A galáxia de Gutenberg



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Porque sociedades não alfabetizadas não conseguem “ver” filmes e fotos (64)

O Prof. John Wilson, do Instituto Africano da Universidade de Londres, na tentativa de utilizar filmes para ensinar os indígenas a ler, e ao mesmo tempo educá-los, conta que num filme especialmente preparado para mostrar os perigos de água parada e de acúmulo de lixo aconteceu o seguinte:

Foi feito um filme, que foi passado em câmara lenta, de um homem, um Inspetor Sanitário, mostrando cuidadosamente como uma família deve agir para se desembaraçar de água estagnada, drenar poças, juntar as latas vazia e guardá-las a salvo da chuva, etc.

Este filme foi mostrado a uma platéia africana de indígenas e ao fim do filme lhes foi perguntado o que tinham visto.

Eles responderam: “uma galinha”, ou alguma ave doméstica.

As pessoas que fizeram o filme ignoravam totalmente que havia uma ave nele!

Procurando tal ave, revendo o filme, com efeito confirmaram que aparecia correndo, por momentos, pois alguém a havia assustado, uma galinha atravessando um canto da tela.

Esperava-se que as outras cenas tivessem sido entendidas, porém lhes escaparam completamente, porém algo que somente com grande esforço os ingleses conseguiram ver, apanharam imediatamente.

Porquê?

Foram imaginadas toda a sorte de explicações: O movimento rápido da galinha?



Tudo foi feito em movimento de câmara lenta, cuidadosamente, gente andando, pegando latas, fazendo demonstrações, e tudo o mais e apenas a galinha havia sido real para eles. Será que a ave tinha significado religioso?

O Prof. Wilson nos descreve o filme:

“Havia um movimento muito lento de um guarda sanitário caminhando, deparando com uma lata com água dentro, pegando então a lata e despejando a água no solo com muito cuidado. Depois disto ele esfregava o solo para que os mosquitos não pudessem procriar ali e colocava a lata num cesto, no lombo de um burro, para mostrar como dispor de lixo. Depois disto as latas eram levadas cuidadosamente num local e enterradas para que não acumulassem água. A galinha apareceu por um segundo nesta seqüência toda.

Havia trinta pessoas na platéia, e diante da pergunta ‘O que viram neste filme?’ foram unânimes em afirmar: ‘Uma galinha’.

O mistério foi desfeito posteriormente, quando questionamos se viram um homem no filme. Eles responderam que sim, porém não viram nenhum sentido nele. Na medida que fomos pesquisando, percebemos que eles não se fixaram em nenhuma cena ou quadro por inteiro: eles exploravam as cenas à busca de detalhes!”

Pesquisando mais posteriormente, concluímos que uma platéia evoluída, ocidental, acostumada a ver filmes, focaliza a vista um pouco à frente da tela de modo a poder alcançar toda a cena.

Ou seja, tem que primeiramente contemplar a cena como um todo (que aquelas pessoas não podiam fazer por não estarem acostumadas), comparar com uma convenção cultural no seu imaginário, e extrair um significado.
Quando a tecnologia estende ou prolon­ga um de nossos sentidos, a cultura sofre uma transposição tão rápida quanto rápido for o processo de interiorização da nova tecnologia (70)
Embora o tema principal desse livro seja a Galáxia de Gutenberg ou uma configuração de eventos, que está muito além do mundo do alfabeto e da cultura da escrita, é preciso saber-se por que, sem o alfabeto, não teria havido Gutenberg. E, portanto, precisamos ter certo conhecimento das condições de cultura e percepção que tomaram possível primeiro, a escrita, e depois, talvez, de algum modo o alfabeto.3

O relato de Wilson sobre os anos de treinamento perceptual necessário para habilitar os adultos africanos a verem filmes cinematográficos tem perfeita analogia com as dificuldades que os adultos ocidentais experimentam com a arte "abstrata". Em 1925, Bertrand Russell escreveu seu ABC of Relativity (ABC da relatividade) assinalando na primeira página que:


