A importância do Sofrimento de Animais Selvagens



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Quando é que as Crias se tornam Sencientes?

A secção anterior explicou que em espécies r-selecionadas, os pais podem ter centenas ou até dezenas de milhares de filhos, sendo que a maioria destes morre pouco tempo após o nascimento.



Mas algumas questões mantêm-se. Que fracção desta prole era senciente na altura da morte, e que fracção simplesmente morreu como um ovo ou larva inconsciente?

O documento "Aspects of the biology and welfare of animals used for experimental and other scientific purposes" (Aspectos da biologia e bem-estar dos animais usados para fins experimentais e outro tipo de fins científicos) (p. 37-42) explora quando é que os fetos de várias espécies começam a sentir dor consciente. O artigo aponta que a idade do aparecimento de consciência varia dependendo se a espécie é précocial (bem desenvolvida ao nascimento, como os cavalos) ou altricial (ainda em desenvolvimento ao nascimento, como os marsupiais). Animais précociais são mais propensos a sentir dor em idades mais precoces. Também relevante é se a espécie é vivípara (embrião desenvolve-se dentro do corpo da mãe) ou ovípara (embrião desenvolve-se em ovos, fora do corpo da mãe). Animais vivíparos têm maior necessidade de inibir consciência fetal durante o desenvolvimento, para prevenir dolo para a mãe e irmãos. Fetos ovíparos que são constrangidos por cascas têm menos necessidade de inibição de consciência antes do nascimento. (p. 38)

Por esta razão, o relatório sugere: "Se consciência é o critério para protecção, aves, répteis, anfíbios, peixes e cefalópodes podem, então, terem de um modo mais óbvio, uma necessidade de protecção pré-eclosão que os mamíferos têm de protecção pré-parto". (p. 38) Por exemplo: "O desenvolvimento sensorial e neural num pássaro précocial como a galinha doméstica está muito avançado dias antes da eclosão. Movimentos controlados e comportamento coordenado e respostas a estímulos tácteis, auditivas, e visuais evocados electrofisiológicamente, surgem três ou quatro dias antes de a eclosão ocorrer, após 21 dias de incubação (Broom, 1981)." (p. 39) Em contraste: "Apesar de o feto mamífero demonstrar reacções físicas a estímulos externos, as evidências presentes sugerem que a consciência não ocorre no feto até que este nasça e comece a respirar ar." (p. 42)

Assim, parece claro que muitos animais são capazes de sofrer na altura do nascimento, se não antes.

“A fase de desenvolvimento em que o risco [de sofrimento] é suficiente para que protecção seja necessária é aquela em que a normal locomoção e função sensorial de um indivíduo independentemente do ovo ou da mãe possa ocorrer. Para animais que respiram ar, esta fase não será após aquela em que o feto consegue sobreviver sem assistência fora do útero ou ovo. Para a maioria dos animais vertebrados, a fase de desenvolvimento em que existe risco de mal-estar quando algum procedimento é realizado sobre eles, é o princípio do último terço do desenvolvimento dentro do ovo ou da mãe. Para um peixe, anfíbio, cefalópode, ou decápode, é quando ele é capaz de se alimentar independentemente em vez de ser dependente de uma fonte de alimento a partir do ovo. […]” (p. 3)

“A maioria dos anfíbios e peixes têm formas larvares que não são muito desenvolvidas aquando a eclosão mas desenvolvem-se rapidamente com a experiência de uma vida independente [.] Aqueles peixes e anfíbios que estão bem desenvolvidos aquando a eclosão ou nascimento vivíparo e todos os cefalópodes, porque são pequenos e bem desenvolvimento aquando a eclosão, terão um sistema nervoso funcional e o potencial para consciência algum tempo antes de eclodirem.” (p. 38)



Outra consideração sugestiva de dor antes do nascimento é o facto de muitos ovíparos vertebrados poderem eclodir mais cedo em resposta a estímulos ambientais, incluindo vibrações que se parecem com as de um predador.

