A família, esperança da Igreja e do mundo Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa introduçÃO



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A Família, esperança da Igreja e do mundo

Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa



INTRODUÇÃO

1. Na sua busca de realização, o homem percorre múltiplos caminhos. Entre eles, “o primeiro e mais importante é a família: uma via comum, mesmo se permanece particular, única e irrepetível, como irrepetível é cada homem; uma via da qual o ser humano não pode separar-se”(1). 


Quando o homem chega a este mundo, é a família que o acolhe e é nela que ele aprende a dar os primeiros passos; é na família que ele encontra essa primeira teia de relações que o vão ajudar a desenvolver todas as suas potencialidades pessoais e sociais; é na família que ele toma consciência da sua dignidade e que aprende os valores; é na família que ele se descobre como ser chamado à comunhão e ao amor; é da família que ele parte ao encontro da cidade e é à família que ele regressa em busca da força da comunidade. A família tem, portanto, um papel único e insubstituível na vida e na realização do homem.

2. A missão da Igreja é acompanhar o homem ao longo dos caminhos da sua existência terrena. Consciente de que o matrimónio e a família constituem um dos bens mais preciosos da humanidade, a Igreja sente o imperativo de propor “sem cessar e fielmente a verdade do matrimónio e da família. É uma necessidade que sente arder-lhe dentro, porque sabe que um tal dever é qualificante para ela em virtude da missão evangelizadora que lhe foi confiada pelo seu Esposo e Senhor, e que hoje se apresenta com excepcional premência”(2). 


As importantes mudanças sociais registadas nos últimos anos têm submetido a família a fortes tensões e provocado alguma inquietação entre aqueles que se preocupam com a estabilidade da realidade familiar. A cultura dominante parece apostada em impor um conjunto de atitudes que desfiguram e debilitam o matrimónio e a família.
Neste contexto, a Igreja propõe-se anunciar, com renovado vigor, “aquilo que diz o Evangelho sobre o matrimónio e a família, para individuar o seu significado e valor no desígnio salvífico de Deus. É preciso, de modo particular, reiterar que ambas as instituições são realidades que derivam da vontade de Deus. Impõe-se redescobrir a verdade da família, enquanto íntima comunhão de vida e de amor, aberta à geração de novas pessoas; e também a sua dignidade de «igreja doméstica» e a sua participação na missão da Igreja e na vida da sociedade”(3).

3. Neste ano de 2004, comemora-se o 10º aniversário do Ano Internacional da Família. Sublinhando essa efeméride, internacionalmente celebrada, na sequência do Congresso da Família, realizado para celebrar o 20º aniversário da publicação da Exortação Apostólica Familiaris consortio, e dando cumprimento a quanto prometemos na Carta Pastoral Responsabilidade Solidária pelo Bem Comum (4), nós, os bispos portugueses, conscientes de que a família é o ponto de partida para a realização da pessoa e para a humanização da sociedade, queremos, uma vez mais, proclamar o Evangelho do matrimónio e da família e lembrar a todos que a grande missão da família é ser, na Igreja e no mundo, o rosto vivo do Deus que ama.


 


I
A FAMÍLIA COMO REFERÊNCIA HUMANA FUNDAMENTAL



Dimensão natural e antropológica

4. O fenómeno humano surge como o ponto culminante de todo o processo de criação. Feito “à imagem e semelhança” de Deus (Gn 1,26), o homem ocupa um lugar central no projecto divino para o mundo e aparece, diante dos outros seres criados, como um ícone do Criador. A sua missão consiste em continuar a obra criadora de Deus e em testemunhar a realidade de Deus. Desse modo, o homem contribui para a perfeição da criação e revela-se como a fonte de sentido de toda a evolução do universo.
Ser “imagem e semelhança” de um Deus que é amor e comunhão pessoal significa que o homem é chamado a realizar a sua existência no amor e a dar testemunho do amor. “O amor é, portanto, a fundamental e original vocação do ser humano”(5). Assim, é no amor que o homem se realiza, que a sua existência se completa e adquire sentido pleno. O homem é, portanto, um ser-em-relação, um ser para os outros. O homem não pode viver sem amor: “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). Ele “permanece para si próprio um ser incompreensível e a sua vida é destituída de sentido, se não lhe for revelado o amor, se não se encontra com o amor, se o não experimenta e o não torna algo de si próprio, se nele não participa vivamente” (6).