Muitas das novas idéias podem ser expressas em linguagem não­ matemática, mas nem por isso se tornam elas menos difíceis de compreender. O que se exige é uma modificação da imagem, da reapresentação imaginativa, que fazemos do mundo. (. . .) A mesma espécie de modificação impunha Copérnico ao ensinar que a terra não está imóvel. (. . .) Para nós não existe dificuldade nesta idéia, porque a aprendemos antes de nossos hábitos mentais se tornarem fixos. Do mesmo modo, as idéias de Einstein parecerão mais fáceis para as gerações que crescem com elas; para nós, é inevitável certo esforço de reconstrução imaginativa.”
Um trabalho recente de Georg von Bekesy, Experiments in Hearing (Experiências em audição), apresenta solução exatamente oposta à que acabam de nos dar Carothers e Wilson quanto ao problema do espaço. Enquanto estes últimos procuram falar acerca da percepção de povos analfabetos em ter­mos da experiência de alfabetizados, o professor von Bekesy prefere começar sua exposição sobre o espaço acústico em si mesmo. Como alguém proficiente em espaços auditivos, ele está nitidamente cônscio das dificuldades que existem em falar so­bre o espaço da audição, pois o espaço acústico é forçosamente um universo em "profundidade" (Ver "Espaço Acústico). É extremamente interessante que, ao procurar esclarecer a natureza da audição e do espaço acústico, o professor von Bekesy tenha evitado deliberadamente à posição do ponto de vista e da perspectiva em favor do Campo mosaico. E, para este fim, recorre à pintura bidimensional, sem perspectiva, como meio de ilustrar a profundidade ressonante do espaço acústico. Eis suas próprias palavras (pág. 4): .
É possível discutir duas formas para abordar um problema. Uma, que se pode denominar de método teórico, consiste em formular o problema nos termos do que já se conhece, fazer acréscimos ou extensões na base de princípios aceitos, e depois proceder à comprovação dessas hipóteses experimentalmente. Outra, que se pode chamar de método mosaico, considera cada problema por si mesmo, com pouca referência ao campo no qual se encontra, e procura descobrir relações e princí­pios existentes na área circunscrita.”

Von Bekesy passa depois a apresentar suas duas formas de pintura:


Uma estreita analogia com esses dois métodos pode encontrar-se no campo da arte. No período entre os séculos onze e dezessete os árabes e os persas desenvolveram um alto domínio das artes de descrição. (...) Mais tarde, durante a Renascença, desenvolveu-se nova forma de repre­sentação na qual se tentou dar unidade e perspectiva à pintura e representar a atmosfera. (. . .)

Quando já se tenha alcançado grande progresso no campo da ciência e já conhecida a maioria das variáveis pertinentes aos seus múltiplos problemas, pode-se facilmente resolver um novo problema tentando-se enquadrá-lo no conjunto dos dados conhecidos. Mas, quando o quadro de referência é incerto, e grande o número de variáveis, o método mosaico é muito mais fácil.”“.
O método mosaico não só é "muito mais fácil" no estudo do simultâneo que é o campo auditivo, como é a única abordagem relevante. Com efeito, o mosaico ou pintura "bidimensional" é o modo pelo qual há a suavização do campo visual como tal, a fim de que possa haver o máximo de intercambio entre todos os sentidos. Tal foi a estratégia dos pintores "desde Cézanne": pintar como se estivessem segurando os obje­tos e não como se os estivessem vendo.4
É impossível construir-se uma teoria de mudança cultural sem o conhecimento das mudanças do equilíbrio relacional entre os sentidos resultantes das diversas exteriorizações de nossos sentidos (73)
Convém muito nos determos nessa questão, porquanto veremos que, a partir da invenção do alfabeto, desenvolveu-se no Ocidente um contínuo movimento para a separação dos sentidos, de funções, estados emocionais e políticos, bem como de tarefas - fragmentação que terminou - pensou Durkheim5 - na anomia do século dezenove. O paradoxo da tese apresentada pelo professor von Bekesy está em que o mosaico bidimensional é, de fato, um mundo multidimensional de ressonância interestrutural. É o mundo tridimensional do espaço pictórico que é, realmente, uma ilusão abstrata, produzida pela intensa separação do sentido da vista dos demais sentidos.

