A leitura e a escrita na criançA: apreciaçÃo de atividades a partir de um projeto de extensãO



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XXII Semana de Educação da Universidade Estadual do Ceará

31 de agosto a 04 de setembro de 2015



A LEITURA E A ESCRITA NA CRIANÇA: APRECIAÇÃO DE ATIVIDADES A PARTIR DE UM PROJETO DE EXTENSÃO

Railane Bento Vieira/Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA)

e-mail: railanebento@gmail.com

Maria Valcidéa Nascimento/Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA)

e-mail: valcidea@yahoocom.br

Francisco Ricardo Miranda Pinto/Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA)

e-mail: Ricardo-miranda1629@hotmail.com

RESUMO:

Tratamos nesta pesquisa sobre o processo de aquisição da leitura e da escrita com crianças de escola pública do bairro Vassouras, no Distrito de Taperuaba, Sobral, Ceará, a partir de uma experiência de um projeto de extensão denominado ‘Nas férias também se aprende’! Atividade extensionista realizada por quatorze (14) acadêmicas e duas (02) professoras do curso de Pedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA, sede Sobral, cuja experiência ocorreu no período de férias escolares. Optamos pela pesquisa de caráter qualitativa com observações e análises das atividades de leitura e escrita realizadas pelas crianças participantes do projeto. Deram sustentáculo teórico aos estudos os seguintes autores: Cagliari (1995), Ferreiro (2010), Simonetti (2005), Soares (2003), Solé (1998), Teberosky (1994), Vygotsky (1998), entre outros. Constatamos na investigação que as atividades lúdicas contribuem para a aprendizagem na área citada, que a linguagem é um processo que permite a interação e a cooperação entre os grupos sociais, que as atividades didático-pedagógicas devem ser variadas com diferentes gêneros textuais, atender as diferentes faixas etárias, ritmos de aprendizagens e o contexto social onde está inserida a criança.



Palavras-chave: Leitura. Escrita. Atividades lúdicas.
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como objetivo apresentar um estudo sobre o processo de alfabetização de crianças de escola pública de Vassouras, no Distrito de Taperuaba, Sobral, Ceará, a partir de uma experiência de um projeto de extensão do curso de Pedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA, sede Sobral, cuja experiência ocorreu no período de férias escolares, com a denominação de ‘Nas férias também se aprende! Vivenciando atividades educativas através da ludicidade’.

O projeto surgiu de uma ideia de um grupo de acadêmicas pertencentes à referida comunidade, e da iniciativa das professoras Railane Bento e Valcidéa Nascimento, e teve como objetivo vivenciar atividades lúdicas de caráter educativo e interdisciplinar, com foco no processo de aprendizagem da leitura e da escrita.

A relevância do estudo justifica-se em função de um diagnóstico realizado que constatou que as crianças no período de férias, além de ficarem ociosas, se distanciavam do processo de alfabetização em andamento no período escolar, ocasionando uma ruptura deste processo levando as crianças a terem um retrocesso na sua aprendizagem. Visando contribuir para amenizar esta problemática, o projeto veio fortalecer os vínculos de aprendizagem e afetividade, uma vez que o grupo convivia com diferentes faixas etárias de crianças entre três a dez anos, onde realizavam atividades que além da interação e socialização de saberes através de jogos, contribuíam para uma aprendizagem lúdica com leitura e escrita de forma significativa.

Portanto, as atividades desenvolvidas tiveram como objetivos, oportunizar as acadêmicas do curso de pedagogia elaborar e vivenciar práticas pedagógicas com jogos, brincadeiras e motricidade com crianças em diferentes faixas etárias; Proporcionar a interação e socialização do grupo pela vivência de jogos e brincadeiras com caráter educativo para as crianças desta comunidade; Realizar diferentes atividades pedagógicas interdisciplinares visando melhor aquisição do ensino-aprendizagem e desenvolvimento de competências conceituais, procedimentais e atitudinais;

Neste sentido, foram usados diversos recursos metodológicos, como música, jogos, dinâmicas, contação de histórias, atividades estas que favoreciam o desenvolvimento da leitura e escrita, como o reconto da história, bingo das sílabas, jogo do dado nas letras do alfabeto, letra inicial das figuras, palavra rimada, etc. A partir destas atividades realizadas, faremos uma análise do processo de leitura e escrita apresentadas por essas crianças.