A complementaridade hetero-sexual
5. A realidade do ser-em-relação manifesta-se, segundo a revelação bíblica, na bipolaridade sexuada do homem e da mulher (cf. Gn 1,27). Nessa perspectiva, o homem criado à imagem e semelhança de Deus, é homem e mulher: dois indivíduos, uma única realidade humana, chamados à unidade que exprime e anuncia a vocação de unidade e harmonia do próprio cosmos.
Esta unidade procurada e que se insere na busca progressiva da perfeição da criação não é uma “fusão” na qual os dois sujeitos perdem a sua identidade, mas é uma comunhão, onde cada um mantendo a sua individualidade, a reconhece continuamente na relação. No par humano, o ser humano afirma-se como relacional, isto é, alguém que se descobre no dom de si próprio e que se constrói na relação com o outro. Sem anular o indivíduo, este torna-se pessoa, porque encontra a sua verdade e a sua realização no amor partilhado. 
Esta unidade relacional do homem e da mulher é o núcleo fundamental da vocação comunitária da humanidade e, por isso mesmo, sua célula fundante e fundamental. Fonte de sentido para toda a criação, esta unidade primordial alia a força da natureza com o sentido que lhe vem do espírito, afirmando, desde o início, a dimensão cultural e espiritual como componente essencial de toda a comunidade humana. Com a força da natureza, pode haver complementaridade física e reprodução da espécie; mas só haverá comunidade de pessoas com a dimensão cultural e espiritual, que vai encontrar uma expressão decisiva na dimensão religiosa, ou seja, da comunhão com Deus, que se reconhece como criador.

O matrimónio

6. Esta capacidade de amar e de ser amado tem a sua expressão mais plena na união estável de um homem e de uma mulher. A esta decisão chega-se, nesse processo de maturação do amor, quando a pessoa se torna capaz de contrair um compromisso de doação, de entrega e de fidelidade com outra de um outro sexo. O matrimónio é o modo particular e específico de realizar essa entrega que o amor esponsal exige. Ao ligar-se um ao outro por um amor fiel, exclusivo e indissolúvel, que os compromete para sempre, os esposos tornam-se “uma só carne” (Gn 2,24). Essa união natural, realizada com e por amor, aperfeiçoa-se e consolida-se dia a dia a partir desse mesmo amor. 
A aventura do matrimónio é, além disso, frutificante: a família é “o santuário da vida” (7) e está ao serviço da vida. A comunhão conjugal é uma união dinâmica, que se prolonga na fecundidade. Está ordenada, por meio da procriação, à edificação da comunidade familiar. 
Os filhos, como fruto do amor, são, por sua vez, fonte do amor. Eles dão sentido à vida dos cônjuges e tornam-se um dom para os pais. Os filhos “não são um ‘acessório’ no projecto de uma vida conjugal; são, antes, um ‘dom preciosíssimo’ inscrito na própria estrutura da união conjugal” (8).