Não se trata de questionar valores ou preferências. O que é necessário, contudo, para qualquer outra compreensão diferente, é saber-se porque o desenho "primitivo" é bidimensional, ao passo que. o desenho e a pintura do homem alfabetizado tendem para a perspectiva. Sem tal conhecimento, não podemos compreender por que o homem deixou de ser "pri­mitivo" ou audiotáctil na tendência de seus sentidos. Nem poderíamos chegar a entender porque o homem" desde Cé­zanne" abandonou o visual em favor dos modos audiotácteis de percepção e. de organização da experiência. Esclarecida essa questão, podemos abordar mais facilmente o papel que tiveram o alfabeto e a tipografia na atribuição de função dominante ao sentido da vista na linguagem e na arte e em toda a extensão da vida política e social. Com efeito, enquanto o homem não elevou desse modo o comportamento visual do seu sensorium, as comunidades não. conheceram senão a estrutura tribal. A des­tribalização do indivíduo, pelo menos no passado, dependeu de uma intensa vida visual promovida e alimentada pela cultura letrada e de letras somente do tipo alfabético. Porque a escrita alfabética não é apenas única, mas tardia. Houve muita escrita antes dela. De fato, qualquer ,Povo que cessa de ser nômade

e passa a seguir modos sedentários de trabalho está propenso e a caminho de inventar a escrita. Todos os nômades não só não tiveram escrita como não desenvolveram arquitetura, nem o "espaço fechado", pois escrita é um modo de fechar, visualmente, sentidos e espaços não-visuais. É, portanto, uma forma de abstrair o visual do intercurso comum dos sentidos em globo. E, enquanto a linguagem é uma exteriorização (manifestação) de todos os sentidos ao mesmo tempo, a escrita é uma abstração da palavra.

Atualmente é mais fácil aprender essa tecnologia especifica da escrita. Os novos institutos para ensino de leitura rápida, ou dinâmica, trabalham na base da dissociação 'entre os movimentos dos olhos e a verbalização interior. Veremos mais adiante como toda leitura nos mundos antigo e medieval era em voz alta. Com a palavra impressa, os olhos aceleraram-se e silenciou-se a voz. Mas a verbalização interior era tida como inseparável do seguimento horizontal das palavras pela linha na página. Hoje em dia, sabemos que se pode separar a leitura da verbalização por meio da leitura vertical. Esta prática, naturalmente, lança a tecnologia alfabética da separação dos sentidos a um extremo de inanidade, mas é importante para se compreender como teve início a escrita em qualquer dos seus tipos.

Num ensaio intitulado A History of the Theory of ln­formation (História da teoria da informação), lido perante a Sociedade Real, em 1951, E. Colin Cherry, da Universidade de Londres, observou que "nos primeiros tempos, a invenção foi grandemente dificultada pela incapacidade do homem de dissociar a estrutura mecânica da forma animal. A invenção

da roda foi um primeiro notável esforço desse tipo de dissociação. O grande surto das invenções que começou no século dezesseis apoiou-se na gradual dissociação da máquina da forma animal". A tipografia foi a primeira mecanização de um antigo artesanato e levou facilmente à crescente mecanização de todo o artesanato. As fases modernas desse processo constituem o tema de Mechanization Takes Command (A mecani­zação assume o comando), de Siegfried Giedion.

Giedion,entretanto, preocupa-se em traçar, com minúcia, as fases pelas quais, no século passa:do, usamos mecanismos para recuperar a forma orgânica:
Em seus célebres estudos sobre os movimentos dos homens e dos animais por volta de 1870, Edward Muybridge colocou uma série de trinta câmaras em intervalos de doze polegadas, disparando os obturadores eletromagneticamente assim que o objeto em movimento passava diante da chapa (...) Cada quadro mostra o objeto numa fase isolada conforme fora captado em cada câmara (pág. 107).
Quer isso dizer, o objeto é trasladado da forma orgânica ou simultânea para um modo estático ou pictórico. Ao girar uma seqüência desses espaços estáticos ou pictoriais com sufi­ciente velocidade, cria-se a ilusão de inteireza orgânica, ou uma interação de espaços. Assim, a roda passa finalmente a ser o meio de afastar nossa cultura da máquina(Uma vez que mostra que a máquina reproduz a forma animal. (N. do Trad.)

