar é auscultar o que a natureza-criação expressa cotidianamente!

Orar é agradecer-pedir quando todos os sentidos de nosso corpo embebedarem-se do sopro de Deus: RUAH – VIDA!

Quem está com sede quer água!

Mas beber em qual poço? Com qual vasilha? Com qual balde?

Como se está buscando esta fonte, aqui no grupo, na comunidade, na Igreja, no Brasil, na América Latina e no Caribe?

Que fonte é esta que me faz caminhar no deserto? Que deserto é este?

Que fonte é esta que me faz refletir sobre mística e espiritualidade?

Que fonte é esta que me faz praticar?

A fonte, a água, o poço: há um mistério que envolve todo o processo de procura e encontro, há algo que transcende.

A fonte Jesus é transcendente mas não está longe! Está aqui e agora. Está nas realidades mundanas nas quais existimos.

Beber em seu próprio poço: descobrir o caminho que leva de volta às alegrias-tristezas, conquistas-decepções...aquilo que busca o sentido da Vida!

Qual o sentido da tua vida?

Você faz parte da herança de Jesus de Nazaré?



Sim ou sim?

Emerson Sbardelotti

Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade de São Paulo

Arte-Vida: Ateliê 15

Postado por Emerson Sbardelotti às 21:10 


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