Por exemplo, para o caso dos ovos de répteis da família Scincidae: "No campo, experiências de predação simulada induziu eclosão em ovos que estavam em locais de nidação (fendas horizontais em rochas) e em ovos retirados dos locais de nidação. O processo de eclosão foi explosivo: os primeiros embriões eclodiram em segundos e afastaram-se rapidamente, em média, 40 cm do ovo."[DoodyPaull]Eclosão precoce foi também documentada para anfíbios, peixes e invertebrados.[DoodyPaull]

Estes pontos sugerem que uma fracção significativa do grande número de crias nascidas de espécies "r-seleccionadas" podem muito bem estar conscientes durante a dor das suas mortes, após uns poucos dias, ou horas, de vida.

Mau Julgamento do Bem-Estar?

Existe o perigo de extrapolar o bem-estar dos animais selvagens a partir da nossa própria imaginação de como seria estar em certa situação. Nós podemos imaginar imenso desconforto na situação de ter de dormir durante uma tempestade numa noite fria de inverno com apenas uma camisola para nos mantermos quentes, mas muitos animais têm casacos de pelo muito melhores que a nossa camisola e podem encontrar muitas vezes algum tipo de abrigo. Mais geralmente, parece improvável que as espécies ganhem alguma vantagem adaptativa no facto de sentirem constantes dificuldades, visto o stress implicar um custo metabólico.[Ng]

Dito isto, devemos ter o cuidado de não subestimar a extensão e severidade do sofrimento dos animais selvagens devido os nossos próprios preconceitos. O leitor estará provavelmente no conforto de um edifício ou veículo com clima controlado, com um estômago relativamente cheio e sem medo de ser atacado. A maioria de nós, no Oeste industrializado, vivemos as nossas vidas num estado relativamente eutímico e é fácil assumir que a agradabilidade que a vida nos oferece é partilhada pela maioria das outras pessoas e animais. Quando pensamos sobre a natureza, podemos visualizar pássaros a chilrear ou gazelas a brincar, em vez de um veado a ter a sua carne arrancada enquanto consciente ou um guaxinim imobilizado a sofrer devido a lombrigas. E claro, todos os exemplos anteriores, na medida em que envolvem grandes animais terrestres, refletem a minha tendência humana usar a "heurística da disponibilidade": de facto, os animais selvagens mais prevalentes são pequenos organismos, muitos vivendo no oceano. Quando pensamos em "animais selvagens", devemos (se adotarmos o abordagem do valor-esperado em relação à incerteza acerca da senciência) visualizar formigas, copépodes e pequenos peixes, em vez de leões e gazelas.

As pessoas podem não avaliar precisamente, num único instante, como é que elas se vão sentir no geral durante um longo período de tempo.[KahnemanSugden] Elas frequentemente exibem "prospetivas cor-de-rosa" em relação a eventos futuros e "retrospetivas cor-de-rosa" em relação ao passado, assumindo que o seu passado e futuro nível de bem-estar foi e vai ser melhor do que foi reportado na altura da experiência. [MitchellThompson] Além disso, mesmo quando organismos julgam corretamente os seus níveis hedónicos, eles demonstram uma "vontade de viver" muito para além do seu nível de prazer ou dor. Animais que, perante vidas que genuinamente não valem a pena viver, decidem acabar a sua existência, tendem a não se reproduzir com muito sucesso.



No fim, no entanto, independentemente de quão boa ou má avaliamos que seja a vida selvagem, mantem-se inegável que muitos animais na natureza suportam experiências horríveis.

Se a Vida na Natureza é tão Má, Porque é que os Animais Selvagens Não se Suicidam?

  1. Não entendem o suicídio: Pode ser que a maioria dos animais (exceto os mamíferos e pássaros mais inteligentes?), apesar de emocionalmente conscientes, não percebam a morte. Como analogia, quando eu tenho um pesadelo, sinto-me mal, mas não entendo plenamente que estou a sonhar e não estou suficientemente em controlo da situação para poder terminar o pesadelo há minha vontade. Eu acho que os animais (quando não estão a sonhar) têm mais controlo sobre o seu estado físico do que eu tenho quando estou a dormir, mas o que quero transmitir é que se pode ter emoções sem se perceber vida e morte.

  2. Não há muito a ganhar tendo em conta que, de qualquer maneira, a maioria do sofrimento provém da morte: Os animais não têm maneiras indolores de se matarem. Para muitos animais, penso que a maioria da dor total das suas vidas vem de morrer. Por exemplo, muitas das 1000 crias de uma mãe escaravelho vão morrer num prazo de poucos dias ou semanas depois de eclodirem. Penso que as suas vidas na altura da morte variam, em qualidade, à volta do neutro, entre dor e felicidade, pelo que não há muito a ganhar com um suicídio precoce.