Mas foi por meio da eletricidade aplicada à roda que esta mais uma vez se fundiu com a forma animal. De fato, a roda é agora obsoleta na era da eletricidade e dos mísseis. Mas a hipertrofia é o sinal de obsolescência, conforme veremos repetidas vezes. Justamente porque a roda está agora voltando, no século vinte, à forma orgânica, faz-se agora muito fácil compreender como o homem primitivo a "inventou". Qualquer criatura em movimento é uma roda, no sentido de que a repetição de movimento tem em si um princípio cíclico e circular. Assim as melodias de sociedades letradas são ciclos que se repetem. Mas a música de povo não-alfabetizado não tem tal forma abstrata cíclica e repetitiva como ,a melodia. A invenção, numa palavra, é translação de uma espécie de espaço para outra.

Giedion dedica certo tempo à obra do fisiologista francês, Etienne Jules Morey (1830-1904), que criou o miógrafo para registrar os movimentos dos músculos: "Morey muito conscientemente se refere a Descartes, mas ao invés de representar graficamente seções, traduz o movimento orgânico em forma gráfica" (pág. 19).
O confronto no século vinte entre as duas faces de cultura - a alfabética e a eletrônica - empresta à palavra impressa papel crucial em deter o retorno à África interior6 (76)
A invenção do alfabeto, à semelhança da invenção da roda, foi a primeira tradução ou redução de um complexo e orgânico intercâmbio de espaços num único espaço. O alfabe­to fonético reduziu o uso simultâneo de todos os sentidos, que é a expressão oral, a um simples código visual. Hoje, pode-se efetuar essa espécie de translação numa ou noutra direção, através de uma variedade de formas espaciais, as quais chama­mos de "midia", ou "meios de comunicação". Mas cada uma dessas formas de espaço tem propriedades particulares e incide sobre nossos outros sentidos ou espaços de modo também particular.

Hoje, não é difícil compreender a invenção do alfinete porque - como assinalou A. N. Whiteheadem Science and the Modern World (A ciência e o mundo moderno) (pág. 141) - o método de descobrir foi a grande descoberta do século dezenove:


A maior invenção do século dezenove foi a invenção do método de inventar. Entrou em existência um novo método. Para compreendermos nossa época, podemos deixar de lado todos os detalhes de mudança, tais como estradas de ferro, telégrafos, rádios, teares, tinturas sintéticas. Temos que concentrar-nos no método em si; isto é, na verdadeira novidade que rompeu com os fundamentos da antiga civilização.

(. . .) Um dos elementos do novo método é justamente a descoberta da maneira de transpor a distância existente entre as idéias científicas e o seu produto final. Trata-se de um processo de ataque disciplinado a cada dificuldade, uma após outra.
O método da invenção, como demonstrou Edgar Poe em sua "Filosofia da Composição", consiste simplesmente em tomar como ponto de partida a solução do problema, ou o efeito visado. Recua-se, depois, passo a passo para o ponto de onde se teria de começar a fim de alcançar a solução ou efeito. Tal é o método dos romances policiais, do poema sim­bolista e da ciência moderna. Precisa-se, entretanto, do passo dado pelo século vinte para além desse método de invenção, se queremos compreender a origem e a ação das formas novas tais 'como a roda ou o alfabeto. E esse passo não é o de voltar para /trás, recuando do produtO' até o seu ponto de origem, o de acompanhar e seguir o processo em si mesmo sem referencia ao produto. Acompanhar os contornos do processo, como se faz na psicanálise, onde esse método proporciona o único meio de evitar o produto do processo, isto é, neurose ou psicose.

É propósito deste livro estudar primariamente a fase tipográfica da cultura alfabética. Esta fase, entretanto, encontrou hoje em dia os novos modos orgânicos e biológicos do mundo eletrônico. Quer isto dizer que, no extremo do seu desenvolvimento mecanicista, vê-se interpenetrada pela ação eletrobio­lógica, conforme De Chardin explicou. E é essa reversão de caráter que torna nossa era "conatural", por assim dizer, das culturas não-alfabetizadas. Não temos mais dificuldades em compreender a experiência de primitivos ou de, não-alfabetiza­dos simplesmente porque a estamos recriando' eletronicamente em nossa própria cultura. (A pós-alfabetização, entretanto, é um modo de interdependência completamente diferente da pré­ alfabetização.) Por conseguinte, deter-se sobre as primeiras fases da tecnologia alfabética não deixa de ser importante para se compreender a era de Gutenberg.