A comunidade familiar

7. A comunhão conjugal, nascida do amor que o homem e a mulher decidem partilhar um com o outro e que assumem através de um compromisso estável, constitui o fundamento sobre o qual se continua a edificar a mais ampla comunhão da família: dos pais e dos filhos, dos irmãos e das irmãs entre si, dos parentes e de outros familiares. Assim, “a família torna-se um laboratório de humanização e de verdadeira solidariedade” (9).
Tal comunhão radica-se nos laços naturais da carne e do sangue, e desenvolve-se encontrando o seu aperfeiçoamento propriamente humano na instauração e maturação dos laços ainda mais profundos e ricos do espírito: o amor, que anima as relações interpessoais dos diversos membros da família, constitui a força interior que plasma e vivifica a comunhão e a comunidade familiar. 
A família cristã é, portanto, chamada a fazer a experiência de uma comunhão nova e original, que confirma e aperfeiçoa a comunhão natural e humana. “Todos os membros da família, cada um segundo o dom que lhe é peculiar, possuem a graça e a responsabilidade de construir, dia após dia, a comunhão de pessoas, fazendo da família uma «escola de humanismo mais completo e mais rico»: é o que vemos surgir com o cuidado e o amor para com os mais pequenos, os doentes e os anciãos; com o serviço reciproco de todos os dias; com a comparticipação nos bens, nas alegrias e nos sofrimentos” (10). 

8. Um elemento fundamental para construir esta comunhão “é o intercâmbio educativo entre pais e filhos, no qual cada um deles dá e recebe. Mediante o amor, o respeito e a obediência aos pais, os filhos dão o seu contributo específico e insubstituível para a edificação de uma família autenticamente humana e cristã. Isso ser-lhes-á facilitado, se os pais exercerem a sua autoridade irrenunciável como um «ministério» verdadeiro e pessoal, ou seja, como um serviço ordenado ao bem humano e cristão dos filhos, destinado particularmente a proporcionar-lhes uma liberdade verdadeiramente responsável; e se os pais mantiverem viva a consciência do «dom» que recebem continuamente dos filhos” (11). 



Valores constitutivos da família

9. A comunhão familiar só pode ser conservada e aperfeiçoada através de um esforço quotidiano de todos os membros da família. Exige, de facto, de todos e de cada um, a generosidade, a disponibilidade para partilhar, a compreensão, a tolerância, o perdão, a contínua abertura à reconciliação, a solidariedade na ajuda mútua, a fidelidade às pessoas e ao projecto comum, o respeito pela vida e pela dignidade de cada elemento que integra a comunidade familiar, a intimidade construída na ternura e na doação. 
Servida por estes valores, a família desempenhará um papel preponderante na realização das pessoas que a integram e na humanização da sociedade. 

 

II


LUZES E SOMBRAS DA FAMÍLIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

10. Mesmo num tempo de “crise de civilização”, como aparenta ser o nosso, a família continua a ser a realidade base do equilíbrio da sociedade e o principal foco da estabilidade e da esperança. Nenhuma crise consegue ofuscar a beleza de tantas famílias que, vivendo empenhadamente o mistério do amor, apoiadas pela força sacramental do matrimónio, constroem, no discernimento contínuo das circunstâncias mutáveis, autênticas comunidades de vida e de amor, alicerçadas na fidelidade, generosas no serviço à vida, felizes na alegria que comunicam, verdadeiras “expressões domésticas” do mistério da Igreja de Jesus Cristo.


Mas esta luz que emana de tantas famílias felizes e que fundamentam a nossa esperança, não nos pode fazer ignorar os problemas reais e os perigos que ameaçam a estabilidade das famílias e levam, até, a perder de vista a verdade segura sobre a sua natureza e missão. Mesmo que muitas famílias não estejam em crise, a cultura contemporânea provocou uma crise da instituição familiar. Analisaremos agora, aliás na sequência do Congresso da Família, algumas das componentes dessa crise.

Dificuldades resultantes da cultura ambiente

11. A época moderna trouxe ao homem a consciência da sua individualidade. O homem descobriu-se como um ser único, original, diferente, insubstituível, irrepetível e autónomo. Este movimento foi positivo: levou à descoberta do valor supremo e intrínseco de cada ser humano, à afirmação dos direitos e da dignidade de cada pessoa, ao encontro com alguns valores essenciais, como a liberdade, o pluralismo e a responsabilidade.
No entanto, a descoberta da individualidade conduziu, também, ao individualismo. “O individualismo supõe um uso da liberdade pelo qual o sujeito faz o que quer, estabelecendo ele mesmo «a verdade» do que gosta ou do que lhe é útil. Não admite que outro «queira» ou exija algo dele em nome de uma verdade objectiva. Não quer «dar» a outro baseando-se na verdade; não quer converter-se numa entrega sincera. O individualismo é, portanto, egocêntrico e egoísta” (12). 