Este estudo se caracteriza como pesquisa de natureza qualitativa e participante, já que, ao mesmo tempo em que realizávamos a pesquisa interagíamos com os participantes do projeto. Para fundamentar nosso estudo e apreciação dos resultados contamos com a contribuição dos autores Cagliari (1995), Ferreiro (2010), Simonetti (2005), Soares (2003), Solé (1998), Teberosky (1994) Vygotsky (1998), entre outros.

Iniciaremos nossos apontamentos com Vygotsky que em seus estudos interessou-se por muitas áreas, entre elas a psicologia, e também se preocupou com questões da pedagogia. Partimos então para a sua preocupação central que foi o estudo da linguagem como constituidora do sujeito numa visão histórica e cultural. A linguagem se manifesta no ser humano, na criança para ser específico, desde seu estágio de recém- nascido. Quando bebê, mesmo sem saber falar, procura se comunicar com outro indivíduo através de balbucio, do choro, de sons, embora não seja compreendido.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (1998, p.22) em consonância com o pensamento de Vygotsky explana que:


A língua é um sistema de signos histórico e social que possibilita ao homem significar o mundo e a realidade. Assim, aprendê-la é aprender não só as palavras, mas também os seus significados culturais e, com eles, os modos pelos quais as pessoas do seu meio social entendem e interpretam a realidade e a si mesmas.
Não é somente com a linguagem falada que o indivíduo se comunica, aprende, o aprendizado se dá também por meio da linguagem escrita que é uma forma de registrar nossas ideias, representando um novo salto para o desenvolvimento humano, “a linguagem escrita é constituída por um sistema de signos que designam os sons e as palavras da linguagem falada, os quais, por sua vez são signos das relações e entidades reais” (Souza, 2008, p. 11), tanto que as escolas focam muito essa questão de desenvolver em seus alunos a competência do ler e escrever, mesmo que seja com uma maneira desestruturada de ensinar. Desta forma, reforçando o exposto, Teberosky (1994, p.34) afirma:
Em um ambiente tão alfabetizador como é a sociedade urbana (outdoors, televisão, publicidade, imprensa, práticas familiares com criança pré-escolares, etc.), fica claro que a escrita não é especialidade escolar e que a língua escrita aparece independentemente da escrita da mesma. Hoje em dia, são muitas as situações de escrita que têm lugar fora da escola.

Trabalhar a linguagem escrita para alguns professores parece desafiador, principalmente quando se trata de contextualizar o conteúdo com a vivência do aluno, de fazê-lo com que aprenda de forma espontânea, através de dinâmicas, brincadeiras, ludicidade, pois de acordo com Wajskop (1995, p.68) “o contato, manipulação e o uso dos brinquedos, por seu lado, possibilita às crianças uma aprendizagem multidisciplinar das formas de ser e pensar da sociedade”.

Em termos podemos dizer que a escrita na criança se desenvolve primeiramente em signos e gestos visuais como os rabiscos, que futuramente as crianças demonstram em forma de letras misturadas com símbolos o que pretendiam escrever mesmo não tendo o conhecimento alfabético. Portanto, o desenho pode ser uma linguagem gráfica que representa a verbalidade. Em relação a esses estágios que a criança passa para se apropriar da linguagem escrita é necessário a escola buscar uma melhor compreensão da fase inicial da infância e desenvolver projetos na educação para facilitar a aprendizagem respeitando suas fases.

Sabemos, no entanto, que ensinar crianças é uma tarefa difícil, exige habilidade, criatividade, comprometimento, pesquisa, observação, e o melhor método para as descobertas vem da própria ação da criança na descontração. O maior desafio dos professores é fazer com que desperte o interesse destas pela leitura e escrita. Principalmente porque esta competência é muito cobrada nas avaliações externas, que têm por finalidade demonstrar resultados muitas vezes alheios à compreensão do processo de leitura e escrita pela criança.

Defende Simonetti que “alfabetizar e letrar na educação infantil é, antes de qualquer coisa, provocar e despertar nas crianças o desejo e o prazer de ler e escrever, inserindo-as de forma lúdica no mundo da leitura e da escrita.” (2005, p. 13), por isso, o professor deve usar de métodos que conquistem a atenção da criança e fazer com que ela sinta vontade de aprender a ler e escrever, de forma espontânea em brincadeiras, jogos e experiências naturais, esse é um dos desafios escolares, porque deve entrelaçar dinamização e conteúdo adequado para o ensino aprendizagem de forma significativa para a criança.