Colin Cherry teve isto a dizer sobre os primórdios da escrita:
Uma história detalhada das linguagens falada e escrita seria irrelevante para o nosso estudo, mas, ainda assim, há certas questões de interesse que podem ser consideradas como ponto de partida. As primeiras escritas das civilizações do Mediterrâneo ,eram por meio de desenhos de imagens ou figuras, ou escrita "logográfica": simples figuras para reapresentar objetos e também" por associação, idéias, ações, nomes, etc. Além disto, o que é muito mais importante, desenvolveu-se a escrita fonética, na qual se criaram símbolos para os sons. Com o decorrer do tempo, as figuras foram reduzidas a símbolos mais formais conforme determi­nava a dificuldade de se empregar um cinzelou um pincel de caniço, ao mesmo tempo que a escrita fonética se simplificava com a formação de um grupo de duas ou três dúzias de letras de alfabeto, divididas em consoantes e vogais.

Temos nos hieróglifos egípcios um exemplo supremo do que agora se chama redundância em linguagens e código; uma das dificuldades em decifrar a pedra de Roseta reside no fato de que uma palavra polissilábica poderia dar a cada sílaba não um único símbolo, porém, certo número de outros diferentes comumente usados a fim de que a palavra pudesse ser perfeitamente compreendida. (O efeito, quando literalmente transcrita para o inglês, é o de tartamudeio.) Por outro lado, as línguas semíticas revelam, em seus primórdios, admitir a redundância. A antiga escrita hebraica não tinha vogais: o hebraico moderno não as tem também, salvo em livros infantis. Muitas outras escritas antigas não têm vogais. O russo eslavo avançou mais um passo na condensação: nos textos religiosos, palavras comumente 'empregadas eram abreviadas em poucas letras, de modo semelhante ao emprego atual do sinal U&", de abreviações tais como lb (pound - libra) e o crescente uso de ini­ciais, e.g., EUA, UNESCO, O.K.
Não está no evitar-se a redundância a chave para o alfa­beto fonético e seus efeitos sobre as pessoas e a sociedade. "Redundância" é um conceito de "conteúdo", ele próprio um legado da tecnologia do alfabeto. Isto é, qualquer escrita fonética é um código visual para a fala. A fala é o "conteÚdo" da escrita fonética. Não é, entretanto, o conteúdo de nenhuma outra espécie de escrita. Variedades pictográficas e ideográfica de escrita são Gestalts ou instantâneos de várias situações pessoais ou sociais. De fato, podemos ter uma boa idéia das formas não-alfabetizadas de escrita pelas equações matemáticas modernas, como E = MC2, ou pelas antigas "figuras de retórica" gregas e romanas. Tais equações ou figuras não têm conteúdo, mas são estruturas como uma melodia individual que evoca seu próprio mundo. As figuras de retórica são posturas da mente, como a hipérbole, ou a ironia, ou a litotes, ou o símile, ou a paronomásia. Escrita pictorial de toda espécie é um balé dessas posturas que ,delicia muito mais nossa tendência moderna para a sinestesia e riqueza audiotáctil de experiência que a forma alfabética simples é abstrata. Seria conveniente hoje em dia que se ensinasse às crianças muitos ideogramas chineses e hieróglifos egípcios como meio de intensificar sua apreciação de nosso alfabeto.

Escapou, portanto, a Colin Cherry, esse caráter único de nosso alfabeto, que é não apenas o de dissociar ou abstrair a vista e o som, mas o de retirar todo e qualquer significado do som das letras, salvo na medida em que letras sem sentido se relacionam com os sons sem sentido também. Na medida em que qualquer outro significado é emprestado à visão ou ao som, a separação entre o sentido visual e os outros sentidos fica incompleta, como é o caso em todas as formas de escrita salvo a do alfabeto fonético.


