A linguagem não-verbal de cantares



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Alguns detalhes citados por Salomão na canção são sutis, e ele os escreverá de memória em Cantares. Se a história é imaginada, se O cântico faz parte somente dos sonhos, é uma representação de um desejo profundo do coração do jovem, sua imaginação é muito detalhista. Ele descreve o romance como se nele estivesse.

Sunamita corre como uma criança – Ct 1.14 Leva-me tu; correremos após ti – vira o rosto embaraçada, envergonhada diante dos olhos das filhas de Jerusalém, Salomão a percebe por inteiro “mais formosa entre as mulheres” percebe a forma e os contornos de seu rosto apesar dos enfeites “formosas são tuas faces entre teus enfeites”, percebe o cheiro de nardo que ela exala á distancia, enquanto ainda assentado no trono e ela em meio ao salão.. onde deviam haver outras pessoas...elogia a textura ou tessitura de sua voz. Salomão nota machucados em seus pés, que certamente ela estava tentando esconder dele... (2.13) Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras... ele nota a beleza da voz da cantora...e a classifica como “doce” (2.14) Salomão percebe o movimento dos cabelos de Sulamita ao vento do entardecer de Israel e o compara a um rebanho de cabras...ele nota detalhadamente os dentes da moça...e tece outra comparação...ele presta atenção ao ritmo e ao som das suas palavras, enquanto ela conversa com ele. Antes prestara atenção ao canto (2.13) – ele a ouvia cantando quando subia as ladeiras! e em 4.3 ele fixa sua atenção no modo como ela fala. Ele percebe a testa da moça mudando de cor! - a tua fronte é qual um pedaço de romã entre os teus cabelos. – Percebe a simetria dos seios da moça, ainda sob o vestido! (4.5) Ele nota sua pele, até onde podia ver sem levar obviamente um tapa na cara, a vasculhou com seus olhos e diz que sua pele é perfeita, que ela não possui nenhuma mancha! (4.7) Salomão percebe como ele mesmo fica alterado quando ela segura de certo modo o colar que ela carrega constantemente. Ela brinca com o colar e a visão dessa jeito feminino dela mexer com o adereço é para ele um gesto muito meigo. Salomão cita o “cheiro dos teus vestidos é como o Libano” e se duvidar é de lá que eles vieram! “Desvia de mim os teus olhos, porque eles me dominam” (Ct 6.5) Salomão percebe a intensidade do olhar da menina. Creio que é importante frisar isso. É um dos recursos dramáticos mais utilizados em filmes. Se você retirar a força dos olhares, a dramaturgia deixaria de existir, assim como o cinema. Na maioria dos filmes românticos, um olhar define quase tudo. Essa é a primeira vez na história humana que literariamente é citado aquilo que nós hoje vemos todos os dias na televisão, no teatro e no cinema. 2564 anos antes de Shakespeare. Foi Salomão que primeiro anunciou ao mundo a força do olhar apaixonado. Porque ele sentiu na pele essa força.

O leitor de Cantares está diante de um mundo novo, um mundo de detalhes e percepções que não fazem parte da literatura de sua época. Nem das Escrituras. Os textos das Escrituras nos mostram poucas características de seus personagens. Alguns nos são apresentados tão brevemente quanto um suspiro. Enoque nasce, vive e é transladado em dois. Três se somarmos a profecia dele que nos é revelada na epístola de Judas. Não temos detalhes sobre a aparência de nenhum personagem bíblico. Tudo que sabemos sobre a descrição física de Ester, Sara, Rebeca, Raquel, é que eram mulheres formosas, nada mais. Não há esse grau de detalhe tão comuns na literatura atual, influenciado pelo cinema que capta em close-up as pequenas mudanças nas expressões faciais de seus personagens. Os textos são curtos, as descrições sobre sentimentos, sensações e os sentidos das pessoas presentes nas Escrituras resumidas, lacônicas. A maior parte do tempo o estudante das Escrituras necessita imaginar o modo, as roupas, a fala, os sentimentos, as expressões dos personagens bíblicos. As ações proféticas são sempre desmedidas, desproporcionais, não usuais, para que fiquem em RELEVO nas Escrituras. Única vez, de um modo mais sutil, por assim dizer, veremos Jacó puxando para si seu filho para “cheirar” suas vestes, mas a maioria dos sentimentos para serem vistos pelos povos da antiguidade, para que pudessem distinguir mudanças drásticas do contexto tinham que ser “dramáticas”. Exageradas. Nós lemos quando José chora a respeito dos irmãos, que ele está no “limite” de sua emoção, tão comovido em ver a mudança de atitude de seus irmãos depois de vinte anos de afastamento que ao chorar é ouvido em todo o palácio de Faraó. Essa nuance sutis de sentimentos é estranha a percepção dos antigos. Quando oravam, o faziam em voz alta, a oração silenciosa em publico era algo desconhecido! Quando Ana ora balbuciando palavras sem emitir som, quando chora diante da tenda da congregação derramando lágrimas silenciosamente, é tomada como bêbada!

Por toda as Escrituras as emoções são contidas, abreviadas, mostrando-se para nós geralmente sentimentos nos limites humanos, ira, raiva, desgosto, medo, coragem. Porém, Cantares derrama-se em sentimentos, emoções e sentidos!

Os atos dos profetas para serem DISTINGUIDOS como atos proféticos são SEMPRE exagerados, são teatrais, são dramáticos. Os hebreus esperavam sempre de seus profetas atitudes e atuações dramáticas, diferentes, cinematográficas. Quando os judeus estão diante de Jesus e lhe trazem a moça que foi pega em fragrante de adultério, Jesus sequer olha para eles, fica sentado escrevendo com um pedaço de madeira rabiscos no chão. Os judeus ficam desconcertados, estão berrando, gritando, trazendo uma condenada à morte para um mui próximo apedrejamento, esperando FORTE reação emocional, exasperação, um bate-boca sem precedentes, uma tremenda gritaria, e lá está ele, SERENO, dócil, sem movimentos exagerados, sem uma reação febril, o que era de se esperar. Nada disso. Jesus somente ESCREVE... Com a paciência de um caligrafo chinês...