Porém é necessário considerar todo o processo em que a criança passa na aquisição da leitura e escrita, pois a aprendizagem envolve questões desde a forma de pegar no lápis, noções do direito e esquerdo, de baixo para cima e vice-versa, o reconhecimento das palavras na escola, na rua, no desenho animado, no comercial da televisão, até a compreensão crítico-reflexiva dos textos em leitura.

Assim, Soares afirma (2003, p. 13): “o que mais se denomina letramento, de que são muitas as facetas - imersão das crianças na cultura escrita, participação em experiências variadas com a leitura e escrita, conhecimento e interação com diferentes tipos de gêneros de material escrito”.

Por concordarmos com a colocação acima referida, optamos pela realização das atividades do projeto em trabalhar com diversidades de portadores de textos do tipo: história fatiada, conto e reconto, bingo ortográfico, apresentação de vídeo com a contação de história, teatro, dança, jogos de boliche, alfabeto móvel, contação de história oral com gravura e baú de objetos.

De acordo com o exposto, Solé (1998, p. 57) reforça que o adulto deve contribuir com diferentes tentativas de ajudar a criança a ler e escrever e pronuncia-se:
A participação em atividades conjuntas com os pais e na escola, ler histórias, presenciar elaboração de uma lista de compras, levar um bilhete da escola para a casa, ver a professora lendo histórias… propiciou a construção deste conhecimento de como leitor deve reconhecer a realidade…e aprender nos livros, jornais, papeis, anúncios, latas de produtos consumidos atualmente… se “dizem coisas” e que logo elas se sintam muito motivadas para saber o que dizem. Daí a pergunta: “O que está escrito aqui?” Que elas formulam com insistências aos adultos que as rodeiam.
São muitos os desafios a enfrentar, mas a aprendizagem como conquista ocorre através da interação com os indivíduos, escola, professor e com os conteúdos, materiais pedagógicos, que a criança aprende agindo, brincando, participando do meio em que lhe proporciona conhecimento, esta é a definição da teoria sócio-interacionista, cujos teóricos como Vygotsky, Piaget e Wallon, contribuíram para esse conceito, e nesta perspectiva Simonetti (2005, p.28) nos diz que: “o aluno aprende melhor agindo e interagindo de modo significativo como protagonista do próprio aprendizado, experimentando, pesquisando em grupo, sendo estimulada a dúvida ao desenvolvimento do raciocínio, entre outras estratégias”.

O que vem contribuir para o entendimento da enorme responsabilidade do professor enquanto mediador em sala de aula, que estimule o desenvolvimento da autonomia na criança. A partir da concepção de Piaget, Kamii (1990, p.114) destaca que: “a criança adquire conhecimento ao construí-lo a partir de seu interior em vez de internalizá-lo diretamente de seu ambiente”. Podemos então asseverar que o professor deve ser um encorajador das aprendizagens estimulando a criatividade e a autonomia, assim procedendo, o professor é um mediador na formação da criança cidadã.

Outra corrente que vem influenciar em nosso estudo na educação é o construtivismo, que para Teberosky (2003), esta corrente contribuiu para a apreensão de que a alfabetização acontece em contextos culturais e sociais determinados. E de que a escrita, a oralidade e a leitura se desenvolvem de modo interligado desde o nascimento da criança. E, no entanto, a escola deve considerar essa conjuntura, em que vive a criança no processo de alfabetização.

Sobre a Alfabetização, surge nos anos 1990 reflexões sobre a teoria da psicogênese da leitura e da escrita a partir de estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky. As autoras afirmam que as crianças já trazem um conhecimento sobre leitura e escrita antes mesmo de ir à escola. A psicogênese da escrita nos dá subsídios para compreender o processo de aprendizagem nas crianças apresentando hipóteses que identificam o desenvolvimento da leitura e escrita em fases, a partir de suas interpretações e o próprio pensamento e atitudes das crianças em relação a cada conquista que aprende passo-a-passo.

Ferreiro (2010, p.81) nos diz que a escola tem se afastado dos usos sociais da escrita, ratifica existir “um mecanismo encoberto de discriminação social que dificulta a alfabetização”, que ao privilegiar a escrita em si, traz para a sala de aula um ensino descontextualizado. Logo, aquelas crianças que em seu cotidiano devido a diversos fatores, ou mesmo ter pais analfabetos, não têm contato com a escrita, se distanciam cada vez mais do significado deste saber de forma natural e a importância do seu uso na sociedade.

Ela nos diz ainda que, o ideal seria a criança entrar em contato com o objeto de estudo, que ela experimente a língua, ou seja, trazer para a sala de aula os contextos sociais reais da língua.