12. Fortemente marcada por essa dinâmica de egoísmo e de egocentrismo, a cultura do nosso tempo apresenta sinais de degradação preocupante quanto a alguns valores fundamentais. 


É uma cultura do provisório, que dá prioridade ao que é efémero sobre as realidades perenes com a marca da eternidade: propõe que se viva ao sabor do imediato e do momento, e subalterniza as opções definitivas, os valores duradouros. 
É uma cultura do prazer, que orienta para a satisfação imediata e egoísta dos próprios anseios e desejos: ao apresentar o amor e a sexualidade como objecto de consumo imediato e descomprometido, banaliza e empobrece a concepção da dimensão sexual humana e esconde ao homem o horizonte da verdadeira felicidade. 
É uma cultura do consumo e do bem-estar material: ao criar ilusões e necessidades inúteis, ao seduzir os homens com o brilho dos bens perecíveis, ao potenciar o reinado do «ter» sobre o «ser», escraviza o homem e relativiza a busca da identidade espiritual. 
É uma cultura da facilidade, que ensina a evitar tudo o que exige esforço, sofrimento e luta: produz pessoas incapazes de lutar por objectivos exigentes e por realizar projectos que exijam esforço, fidelidade, compromisso e sacrifício. 
É uma cultura do indivíduo: ao sublinhar fortemente os direitos e deveres do indivíduo, anula a dimensão de comunhão e fere de morte a família como comunidade de vida e de amor. 
É uma cultura irresponsável, que relativiza os princípios éticos: prepara leis destinadas a regular as “crises”, sem se preocupar em atacar os comportamentos inadequados e em educar para um projecto de valores verdadeiros.
É uma cultura de morte: desvaloriza de forma dramática a vida humana e aceita, com leviandade, que lógicas utilitaristas e materialistas se sobreponham aos direitos das crianças não nascidas, dos débeis, dos doentes e das pessoas idosas.
É uma cultura mediatizada: todos estes traços culturais impõem-se, continuamente, às famílias, através da avalanche dos meios de comunicação, alterando fortemente os ritmos familiares e não deixando espaço para um discernimento sadio da realidade familiar.

Dificuldades resultantes das estruturas sociais

13. O urbanismo - A expansão económica verificada nas duas últimas décadas foi acompanhada por uma forte especulação imobiliária que encareceu significativamente o preço da habitação. A compra ou o aluguer da casa tornou-se um peso enorme para a economia familiar, afectando sobretudo os casais jovens. Aí reside, precisamente, uma das razões fundamentais para o atraso na idade de contrair matrimónio e para a redução ao mínimo do número de filhos, pois são necessários, na maior parte dos casos, dois ordenados para sustentar a economia familiar e o trabalho da mulher chega a estar ameaçado no caso de ficar grávida. “A precária situação económica, profissional e de habitação em que muitos jovens se encontram ao casar dificulta-lhes a adaptação ao novo modo de viver e a estabilização numa vida de casados equilibrada, confiante e feliz. Muitas vezes os jovens casam endividados, sem emprego seguro, sem casa própria ou com habitação inadequada (...), vendo-se compelidos a privações, horários desencontrados e promiscuidades que se reflectem negativamente na sua vida de casados e lhes tolhem as forças indispensáveis ao cultivo dos valores mais altos” (13).
O aumento significativo do número de pessoas que se vêem obrigadas a residir em locais demasiado afastados do local de trabalho tem constituído, também, um factor negativo para a vida familiar. A ‘periferização’ das famílias leva ao aumento do tempo de deslocação entre a casa e o trabalho, diminuindo o tempo disponível para o encontro familiar e constituindo um obstáculo ao relacionamento, quer entre os cônjuges, quer entre os pais e os filhos.
Verifica-se, por outro lado, uma forte tendência para a redução do espaço oferecido, em muitas casas recentemente construídas, o que dificulta a família ampla e a presença das pessoas mais idosas na convivência do lar. 
Finalmente, o crescimento das áreas urbanas tem sido feito, em muitos casos, sem um projecto sustentado e que tenha em conta o bem-estar das pessoas e das famílias. Vários núcleos habitacionais têm sido implantados e crescem, “sem os equipamentos sociais indispensáveis, como escolas, serviços de saúde e locais de culto. Faltam, de igual modo, espaços adequados ao correcto desenvolvimento da vida social: zonas arborizadas e jardins, lugares para a prática do desporto e ocupação dos tempos livres, recintos para actividades culturais e associativas” (14). Instaladas em cidades de betão onde falta “qualidade de vida”, torna-se difícil, para as famílias crescerem numa atmosfera de equilíbrio, de harmonia, de tranquilidade e de serenidade; e isso acaba por ter, a curto prazo, custos incalculáveis no que diz respeito à estabilidade familiar. 