A tendência atual de reforma do alfabeto ou da ortografia é a de acentuar o sentido auditivo mais do que o visual
E interessante notar que existe hoje em dia crescente insatisfação em relação à dissociação entre nossos sentidos e as formas alfabéticas. À página 81 (abaixo) damos uma amostra de recen­te tentativa de criação de novo alfabeto, capaz de dar caráter mais fonético à nossa palavra escrita. O traço mais notável a observar na amostra é sua semelhança, senão identificação com página altamente textura e táctil de um manuscrito antigo. Em nosso desejo de restaurar cena unidade de intercurso entre nossos sentidos, tateamos' em busca de antigas formas de manuscritos que têm de ser lidos em voz alta ou então não ser lidos. Lado a lado com esse desenvolvimento extremado está o dos novos institutos de ensino da leitura rápida (dinâmica).
Neles educa-se o leitor para comandar a vista de modo que os olhos acompanhem a página venicalmente pelo centro, evitando tôda verbalização e Os movimentos incipientes da la­ringe que acompanham a série de instantâneos colhidos pelos olhos, quando percorrem as linhas da esquerda para a direita, a fim de !comporem o filme sonoro mental que chamamos de leitura.

A obra mais definitiva que temos sôbre as letras fonéticas é The Alphabet, de David Diringer. me assim começa sua expo­sição (pág. 37):


O alfabeto é o último em data dos sistemas de escrita, sendo o mais altamente desenvolvido, o mais conveniente, o mais fàcilmente adaptá­vel. É agora usado universalmente pelos povos civilizados; aprende-se fàcilmente sua técnica na infância. É óbvio que existe enorme vantagem no uso de letras que representam sons simples ao invés de idéias ou sílabas; nenhum sinólogo conhece todos os 80.000 ou mais símbolos chineses, mas também está longe de ser fácil aprender aproximadamente os 9.000 símbolos chineses utilizados pelos seus escolares. Quanto mais simples é escrever usando apenas os 22 ou 24 ou 26 sinais ou letras do nosso alfabeto! Além disto, o alfabeto permite passar-se de uma língua para outra sem $rande dificuldade. O nosso alfabeto, agora utilizado para as línguas inglesa, francesa, italiana, alemã, espanhola, turca, polonesa, holandesa, checa, croata, gaulesa, finlandesa, húngara e outras, originou-se do alfabeto outrora usado pelos antigos hebreus, fenícios, aramaicos, gregos, etruscos e romanos.

Graças à simplicidade do alfabeto, a escrita generalizou-se e se fêz pràticamente comum; não mais é privilégio quase exclusivo das classes sacerdotais ou de outras classes privilegiadas como acontecia no Egito, na Mesopotâmia ou na China. O ensino reduziu-se, em grande parte, a uma questão de leitura escrita, e fêz-se acessível a todos. O fato de haver a escrita alfabética sobrevivido por três e meio milênios, com modificações relativamente pequenas, e a despeito da introdução da máquina de impressão e da máquina de escrever e do uso extensivo da escrita estenográfica, é a melhor prova de sua eficiência e aptidão para atender às necessidades de todo o mundo moderno. Foi tal simplicidade, adaptabilidade e conveniência que garantiram o triunfo do alfabeto sô­bre os outros sistemas de escrita.


A escrita alfabética e suas origens constituem uma história em si mesmas; oferecem nôvo campo para pesquisas que estudiosos americanos estão começando a chamar de "alfabetologia". Nenhum outro sistema teve história assim tão extensa, tão complexa e tão interessante.
A observação de Diringer de que a escrita alfabética é "agora empre_ada universalmente pelos povos civilizados" é um pouco tautologica, porquanto foi somente pelo alfabeto que Os homesn se destribalizaram ou individualizaram para criar a "civilização". As 'culturas podem elevar-se artisticamente muito acima de civilização, mas sem o alfabeto fonético permanecem tribais, como se dá com 'as culturas chinesa e japonêsa. É ne­cessário acentuar que n:linha preocupação é pelo processo de dissociação sensorial pela qual se efetiva a destribalização dos homens. Se é uma "boa coisa" essa emergência do indivíduo e destribalização do homem, não cabe a nenhum indivíduo deter­minar. Mas, identificar-se e reconhecer-se o processo pelo qual isto se operou pode desembaraçar a questão das névoas e mias­mas morais que agora a envolvem.
Figura 1, de New York Times, 20 de julho de 1961.