E assim acontece também com a escrita. De acordo com Ferreiro:
As letras, as sílabas, as palavras ou frases se apresentam em uma certa ordem, em doses pré-fabricadas, iguais para todos, para evitar riscos [desperdício de tempo]; nega-se acesso à informação linguística até que se tenham cumprido os rituais da iniciação; não se permite à criança “escutar língua escrita” (em seus diferentes registros) até que a mesma não possa ler; a língua escrita se apresenta fora do contexto (o professor não lê para informar-se nem para informar a outros, mas para “ensinar a ler”; não escreve para comunicar ou para guardar informações, mas para “ensinar a escrever”(2010, p30).

Esta fala retrata muito bem a realidade escolar, pois o que encontramos muitas vezes são professores desmotivados, que apenas reproduz o que os livros trazem que não exercita a prática da leitura e escrita para si, mas apenas a utiliza para ‘o ensinar’.

Quando se fala em escrita temos um mundo composto por muitas representações, ou seja, a escrita é apresentada nos livros de diversas formas, letras cursiva, letra de forma, maiúscula, minúscula, só que para a criança que está iniciando sua vida escolar, estas situações se apresentam de forma confusa, faltando um esclarecimento na hora de ensiná-la, uma vez que um dos objetivos da alfabetização é ensinar a escrever.

“A escrita é uma atividade nova para a criança, e por isso mesmo requer um tratamento especial na alfabetização” ressalta Cagliari (1995, p. 96), ou seja, requer metodologia, didática, abordagem diferenciada, considerando a faixa etária da criança, o contexto em que vive, diferentes atividades que contemplem o interesse e as habilidades de cada educando, desde atividades de movimento psicomotor até a caligrafia, jogos, brincadeiras, reconto de histórias, dentre outras ações didáticas.

A escrita é uma forma de registrar o que pensamos, produzimos, para algumas pessoas isso não tem nenhuma importância, porém para alguns grupos sociais isso faz toda diferença, “além de necessária, é uma forma de expressão individual de arte, de passatempo.” (CAGLIARI, 1995, p.101). No entanto, depende do contato que o indivíduo teve com o incentivo a escrita. Cabe ao professor pesquisar, compreender, estimular para que seu discente desenvolva e aprenda a escrita de forma satisfatória, para que este compreenda seu real significado no meio social. Além de procurar desenvolver neste processo o gosto pela leitura e escrita de seus alunos, porque na verdade precisamos de motivação para ler ou escrever alguma coisa.
METODOLOGIA
A pesquisa de abordagem qualitativa a partir de uma experiência de um projeto de extensão realizado na comunidade de Vassouras, no distrito de Taperuaba, Sobral, Ceará, com crianças em período de férias escolares, onde ao realizar atividades lúdicas com essas crianças identificamos alguns critérios que mereciam análise, especialmente no processo de leitura e escrita apresentadas por eles.

Participaram deste projeto quatorze (14) acadêmicas que estavam entre o primeiro e o oitavo semestre e duas (02) professoras do curso de Pedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA, Sobral. E quanto às crianças, foram realizadas visitas nas casas destas pelas próprias acadêmicas para fazer uma sondagem do interesse dos pais e crianças para aceitação do projeto, e então obtivemos as inscrições de vinte e cinco 25 crianças de diferentes idades entre os três aos dez anos de idade, e nas modalidades do infantil III ao 5º ano.

Ao darmos início às atividades planejadas que seguiam critérios educativos, para interação, socialização e psicomotricidade das crianças, atividades de linguagem envolvendo a leitura e a escrita, e a matemática, passamos a observar vários fatores em nossa prática pedagógica. Por se tratar de uma turma mista e de ritmos de aprendizagens diferenciadas, resultou em dificuldades de compreensão nas atividades propostas, o que demandou uma triagem das crianças participantes por faixa etária e níveis de conhecimentos prévios.

A experiência nos permitiu perceber que apesar das diferentes idades, houve muita interação, cooperação e fortalecimento de laços afetivos entre todos os participantes. No entanto, nos deteremos nas análises das atividades de leitura e escrita desenvolvidas, no decorrer do projeto. Sendo assim, teremos como objeto de análise os planos de aula elaborados pelas acadêmicas e as vivências das atividades na área em foco.