14. O desemprego - O desemprego e o trabalho precário constituem, nos nossos dias, uma das mais sérias ameaças à família. Ao trazerem instabilidade, insegurança e desconfiança em relação ao futuro, destroem a harmonia, o equilíbrio e a paz familiar. Atingindo, por vezes, as dimensões de uma autêntica “calamidade social” (15), são uma fonte de pobreza que fragiliza os indivíduos e as famílias. Uma das suas consequências é a dificuldade em prover às necessidades fundamentais, nomeadamente o acesso à habitação, à educação, à cultura e à assistência na saúde. Com frequência, o desemprego é responsável pelo endividamento das famílias, provocando situações verdadeiramente dramáticas de miséria e de dependência. 


Outro dos efeitos do desemprego é impedir os indivíduos de desenvolverem as suas capacidades e de as porem ao serviço do bem comum. Afastados do mercado do trabalho, os desempregados sentem a dolorosa sensação de não serem reconhecidos nem úteis à sociedade. Muitas vezes, esta situação degenera em fenómenos de violência, de prostituição, de alcoolismo, de delinquência e de desequilíbrio familiar. 
Entre as pessoas dolorosamente atingidas pelo desemprego, encontra-se um número significativo de jovens. A dificuldade em aceder ao mercado de trabalho leva muitos jovens a sentirem dificuldades para encontrar o seu espaço na sociedade. A instabilidade daí decorrente é responsável, muitas vezes, pelo adiamento do matrimónio e por desequilíbrios diversos que afectam a unidade familiar.

15. A injustiça fiscal - O sistema fiscal vigente ignora a centralidade da família na sociedade e apresenta-se, em geral, desfavorável à promoção da família e dos valores familiares. 


O regime fiscal a que as famílias estão sujeitas desencoraja a natalidade e penaliza, sobretudo, as famílias numerosas, constituindo um incentivo a que os casais limitem, por razões económicas, o número de filhos. A tributação fiscal, não só não tem em conta, de um modo coerente, a família, como chega a tributar mais gravosamente o cidadão enquanto membro de uma família do que o seria fora dela. 
Falta, na realidade, uma política que centre o sistema fiscal na família e que privilegie o tratamento fiscal dos rendimentos integrados num agregado familiar. Falta, igualmente, uma política de incentivos às empresas que desenvolvam uma política de apoio às famílias dos seus trabalhadores, nomeadamente através de creches, infantários e prestação de cuidados de saúde.