  3. Temporal discounting: Os animais muitas vezes não fazem o que é para o seu interesse hedónico a longo prazo, pelo que, mesmo que o suicídio fosse a melhor opção, eles poderiam não o fazer. (Por exemplo, quando eu estou com muito náuseas, pode saber melhor vomitar imediatamente do que suportar náusea por duas horas, mas eu nunca consigo ganhar a coragem para vomitar.)

  4. Vontade de viver não hedónica: Penso que os animais têm uma vontade de viver que é parcialmente separada do seu bem-estar hedónico. Os comportamentos dos animais são integrações de um número enorme de sinais e sistemas cerebrais, pelo que não é surpreendente que alguns destes sistemas actuem contrariamente ao sistema de maximização de bem-estar hedónico. Animais em que isto não acontecesse, presumivelmente não sobreviveriam tão eficazmente.

  5. Poucos suicídios em factory farms: Se os animais se matam quando as suas vidas não valem a pena ser vividas, porque é que não vemos suicídios em factory farms? Talvez pelo menos as galinhas em gaiolas de bateria estariam melhor se se matassem?

  6. Grandes animais podem ter vidas decentes: Eu penso que os animais que potencialmente poderiam contemplar o suicídio (chimpanzés?) provavelmente têm vidas que valem a pena viver, uma boa parte do tempo.

Mas os humanos não são incapazes de fazer alguma coisa?

Porque é que, então, o sofrimento dos animais selvagens não é uma prioridade de topo dos defensores dos animais?

Uma razão é filosófica: Alguns sentem que, enquanto que os humanos têm o dever de tratar bem os animais que usa ou com os quais vive, não tem responsabilidade em relação aos que estão fora da sua esfera de interação. Acho isto insatisfatório; se nós realmente nos importamos com os animais porque não queremos que os nossos organismos companheiros sofram brutalmente - não apenas porque queremos "manter a nossa “casa moral” limpa" - então não deveria importar se temos ou não uma ligação pessoal com os animais selvagens.

Alguns filósofos concordam com isto mas continuam a defender a inação humana, afirmando que as pessoas não têm capacidade de alterar a situação. Quando lhe perguntado se devemos prevenir que os leões comam gazelas, Peter Singer respondeu:

“[…] por razões práticas estou bastante convencido, julgando o registo passado de tentativas por parte do homem para moldar a natureza para seu próprio fim, que nós iriamos mais provavelmente aumentar a quantidade líquida de sofrimento animal se interferíssemos na natureza, em vez de diminuí-lo. Os leões têm um papel na ecologia do seu habitat e nós não podemos ter a certeza de qual seria a consequência a longo-prazo se nós fossemos preveni-los de matarem gazelas. […] Então, na prática, eu diria definitivamente que a natureza selvagem deve ser deixada sozinha.”[Singer]

Apontaria em resposta a Singer que a maioria das intervenções humanas não foram projetadas para melhorar o bem-estar dos animais selvagens e, mesmo assim, suspeito que muitas das intervenções diminuíram o sofrimento dos animais selvagens através da redução da habitats.

Na mesma linha que Singer, Jennifer Everett sugeriu que os consequencialistas podem apoiar a selecção evolucionária porque esta elimina os traços genéticos negativos:

“[…] se a propagação dos genes com mais fitness contribui para a integridade de ambas as espécies predadoras e presas, o que é bom para o balanço predador/presa no ecossistema, o que por sua vez é bom para os organismos que nele vivem, e assim por diante, então as mesmas relações ecológicas que os ambientalistas holísticos consideram como intrinsecamente valiosas vão ser valorizadas por defensores do bem-estar animal porque elas levam, em última análise, embora indiretamente e via complexas cadeias causais, aos bem-estar de indivíduos animais.” [Everett, p. 48]

Estes autores estão certos no facto que a consideração dos efeitos-secundários ecológicos de longo-alcance é importante. No entanto, não segue disto que os humanos não têm obrigações em relação aos animais selvagens ou que os defensores dos animais se devam manter silenciosos acerca da crueldade da natureza.


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