ANÁLISE E DISCUSSÃO

a) Lócus da ação e pesquisa
Segundo dados da SANEBRÁS engenharia e meio ambiente (2014) o Distrito de Taperuaba está localizada no município de Sobral, Ceará. Em 2000 de acordo com dados do IBGE o Distrito de Taperuaba possuía uma população urbana de 3.456, a rural 1.969, totalizando 5.425 habitantes. O Bairro Vassouras fica localizado na área rural do distrito, é nesse contexto que ocorre a referida investigação. Tendo como sujeitos 25 crianças de escolas públicas desta região, catorze acadêmicas e duas (02) professoras do curso de Pedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA, Sobral.
b) As atividades realizadas sobre leitura e escrita

Na aplicação do projeto de extensão intitulado “Nas férias também se aprende!” teve como intuito favorecer aprendizagens para as crianças no período de férias escolares através de atividades que tiveram um caráter lúdico. Segundo Negrine (1994) as atividades lúdicas contribuem de forma poderosa no desenvolvimento integral da criança interligando todas as suas dimensões: psíquica, moral, intelectual e motriz.

Foram realizadas atividades diversas como jogos, músicas, brincadeiras, contação de histórias, voltadas para a interação e socialização dos participantes, bem como trabalhar a linguagem e a matemática. Porém nos deteremos aqui a analisar aquelas voltadas para o estímulo da leitura e escrita. Conforme Bagno (2007, p. 88): “É preciso afirmar que a escola é apenas um domínio social no qual alunos e professores desempenham papéis sociais que exigem determinado letramento”. [...]. Não apenas as crianças aprendem, tampouco a escola é o único local onde se aprende. Qualquer evento de letramento envolve aprendizagem.

As atividades que tiveram como foco desenvolver a linguagem foram: contação de história de diferentes modos, leitura em cartaz, em livro, encenação, com objetos e personagens da história, história fatiada, em que as crianças após a apreciação desta fizeram reconto. Deixamos as crianças livres para fazerem sua interpretação da história ouvida, lida, ou assistida, disponibilizamos folhas A4, giz de cera, pincéis e lápis comum a elas e solicitamos que fizessem o que haviam compreendido da história, e neste momento da atividade foi observado que algumas crianças, em especial aquelas que estavam em processo de aquisição da leitura e escrita optaram em fazer desenhos, e somente escrevendo seus nomes, uns escreviam corretamente e outros faltando algumas letras com tamanhos e espaços irregulares. Já as crianças maiores produziram pequenos textos juntamente com desenhos.

Confirmando o exposto Vygotsky. (1987, p.134), ratifica:

O desenhar e brincar deveriam ser estágios preparatórios ao desenvolvimento da linguagem escrita das crianças. Os educadores devem organizar todas essas ações e todo o complexo processo de transição de um tipo de linguagem escrita para outro. Devem acompanhar esse processo através de seus momentos críticos até o ponto da descoberta de que se pode desenhar não somente objetos, mas também a fala.

Outra atividade apreciada pelas crianças foi a palavra rimada, em que as crianças tinham que escrever o maior número possível de palavras que rimassem com a palavra orientada. Exemplo: mamão, as crianças tinham que colocar palavras que rimassem como, balão, coração, etc. Esta atividade além de trabalhar a escrita, verificava o universo vocabular das crianças, o raciocínio lógico, a percepção cognitiva e a criatividade de palavras criadas por elas. Participaram desta, crianças que estavam no ensino fundamental.

Nesse sentido, Soares (2003) nos faz refletir que um grande erro é que há pessoas preocupadas com alfabetização sem levar em conta o contexto social em que os educandos estão inseridos. E dessa forma ela questiona: “De que adianta alfabetizar se os alunos não têm dinheiro para comprar um livro ou uma revista?” Alfabetização precisa de condições necessárias para o letramento.”(ibid, p.03).

Dando continuidade a programação das atividades, realizou-se um caça-palavras gigante, em que as crianças identificavam as palavras indicadas no quadro. Após esta atividade, o jogo dos balões, cada balão continha uma sílaba que ao estourar a criança deveria juntar as sílabas e formar palavras, estimulando, assim, o mundo da escrita e sua percepção cognitiva.

Foi realizado, também, o bingo das sílabas, onde era sorteada uma sílaba e a criança identificaria em seu quadro a sílaba sorteada, muito interessante porque muitos durante o jogo apresentaram algumas dificuldades para identificar as sílabas na forma oral e escrita, e em alguns momentos precisava a mediadora falar as letras da sílaba, ou palavras que iniciavam com ela, para facilitar a compreensão.