O novo ALFABETO DE 43 UNIDADES: Esta é uma página extraída de uma obra denominada "Jesus, o Auxiliador", impressa na Grã-Bretanha, no alfabeto romano experimental e aumentado. O ,alfabeto, baseado em grande parte na fonética, contém o alfa­beto convencional, com as letras "q" e "x" eliminadas e deze­nove letras novas a êle adicionadas. Não há letras maiúsculas. Pelo sistema, a letra "o" é imutável no som de "long", mas "ago" é escrito "agoe" com o "o" e o "e" ligados. Outra letra nova é o "z" invertido, para sons com "trees". O "s" convencional é usado em palavras como "see". Outras letras novas incluem "i" e "e" ligados por uma barra transversal par,a palavras tais como "blind"; "o" e "u" ligados para palavras tais como "flowers" 'e dois "o" que ficam unidos. Em setembro, cêrca de 1.000 crianças inglêsas começarão a aprender a ler com êste alfabeto fonético experimental.



Helping the blind man

Long ago there lived a

Blind man. He lived where

Trees and flowers grew; but

The blind man could not see

The trees or flowers.

The poor man had to feel

the way to go with his stick.

Tap-tap-tap went his stick on

The road. He walked slowly.
Comentário (Roque):
A única referencia a esta experiência na Internet é a citação de McLuhan e para todos efeitos práticos, parece cretinice.
Porém, pesquisas posteriores, que poderiam ser evidencia de pontos que McLuhan percebeu, indicam que o cérebro integra e extrai informação de forma não de todo compreendida e muito interessante:


Este pequeno texto

Serve apenas para

Mostrar como nossa

Cabeça consegue

Fazer coisas

Impressionantes!!!

No começo estava

Muito complicado

Mas nesta linha

Sua mente vai

Decifrando o

Código quase

Automaticamente

Sem precisar pensar

Muito, certo?

Pode ficar bem

Orgulhosos disto!!!

Sua capacidade merece!

Parabéns!!!
O alfabeto é um absorvedor e transformador agressivo e militante de culturas, conforme Harold lnnis foi o primeiro a mostrar (82)
Uma outra observação de Diringer, em seu livro, merece destaque. Esta observação é a de que uma tecnologia que se utiliza de letras para representar sons mais do que idéias ou "silabas" é acessível a todos os povos. Em outras palavras, quer isto dizer que, qualquer sociedade que possua alfabeto, pode traduzir quaisquer culturas vizinhas para seu sistema alfabético. Este processo, porém, somente é válido para culturas alfabéticas. Nenhuma cultura não-alfabética pode adotar uma cultura alfabética; porque o alfabeto não pode ser apenas assimilado; ele chega para modificar, liquidar ou reduzir. Contudo, nesta era eletrônica, talvez tenhamos descoberto os limites da tecnologia do alfabeto. Já não nos deve surpreender que povos, como o grego e o romano, que haviam passado pela experiência do alfabeto, tenham também sido levados à conquista e à organiza­ção-a-distância. Harold Innis, em Empire and Communications (Império e comunicações) foi o primeiro a tratar desse tema e a explicar com precisão o verdadeiro significado do mito de Cadmo. O rei grego Cadmo, que introduziu o alfabeto fonético na Grécia, segundo se conta, teria semeado os dentes do dragão e deles brotaram homens armados. (Os dentes do dragão talvez se refiram às antigas formas dos hieróglifos.) Innis também explicou a razão por que a palavra impressa gera nacionalismo e não tribalismo; e por que cria sistemas de preços e mercados tais que não podem existir sem a palavra impressa. Em suma, Harold Innis foi o primeiro a perceber que o processo de mudança estava implícito nas formas da tecnologia dos meios de comunicação. Este meu livro representa apenas notas de pé de página à sua obra, visando explicá-la.

