A irritante falta de educaçÃo do público em shows tem que ter um fim



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Encontro22.07.2017
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A IRRITANTE FALTA DE EDUCAÇÃO DO PÚBLICO EM SHOWS TEM QUE TER UM FIM

Régis Tadeu

http://br.noticias.yahoo.com/blogs/mira-regis/irritante-falta-educa%C3%A7%C3%A3o-p%C3%BAblico-em-shows-tem-que-182119314.html

Por um momento, pensei que a minha constante irritação fosse um evidente sinal de minha velhice. Apenas por um momento. Logo depois, percebi que não era nada disto. Sim, a velhice já bate à minha porta — tenho mais de meio século de vida -, mas isto talvez tenha me tornado ainda mais intolerante com algo que já se tornou comum nos shows: a falta de educação da plateia. Qualquer show. Qualquer plateia.

Já cansei de presenciar apresentações em que o volume de pessoas conversando é bem maior que o som que emana dos PA's. Quando a canção é cantada a cappella, então, sou acometido de um sentimento dúbio: desespero por não ouvir o som e, ao mesmo tempo, tenho vontade de agredir as pessoas que não param de conversar com um taco de baseball. E daqueles de ferro. Quem me viu durante o show do Peter Gabriel na última edição do festival SWU sabe muito bem do que estou escrevendo aqui...

E a falta de educação não se resume a conversas em alto volume em horas impróprias. Já estive em shows ao ar livre em que a organização do evento pediu gentilmente para que as pessoas permanecessem sentadas no gramado, pedidos desobedecidos assim que a apresentação começou por grupos de meia dúzia de palhaços e periguetes metidos a dançarinos, que impediam a visão das pessoas situadas atrás e ainda gritavam palavrões quando eram advertidos pelo restante da plateia. Por conta disto, todo mundo acabou se levantando e ninguém enxergou direito o que estava acontecendo no palco por causa de um bando de idiotas que não conseguiam manter sua estupidez em posição estática e civilizada.

Agora existe uma nova maneira de irritar as pessoas que querem assistir a um show: filmar a apresentação com câmeras e celulares colocados acima das cabeças dos "Martin Scorsese Vila Nhocuné", o tempo todo, com direito a revezamento de braço na hora de empunhar o "equipamento". Além de atrapalharem a visão das pessoas que estão atrás, este tipo de energúmeno passa o tempo todo assistindo o show pela telinha do equipamento. Incrível: a pessoa prefere vivenciar a experiência de assistir a um espetáculo de modo indireto, ignorando a "imagem ao vivo". Vá ser "voyeur" assim na casa do cacete!

Quantas vezes você viu gente mais preocupada em tirar fotografias com sua turma de costas para o palco no meio da apresentação, como se dissessem "nós estivemos lá", sem se importar com o que estava acontecendo?

E esta falta de educação está espalhada em todos os lugares: cinema, restaurantes, supermercados etc. Você já reparou quantas pessoas você vê nos shows, nos cinemas e até nos restaurantes teclando seus celulares e smartphones, muitas vezes sem dar a mínima atenção a quem o acompanha? Sei de gente que prefere conversar por meio de torpedos de SMS e MSN do que cara a cara com a pessoa.

Tenho a minha explicação para este crescente desrespeito...

O problema está na sensação de impunidade no ar, que dá a certeza de que não haverá qualquer punição caso uma única pessoa venha a incomodar muitas outras. Hoje, qualquer mané que tenha um celular pensa que pode fazer o que quiser com seu aparelho à hora que bem entender, já que ele "comprou" aquilo. Dane-se que as pessoas sejam obrigadas a ouvir som alto dentro dos ônibus e metrôs! É o mesmo tipo de gente que estaciona seu carro em vaga para deficientes físicos e, quando flagrado, diz que vai "demorar cinco minutinhos".

O conceito de individualidade já chegou ao campo do desrespeito. Ninguém mais quer saber de saborear a experiência de assistir a um show, ouvir um disco ou até mesmo experimentar um bom prato de modo único e individual. Tudo tem que ser feito de forma coletiva, aos bandos, exatamente como faz grande parte das pessoas que trabalham em escritórios quando saem para almoçar: doze, quinze indivíduos andando pela calçada em busca de um restaurante por quilo onde possam dividir a mesma comida e as mesmas conversas medíocres. É como se todos quisessem se embriagar com a mesma quantidade de estupidez.



E não pense que isto tem a ver com condição econômica. Ricos e pobres se solidarizam não apenas na arte de incomodar o próximo, mas também na hora de provocar acidentes, machucar as pessoas e, principalmente, na hora de rir muito de nossa indignação flácida e titubeante. Afinal de contas, dá para esperar outra coisa de gente que sequer se importa com a miséria explícita das ruas, com crianças nas madrugadas frias fazendo malabarismos nos semáforos para ganhar uns trocados? Ou com as hordas de mães adolescentes com seus filhos no colo, sentadas no meio fio esperando a morte chegar, juntamente com todos os pobres diabos que moram dentro de caixas de papelão?

Você tem filhos? Quer deixar para eles um mundo melhor? Então entenda que há muitas formas de se respeitar a pessoa que está ao seu lado, não importa o lugar ou circunstância. Só vamos conseguir exterminar a nuvem negra da ignorância e do desrespeito para com o próximo no momento em que você parar de blindar o seu próprio espírito e tirar o insulfilm da alma.


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