Há uma metáfora profunda de comunhão espiritual contida em Cantares. O modo com o qual o Espírito de Deus tratará com sua Igreja. O Amado percebe de um modo incomum os pequenos e sutis movimentos de nossa alma. O mistério do relacionamento do crente com Deus é de uma suavidade ímpar. A celebração da Nova Vida em Cristo não nos leva a uma constelação de sentimentos exagerados. Nossa alma não é perturbada por poderes incompreensíveis que nos alterem a consciência de modo a nos tornarmos semideuses. Nossa consciência não é alterada a ponto de perdermos nossa humanidade. A presença de Deus em nós é muitas vezes imperceptível. Haverão momentos exagerados, emocionalmente e espiritualmente falando, (tal como João na ilha de Patmos, Daniel quando recebe Miguel, Pedro a frente da Porta Formosa, Paulo abraçando Eutico que caiu de uma janela e ressuscita nos braços do apóstolo, dias de sonhos, de coisas espirituais mais profundas) mas na maior parte do tempo de nossas existências nós perceberemos ao Espírito de Deus em nós como percebemos ao nosso próprio coração. Suavemente.

O Espírito de Deus nos percebe como Salomão percebia a Sunamita. Apaixonadamente, completamente, abrangentemente, profundamente, detalhadamente. Essa capacidade transcendental de Salomão perceber a amada, é uma sombra da capacidade do Espírito perceber nossas vidas, os movimentos do nosso coração. E através deles, ler continuamente nossa alma.

Salmos 139
[Salmo de Davi para o músico-mor] SENHOR, tu me sondaste, e me conheces.

Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento.

Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos.



Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó SENHOR, tudo conheces.

Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão.



Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir.

Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?

Essa capacidade do Espírito de Deus “interpretar” nossas vidas é conhecida pelo pai de Salomão, por Davi. A linguagem não corporal, a cinésica, os micro-gestos em Cantares são um retrato poético do modo como o Espírito conhece sua Igreja. Não somente o que sente, mas o que aspira, o que deseja, e o que não COMPREENDE sobre si mesma. Paulo falou que em parte nós Conhecemos os mistérios, em parte não. Os gestos inconscientes que usamos para nos comunicar mostram estados de nossa alma que muitas vezes desconhecemos ou ignoramos. O Espírito de Deus vai mais além. Ele lê o invisível de nossa alma e o invisível do nosso coração, conhecendo-nos de um modo magistral, absurdo e absoluto. As revelações do Espírito de Deus para nossa mudança de comportamento, postura ou atitudes traduzem seu cuidado amoroso, limitando ele o que podemos conhecer sobre nós mesmos! Ele sabe de coisas que nos entristeceriam demais, desnecessárias de serem ditas. E de coisas que necessitam ser mudadas em nós. Não somos o que dizemos. Não somos o que pensamos. Nós somos mais complicados do que o que expressamos em pensamentos e em palavras.


Diversas vezes Salomão irá “tocar” Sunamita no poema. Esse toque é carinhoso, amigo, fraterno e amoroso. Em todas as vezes que o vermos, fora o beijão do inicio do poema, ele o fará carinhosamente, sem ferir seu senso de ética, sem ferir sua natureza, sem forçar um processo de sedução falsificado, sem transgredir as convenções sociais que trariam vergonha para Sunamita.

E vejam que a Sunamita é bem menos envergonhada que sua filha, que aparece em Cantares 8.

Eles brincam. Inicia-se o primeiro momento de comum acordo... desprezando a possibilidade do beijo ter sido intencional por ambos...correndo!.

Leva-me tu; correremos após ti!

Ele a conduz correndo pela gigantesca casa do bosque do Líbano, ou pelo seu palácio! Como uma criança brincando...

O toque é uma das maiores necessidades humanas.

A percepção espaço-temporal da pele é mais rápida que a do olho e mais simples. Por que se canta no chuveiro? O estímulo da pele pela água induz mudanças respiratórias que remetam em música. A privação das necessidades tácteis leva ao choro, logo acalmado pelos braços e carinhos materno. O que é um ser humano sadio? Aquele que é apto para amar, trabalhar, brincar e pensar criticamente – é um ser humano sensível, aquele que foi “tocado”.

Quem não foi tocado adequadamente tem mais desorientação espacial, mais síndrome de pânico, mais angústia. Um meio de retomar o contato é buscar mãos amorosas que lhe devolvam as carícias maternas ou seus substitutos, seja nos cabeleireiros, nos consultórios médicos ou massagistas, uma vez que a cultura cerceia e bloqueia as oportunidades de toque, como faz desde que a criança é impedida de receber embalo e cuidados maternos.

O bebê devidamente embalado e aconchegado recebe estímulo positivo para seu funcionamento celular e visceral, principalmente cerebral, respiratório e gastrointestinal. O embalo faz com que os líquidos e gases do instestino se movimentem ajustando a digestão, absorção e eliminação. Em 1934, Zahovisky declarou que “bebês acalentados após as mamadas têm menos cólica, menos espasmos intestinais e se tornam mais felizes que os bebês confinados ao berço…” Um dia, diz ele, “acredito que não haverá dúvida quanto a embalar a criança e cantar para ela adormecer”.

Resumo do livro de Ashley Montagu: “Touching – The human Significance of Skin” – TOCAR: existe ed.b

A pele nas Escrituras

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