Diringer não põe em relevo senão um aspecto em relação ao alfabeto, pouco importando como ou quando foi ele alcançado:


Seja como for, deve-se acentuar que o grande feito dessa invenção não foi a criação dos sinais. Foi, sim, a adoção de um sistema puramente alfabético o qual, além disso, denotava cada som por meio de um único sinal. Por esse achado, simples como possa parecer-nos agora, seu inventor, ou inventores, devem figurar entre os maiores benfeitores da humanidade. Nenhum outro povo, no mundo, salvo o desses inventores, foi capaz de desenvolver uma verdadeira escrita alfabética. Os povos mais ou menos civilizados do Egito, Mesopotâmia, Creta, Asia Menor, Vale do Indo e América Central alcançaram um estádio adiantado na história da escrita, mas não foram além de uma fase de transição. Alguns povos (os antigos cipriotas, os japoneses e outros) desenvolveram um silabário. Mas somente os semitas sírio-palestinos produziram o gênio, ou gênios que criaram a escrita alfabética, da qual se originaram todos os alfabetos passados e atuais.

Cada civilização importante modifica seu alfabeto, e o tempo pode tornar sua relação com alguns de seus parentes mais próximos quase irreconhecível. Assim, o brâmane, a grande matriz dos alfabetos da índia, o alfabeto coreano e os alfabetos mongóis derivam da mesma fonte que o grego, o latim, o rúnico, o hebraico, o árabe e o russo, embora seja praticamente impossível a um leigo perceber real semelhança entre eles (págs. 216-217).
Por meio do sinal sem significação própria ligado ao som igualmente sem significado, construímos a forma e o sentido do homem ocidental. Nas próximas páginas procuraremos delinear, mais ou menos sumariamente, os efeitos do alfabeto na cultura manuscrita nas sociedades antiga e medieval. Depois disso, examinaremos mais detidamente as transformações que a máquina de impressão tipográfica trouxe à cultura alfabética.
O herói de Homero transforma-se em um homem dividido, ambivalente, ao assumir um ego individual (83)
O mundo dos gregos demonstra por que as aparências visuais não podem interessar um povo que não tenha antes "interiorizado" a tecnologia alfabética (87)
O ponto de vista dos gregos tanto em arte como em cronologia pouco tem em comum com o nosso, mas assemelha-se muito ao da Idade Média (90)
Os gregos inventaram suas novidades artísticas e científicas depois da interiorização do alfabeto (93)
A continuidade das artes medieval e grega foi assegurada pelo elo entre caelatura ou gravação e iluminura(46)
A crescente importância do visual entre os gregos os desviou da arte primitiva que a idade eletrônica agora reinventa depois de ter interiorizado o campo unificado da simultaneidade elétrica (99)
Nestes seis “tabletes” do mosaico ele volta a abordar a questão da maneira como a visão forma a idéia da realidade, como o fez em A Galáxia de Gutenberg (31) e, novamente não consegue passar uma idéia que deixe claro e nos convença do que ele está falando.

Por ex.,, ele passa batido na questão do Partenon, que sabemos que tem uma construção para corrigir a perspectiva, que apresento em seqüência.



Porém, ele apresenta uma discussão interessante quanto a questão de um ponto de vista da Idade Média e dos gregos serem o mesmo e não o nosso, a relação que tem o alfabeto com novidades artísticas e ciência, as iluminuras como algo a parte e a recuperação atual pela tecnologia eletrônica destes aspectos, que sumarizo em seguida.

Exaggerations of optical corrections seen in the Parthenon - Robert Shearer (after J.J. Coulton

The Parthenon as one of the most visually stunning buildings ever constructed. But did you know that much of this is due to its "imperfections?"

The Parthenon is widely regarded as the apex of Greek temple architecture, and one of the crowning achievements of the ancient world. Otherwise known as the Temple of Athena Polias, the building sits at the top of the Acropolis in Athens, and is one of the most famous structures ever created by man.


The building was erected between 447 and 438 BC, and houses the enormous sculpture of Athena by the sculptor Phidias. But the architects Ictinus and Callicrates put more into this building than meets the eye.
They included several subtle visual refinements into the design that could almost be classified as optical illusions. The refinements are taken to the extent that there are almost no true straight lines in the entire building. Many believe that these refinements make the structure appear even more visually perfect than it would if the structure were actually straight and true.

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