Para as crianças menores da educação infantil foram trabalhadas atividades sobre a letra inicial, eram apresentadas às crianças imagens e letras soltas e elas tinham que identificar a letra inicial de cada imagem. Foram também trabalhadas atividades em folha para completar as palavras com as vogais que faltavam. Estas atividades diversificadas são formas metodológicas de trabalhar o processo de letramento e alfabetização, segundo ressalta Bagno (2007, p.87):

[...] Outros exemplos de eventos de letramento estão presentes em atividades como a discussão de um jornal com amigos, a organização de uma lista de compras, a anotação de mensagens de telefone, enfim, atividades diárias que envolvem a escrita. Percebe-se que o letramento acontece também fora do espaço escolar, antecedendo até mesmo a escolaridade. Cada prática de letramento ocorre aprendizagens com significados sociais, tanto na leitura quanto na escrita.

Outra atividade relevante foi uma dinâmica denominada de dança contemporânea, em que as crianças tinham que recitar seus nomes, criando gestos para cada sílaba e todos tinham que repetir e soletrar o nome do colega juntamente com o gesto, trabalhando assim as sílabas dos nomes, bem como o estímulo à memória para repetir os passos de cada criança.

Segundo Vygotsky (1998, p.141) “o gesto é o signo visual inicial que contém a futura escrita da criança, assim como uma semente contém um carvalho”. O aspecto que podemos destacar da atividade foi justamente que ao mesmo tempo integrou todas as crianças do infantil ao ensino fundamental, ou seja, aquelas que ainda estavam em processo de aquisição da escrita e outras que se encontravam mais avançadas, incentivando assim a compreensão da oralidade, na divisão das sílabas contidas nos nomes de cada um, através dos gestos, mesmo aqueles que ainda estavam no processo de escrita em desenvolvimento, uma vez que na concepção de Vygotsky os gestos constituem-se em escrita no ar.


CONSIDERAÇÕES FINAIS
O projeto realizado nos permitiu constatar que a aquisição da linguagem oral e escrita exige do educador uma compreensão da psicogênese da leitura e da escrita, estudos realizados por Ferreiro e Teberosky, que os conhecimentos prévios dos educandos devem ser respeitados nas diferentes faixas etárias, ritmos de aprendizagens e a interação com o contexto social. Também se pode perceber que a aprendizagem lúdica traz benefícios nas dimensões conceituais, atitudinais e procedimentais, em relação a aquisição de conhecimentos e habilidades que o facilite para a solidariedade, cooperação e convivência social no mundo tecnológico e globalizado.

Os estudos revelaram que o projeto favoreceu não somente a aprendizagem das crianças, mas contribuiu para a formação docente dos futuros pedagogos, considerando o planejamento das atividades e ações desenvolvidas.


REFERÊNCIAS
BAGNO, Marcos et al. Práticas de Letramento: Leitura, escrita e discurso .São Paulo: Parábola Editorial, 2007.
CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização e linguística. São Paulo: Scipione, 1995. Cap. 03. A Escrita.
FERREIRO, Emília. Com todas as letras. 16ª ed. São Paulo: Cortez, 2010.
KAMII, Constance. A criança e o número: implicações educacionais da teoria de Piaget para atuação junto a escolares de 4 a 6 anos/ tradução Regina A. de Assis – 11ª ed. – Campinas, Sp: Papirus, 1990.
PREFEITURA MUNICIPAL DE SOBRAL SANEBRÁS – projetos, construções e consultoria ltda. Projeto do sistema de esgotamento sanitário de Taperuaba – Sobral – Ce. Vol. 1. Memorial descritivo e memorial de cálculo. Maio de 2014. Disponível em: http://www.tcm.ce.gov.br/licitacoes/uploads/li_6411021e6fb6a14644797a8ae3af9a15.pdf Acesso em: 17.ago.2015.
SIMONETTI, Amália. O desafio de alfabetizar e letrar. Fortaleza, livro técnico, 2005.
SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
SOLÉ, Isabel. Estratégias de Leitura.6.ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.
SOUZA, Josenildo S. Vygotsky e a pré- história da linguagem escrita na criança. IN: TECHNE: Sobral, CE, 2008.
TEBEROSKY, Ana. (org.); Trad. Cardoso, Beatriz. Reflexões sobre o ensino da leitura e da escrita. 8ª ed. Campinas, SP. Editora Vozes, 1994.
VYGOTSKY, Lev Semenovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
WAJSKOP, Gisela. O brincar na educação infantil. Cad.pes. São Paulo, n.92. Fev.1995.


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