A importância do Sofrimento de Animais Selvagens



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Predação

Quando as pessoas imaginam sofrimento na natureza, talvez a primeira imagem que lhes vem à mente é a de uma leoa a caçar a sua presa. Christopher McGowan, por exemplo, descreve, de um modo vívido, a morte de uma zebra:



"A leoa enterra as suas garras afiadas na alcatra da zebra. Elas rasgam através da pele grossa e ancoram-se profundamente até ao músculo. O animal assustado solta um alto berro enquanto o seu corpo cai no chão. Um momento depois, a leoa retira as suas garras da traseira da zebra e afunda os seus dentes na garganta, asfixiando o som de terror. Os seus caninos são longos e afiados, mas um animal tão grande como a zebra têm um pescoço maciço, com uma espessa camada de músculo debaixo da pele, pelo que, apesar de os dentes furarem a pele, são demasiados pequenos para atingir qualquer dos principais vasos sanguíneos. A leoa tem assim de matar a zebra por asfixia, apertando as suas poderosas mandíbulas à volta da traqueia da vítima, cortando o acesso de ar aos pulmões. É uma morte lenta. Se tivesse sido um animal pequeno, como uma gazela de Thomson (Gazella thomsoni) do tamanho de um grande cão, a leoa teria mordido a nuca da presa; os seus caninos teriam então provavelmente esmagado as vértebras ou a base do crânio, causando morte instantânea. Sendo como é, os estertores da zebra vão demorar cinco ou seis minutos"[McGowan, pp. 12-13]

Alguns predadores matam as suas vítimas rapidamente, como algumas cobras constritoras que interrompem a circulação aérea e induzem desmaio em um minuto ou dois,[eaten-alive] enquanto outras impõem à sua vítima uma morte mais prolongada, como as hienas, que arrancam pedaços de carne aos ungulados, uma dentada de cada vez.[Kruuk] Cães selvagens estripam as suas presas, [McGowan, p. 22] cobras venenosas causam hemorragias internas e paralisia durante vários minutos, [McGowan, pp. 49] e crocodilos afogam grandes animais nas suas mandíbulas. [McGowan, pp. 43]

Um guia de domesticadores de cobras explica, "Ratos vivos vão lutar pelas suas vidas quando são capturados, e vão morder, pontapear e arranhar até não conseguirem mais." [Flank] Após captura, "A cobra encharca a sua presa com saliva e eventualmente puxa-a para o seu esófago. A partir dai, usa os seus músculos para simultaneamente esmagar a comida e puxá-la mais para o fundo do seu tracto digestivo, onde é digerida para obtenção de nutrientes."[Perry]

As presas podem não morrer imediatamente após serem engolidas, como é ilustrado pelo facto de alguns tritões venenosos, depois de ingeridos por uma cobra, excretarem toxinas para matar o seu captor, de modo a poderem rastejar para fora do seu corpo. [McGowan, pp. 59] E em relação aos gatos domésticos, Bob Sallinger da Audubon Society of Portland comenta, "Pessoas que ficam espantadas com o modo indiscriminado de matança da vida selvagem através de mecanismos como leg-hold traps2 deviam reconhecer que a dor e sofrimento causada pela predação por parte de gatos não é dissimilar e os impactos desta predação é gigante ao lado dos impactos das armadilhas". [Sallinger]

O medo de predadores não produz apenas stress imediato, podendo também causar trauma psicológico de longa duração. Num estudo sobre ansiolíticos, investigadores expuseram ratos a um gato durante cinco minutos e observaram as reacções subsequentes. Eles descobriram "que este modelo animal de exposição de ratos a estímulos de predação inescapável produz mudanças cognitivas análogas àquelas observadas em pacientes com acute stress disorder (ASD).[ElHagePeronnyGriebelBelzung] Um estudo subsequente encontrou impactos de longa duração nos cérebros dos ratos: "exposição a predadores induz significantes deficiências de aprendizagem no radial maze3 (16 a 22 dias depois do stress) e na configuração espacial no teste de reconhecimento de objectos (26 a 28 dias depois do stress). Estas descobertas indicam que problemas de memória podem persistir por longos períodos após o stress causado pelo predador."[ElHageGriebelBelzung] Similarmente, Philip R. Zoladz expôs ratos a predadores inescapáveis e a outras condições causadoras de stress para "produzir mudanças na fisiologia e comportamento nos ratos, que são comparáveis aos sintomas de pacientes de PTSD (Perturbação de Stress Pós-Traumático)."[Zoladz] E num artigo de revisão, Riache Stam explica:

“Modelos animais que são caracterizados por manifestarem durante muito tempo, após um intenso stress de curta-duração, respostas de medo condicionado, assim como uma generalizada sensibilização comportamental a novos estímulos, apresentam uma fenomenologia que se assemelha àquela dos doentes humanos com PTSD. […] Semanas ou meses após o trauma, os animais em questão apresentaram, em média, um aumento da sensibilização a novos estímulos stressantes por parte das respostas neuroendócrinas, cardiovasculares e gastrointestinais, assim como uma alterada função imunológica e sensibilidade à dor.” [Stam]

Mesmo para aquelas presas que não tiveram um encontro traumático com um predador, a "ecologia do medo" que o predador cria pode ser muito angustiante: "Em estudos com alces, cientistas descobriram que a presença de lobos altera os seus comportamentos quase constantemente, tendo os alces de tentar escapar a encontros, de deixar espaço para uma fuga e de estarem constantemente vigilantes."[Stauth]

Alguém pode argumentar que a evolução devia evitar fazer a vidas dos animais excessivamente horrífica durante longos períodos de tempo antes das suas morte, porque fazê-lo poderia, pelo menos em espécies mais complexas, induzir PTSD, depressão ou outros efeitos secundário debilitantes. Claro, nós vemos empiricamente que a evolução induz tais perturbações quando incidentes traumáticos acontecem, como exposição a um predador. Mas existe provavelmente algum tipo de limitação razoável em relação ao quão más estas perturbações podem ser, de modo a manter os animais num estado funcional. A morte em si mesmo é um caso diferente, pois quando se chega a um ponto de inevitabilidade, as pressões evolutivas não restringem experiências emocionais. A morte pode ser indolor (para uns poucos animais sortudos) ou uma tortura (para muitos outros). A evolução não tem razão para impedir que a morte seja insuportavelmente horrível. [Dawkins]

Morte por Outros Meios

Mas é claro, a predação não é a única maneira pela qual os organismos morrem dolorosamente.



Animais são também afetados por doenças e parasitas, que podem induzir apatia, tremores, úlceras, pneumonia, fome, comportamento agressivo ou outros sintomas, durante dias ou semanas, até à chegada da morte. Avian salmonellosis é apenas um exemplo:

“Sinais variam desde morte súbita a aparecimento gradual de depressão durante 1 a 3 dias, acompanhado por ajuntamento das aves, alteração da textura das penas, agitação comportamental, tremores, perda de apetite, aumento ou diminuição acentuada de sede, perda acelerada de peso, respiração acelerada e excrementos aguados amarelos, verdes ou tingidos de sangue. As penas da zona da cloaca ficam emaranhadas com excreções, os olhos começam a fechar e, imediatamente antes da morte, algumas aves demonstram uma cegueira aparente, descoordenação, cambaleamento, tremores, convulsões e outros sinais de foro nervoso.”[Salmonellosis]

Outros animais morrem devido a acidentes, desidratação durante as secas de verão ou devido a falta de comida durante o inverno. Por exemplo, 2006 foi um ano duro para os morcegos em Placerville, California:

"Dá para ver as suas costelas, os ossos da espinha dorsal e a área do intestino e do estômago está completamente enfiada dentro do corpo, até às costas" disse Dharma Webber, fundadora do California Native Bat Conservancy. […] Ela diz que os mosquitos que aparecem não são suficientes para alimentar as criaturas. "Seria como nós comermos um bocado de uma pipoca de vez em quando", disse ela. [bats]

(É claro, quando os morcegos têm comida, não é boa notícia para as suas presas...)

Tempestades de neve podem ser fatais: "Pássaros incapazes de encontrar um poleiro protegido, durante a tempestade podem ficar com as suas patas congeladas a ramos ou com as asas cobertas de gelo, impossibilitando o voo. Perdizes enterradas devido à acumulação de neve são muitas vezes envoltas pela camada de gelo e sufocam." [Heidorn]


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