A importância do Sofrimento de Animais Selvagens



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Uma Vida Difícil

Enquanto que a morte pode muitas vezes constituir o pico de sofrimento da vida de um animal, o quotidiano também não é necessariamente agradável. Ao contrário da maioria dos humanos no mundo industrializado, os animais selvagens não têm acesso imediato a comida sempre que têm fome. Eles têm de constantemente procurar água e abrigo enquanto se mantêm atentos à existência de predadores. Ao contrário de nós, a maioria dos animais não pode ir para dentro de casa quando chove ou ligar o aquecimento quando as temperaturas de inverno descem abaixo do nível ideal. Em suma:



“É muitas vezes assumido que os animais selvagens vivem num tipo de paraíso natural e que apenas a aparição e intervenção de humanos causa sofrimento. Esta visão essencialmente rosseauniana está em desacordo com a riqueza de informação derivada de estudos de campo de populações animais. Escassez de comida e de água, predação, doenças e agressões intraespecíficas são alguns dos factores que foram identificados como partes normais do ambiente natural que regularmente causam sofrimento em animais selvagens.” [UCLA, p. 24]

E apesar de muitos animais parecerem resistir a tais condições bastante calmamente, isto não significa necessariamente que não estejam a sofrer. [BourneEtAl] Membros doentes e feridos de uma espécie de presa são mais facilmente capturados, pelo que os predadores evoluíram de tal forma que deliberadamente têm como alvo esses indivíduos. Como consequência, aquelas presas que parecem doentes ou feridas vão ser as que vão ser mortas a maior parte das vezes. Assim, pressões evolutivas levaram as espécies de presas a evitar chamar atenção ao seu sofrimento e a fingir que nada está errado. [Nuffield, ch. 4.12, p. 66]

Baseando-se em estudos sobre níveis de hormonas de stress em animais domésticos e selvagens, Christie Wilcox[Wilcox] concluiu que "se seguirmos as directrizes de tratamento que fornecem comida, água, conforto e itens necessários para expressão comportamental, não é apenas provável que os animais domésticos sejam tão felizes como os seus parentes selvagens, são provavelmente mais felizes." Ela também observa:

“Então agora a verdadeira questão é se um animal doméstico ou em cativeiro é mais, menos, ou tão feliz que o seu correspondente selvagem. Existem umas poucas condições chave que classicamente se pensa levarem a um animal "feliz" através da redução de stress indevido. Estas são a base para a maioria das regulações que incidem na crueldade a animais, incluindo aquelas no US e no UK. Nestas regulações está incluindo que os animais têm "direitos" a:

-Água e comida suficiente

-Condições confortáveis (temperatura, etc)

-Expressão de comportamento normal

Em relação aos animais selvagens, no entanto, apenas o último "direito" é garantido. Eles têm de lutar pela sobrevivência diariamente, desde procurar comida e água a procurar outro indivíduo com quem acasalar. Eles não tem o direito ao conforto, estabilidade ou boa saúde. […] Pelas normas que os nossos governos definiram, a vida de um animal selvagem é crueldade.“

Curta Longevidade

Na natureza, os animais que existem em maior quantidade são provavelmente os que estão geralmente pior. Pequenos mamíferos ou pássaros têm uma longevidade adulta de no máximo um ou três anos antes de enfrentarem uma morte dolorosa. E muitos insectos contam o seu tempo na Terra em semanas em vez de em anos - por exemplo, apenas 2-4 semanas para a mosca-dos-chifres.[Cumming] Eu pessoalmente preferia não existir se a alternativa fosse a de nascer como um insecto, esforçando-me para navegar pelo mundo durante umas poucas semanas e depois morrer de desidratação ou ser apanhado numa teia-de-aranha. Pior ainda seria ficar emaranhado num "instrumento de tortura" de uma formiga amazónica durante 12 horas[BBC], ou ser uma lagarta que é comida viva ao longo de semanas por uma vespa do género Ichneumon.[Gould, pp. 32-44]