16. A pouca protecção dada à maternidade - A incorporação da mulher no mercado de trabalho - umas vezes imposta pelas necessidades da economia familiar, outras pela ideia de que o valor e a dignidade da mulher se baseiam na sua profissão remunerada - obriga a que, em muitos casos, ela trabalhe todo o dia fora de casa. Na prática, isto pode significar, para a mulher, a renúncia à maternidade ou, na melhor das hipóteses, a redução ao mínimo do número de filhos. A fadiga resultante da actividade laboral, a necessidade de ser competitiva e a realização profissional tornam mais difícil que a mulher possa dar aos filhos o cuidado, o amor, o afecto e a atenção de que estes necessitam para se desenvolverem de forma equilibrada. Tal realidade não resulta, em muitos casos, da vontade da mulher, mas da impossibilidade de conciliar objectivamente a sua dupla condição de trabalhadora e de mãe.


As exigências da actividade laboral traduzem-se na redução da comunicação familiar e na falta de tempo para a convivência em casa. Dessa forma, debilita-se a força interna das relações pessoais e degrada-se o papel educador dos pais na sua relação pessoal com os filhos.

Fragilidades internas à própria família

17. Os abusos da liberdade individual
O individualismo trouxe a corrupção do conceito e exercício da liberdade. A liberdade pessoal aparece, frequentemente, como afirmação de si próprio e dos interesses egoístas e não como capacidade de se dar ao outro numa relação afectiva profunda e definitiva. Numa sociedade em que o ideal de vida é a independência, as relações conjugais e familiares são vistas como uma pesada carga que rouba a liberdade e que é causa de sofrimento e de infelicidade. Esta deformação do significado da liberdade tem introduzido perturbações graves no seio da vida familiar, quer na relação do casal, quer na relação entre pais e filhos. A família torna-se, assim, um conjunto de indivíduos com direitos e deveres regulados pela Lei, e não uma comunidade de vida e amor, onde o exercício da liberdade se traduz no dom de si próprio, na partilha, na solidariedade e no serviço feito por amor.

18. As traições ao amor e à vida


Pelo compromisso matrimonial, os cônjuges ligam-se um ao outro por um amor fiel, exclusivo e indissolúvel que os compromete para sempre numa vida de partilha, de doação recíproca e de entrega total. Contudo, diversas situações vividas nas famílias atentam contra este compromisso: o individualismo, a infidelidade, a promiscuidade sexual, a mentira, a incapacidade para se dar totalmente, a procura do próprio prazer e dos próprios interesses por cima dos interesses comuns, a ruptura do compromisso matrimonial. São traições ao amor que fracturam e, muitas vezes, ferem de morte a comunidade familiar. O divórcio aparece, neste contexto, como uma das mais graves formas de traição ao amor.
O compromisso matrimonial supõe, por outro lado, um compromisso com a vida. As manifestações de violência e de desrespeito pela dignidade do outro - do cônjuge, dos filhos, dos idosos, dos doentes, das pessoas portadoras de deficiência - são traições à vida. O aborto provocado é, na perspectiva do Magistério da Igreja, um crime contra a vida “particularmente grave e abjurável” (16). Tudo aquilo que nega a vocação da família a ser “santuário da vida” atenta contra a verdade e a integridade da própria família.

19. A pobreza da dimensão espiritual e sobrenatural


Seguindo o sentido geral da cultura do nosso tempo - onde o divino deixou de ser um elemento significativo para a vida diária dos homens - muitas famílias reduzem o seu horizonte a uma perspectiva de bem-estar material e constroem a sua existência à margem dos valores transcendentes. A indiferença face a Deus e aos seus projectos, a falta de tempo para a oração pessoal e familiar, a indisponibilidade para a escuta e a reflexão da Palavra de Deus, a falta de participação na vida sacramental e eclesial e a insensibilidade face aos valores evangélicos traduzem-se no empobrecimento da dimensão espiritual e sobrenatural. 

20. Em geral, o não cultivo dos valores que são constitutivos da família, ameaça a solidez da instituição familiar e impede-a de concretizar no mundo a sua vocação de sinal e instrumento do amor de Deus. 