É verdade que existe incerteza por parte dos cientistas sobre se os insectos sentem dor de uma forma que podemos considerar sofrimento consciente.[insect-pain] No entanto, o facto de que existe um sério debate sobre o assunto sugere que não devemos descartar a possibilidade. Tendo em conta que os artrópodes contam-se até aos 1018,[Williams] sendo o número de copépodes no oceano de uma magnitude similar, [SchubelButman] o valor esperado matemático (probabilidade vezes quantidade) de sofrimento é vasto. Devo apontar que o vigor deste ponto de discussão seria diminuído se, como pode ser o caso, a "intensidade" ou "grau" de experiência emocional de um animal depender de alguma maneira da quantidade de tecido neural dedicado à sinalização da dor.[Bostrom-qualia]

Mais Filhos do que Aqueles que Sobrevivem

Tabelas de longevidade animal tipicamente mostram quanto tempo sobrevive um membro adulto de uma espécie. No entanto, a maioria dos indivíduos morre muito mais cedo, antes de atingirem maturidade. Isto é uma simples consequência do facto de as fêmeas darem à luz muitos mais filhos do que aqueles que conseguem chegar à maturidade numa população estável. Por exemplo, enquanto que os humanos podem produzir apenas uma criança por época reprodutiva (com excepção de gémeos), o número é de 1-22 crias para cães (Canis familiaris), 4-6 ovos para os esturnídeos (Sturmus vulgaris), 6.000-20.000 ovos para a rã-touro (Rana catesbeiana) e 2 milhões de ovos para o bivalve de nome científico Argopecten irradians.[SolbrigSolbrig, p. 37] Veja esta figura do artigo de Thomas J. Herbert[Herbert] sobre selecção r ou K, ilustrando uma mortalidade extremamente alta para os "r-strategistas". A maioria dos pequenos animais como minnows e insectos são r-estrategistas.



É verdade, é incerto se todas estas espécies são sencientes – e ainda mais se tivermos em conta que uma maioria dos ovos não chega a eclodir (ver próxima secção) - mas mais uma vez, em termos de valor esperado, a quantidade de sofrimento prevista é enorme.

Esta estratégia de "fazer muitas cópias e esperar que algumas se saiam bem" pode fazer perfeitamente sentido do ponto de vista de evolução,[Dawkins] mas o custo para o indivíduo é tremendo. Matthew Clarke e Yew-Kwang Ng concluem, a partir de uma análise das implicações da dinâmica de populações no bem-estar animal, que "Numa espécie, o número de filhos que maximiza o fitness pode levar ao sofrimento e é diferente do número que maximiza bem-estar (médio ou total)."[ClarkeNg, sec. 4] E num artigo relacionado, "Towards Welfare Biology: Evolutionary Economics of Animal Consciousness and Suffering” (A Caminho da Biologia do Bem-Estar: Economia Evolucionária do Sofrimento e Consciência Animal), Ng conclui pelo excesso de filhos em relação aos que sobrevivem até à idade adulta: "Tendo em conta os pressupostos de funções concavas e simétricas relacionando custos para alegria e sofrimento, economização evolucionária resulta num excesso de sofrimento total em relação à alegria total."[Ng, p. 272]

No seu famoso artigo, "Animal liberation and environmental ethics: Bad marriage, quick divorce."[Sagoff] (Libertação animal e ética ambiental: Mau casamento, divórcio rápido) Mark Sagoff cita a seguinte passagem por Fred Hapgood:[Hapgood]

“Todas as espécies reproduzem-se em excesso, muito para além da capacidade de carga do seu nicho. No seu tempo de vida, uma leoa pode ter 20 filhotes; um pombo, 150 crias; um rato, 1000 filhos; uma truta, 20.000 peixes, um atum ou um bacalhau, um milhão ou mais; […] e uma ostra, talvez cem mil ovos. Se assumirmos que a população de cada uma destas espécies é, de geração para geração, aproximadamente igual, então em média, apenas uma cria vai sobreviver e substituir cada parente. Todos os outros milhares e milhões vão morrer, de uma maneira ou outra.”

Sagoff continua, dizendo: "A miséria dos animais selvagens - miséria que os humanos podem fazer muito para aliviar - faz parecer todas as outras formas de sofrimento pequenas em comparação. A "Mãe Natureza" é tão cruel para os seus filhos que faz parecer Frank Perdue um santo."

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