As famílias em situações especiais

21. As famílias em que pelo menos um dos cônjuges é “recasado” 
O divórcio é sempre uma crise extremamente dolorosa. A separação provoca, quase sempre, nos cônjuges sentimentos de fracasso e de perda; nos filhos, o divórcio provoca, muitas vezes, sentimentos de raiva, de medo, de abandono, de tristeza ou até de culpa. Muitos divorciados caminham para um novo casamento; e o novo enquadramento familiar ressente-se, frequentemente, do quadro negativo que acompanhou a anterior separação de um ou dos dois cônjuges. Tanto os ex-cônjuges como os filhos do casal passam a ter que se adaptar a novas situações, desde as rotinas do dia a dia a referências mais importantes, como a transferência de escola ou de emprego, de residência, de bairro, de cidade, ou mesmo de país. Além disso, na família recasada os limites dos subsistemas familiares são mais permeáveis, a autoridade paterna e materna é dividida com outros membros da família: há uma maior complexidade na constituição familiar - às vezes oito avós, irmãos, meios-irmãos, filhos da mulher do pai, filhos do marido da mãe. Esta complexidade das relações leva, em certos casos, a dificuldades de enquadramento que afectam o desenvolvimento emocional da criança e do adolescente. Tal situação arrasta consigo, não raras vezes, problemas emocionais e psico-somáticos, que se traduzem na dificuldade em lidar com os “novos pais”, em agressividade, em fechamento, em problemas de identificação familiar e social.

22. As famílias com filhos portadores de deficiência 


O problema dos cidadãos portadores de deficiência marca o dia a dia de muitas famílias. Trata-se de uma questão que ainda não encontrou uma resposta satisfatória por parte dos poderes públicos. Os problemas começam, desde logo, no acesso das crianças portadoras de deficiência às creches e infantários onde, com frequência, não existem condições para as receberem. Isto implica, nalguns casos, que um dos pais tenha de renunciar ao seu emprego para assistir o filho portador de deficiência nos primeiros anos de vida. Os problemas continuam na escola regular, onde nem sempre existem condições técnicas e humanas para assegurar ao cidadão portador de deficiência uma integração/inclusão efectiva. As instituições de ensino especial são escassas e nem sempre conseguem dar uma resposta adequada aos desafios que, a este nível, lhes são postos. 
Sem acesso à educação e à formação de qualidade, os cidadãos portadores de deficiência vêm-se impossibilitados de aceder ao mercado normal de trabalho em condições de igualdade. Assim, as pessoas portadoras de deficiência estão destinadas a integrar indefinidamente o grupo dos desempregados ou dos trabalhadores mal remunerados e vêem, assim, limitadas as suas possibilidades de integração social, de realização profissional e até de constituir família. Trata-se de uma situação que onera a comunidade familiar e que constitui um drama na vida de muitas das nossas famílias.

23. As famílias monoparentais


Nos últimos anos tem aumentado significativamente o número de famílias monoparentais. As razões que estão por detrás desta realidade são de índole diversa - uma maternidade ou paternidade solteira, o divórcio civil, a nulidade canónica da união anterior, uma violação, ou outras; mas o facto significa, em qualquer caso, uma deficiência no quadro familiar. Desde logo, a falta da imagem do pai ou da mãe como figura de referência pode constituir, para a educação da criança, uma grave lacuna. Frequentemente, essa lacuna tem consequências posteriores mais ou menos graves, quer ao nível do equilibrado desenvolvimento pessoal, quer ao nível do aproveitamento escolar e da formação em geral, quer ao nível da capacidade de integração e de relação social.
Outros factores contribuem para onerar a situação da família monoparental. Trata-se, em geral, de uma família com menos recursos económicos e que, por isso, tem menos facilidade em aceder aos bens essenciais, nomeadamente à educação, à saúde e à cultura; o chefe de uma família monoparental tem, em geral, maior dificuldade em inserir-se no mercado laboral até porque, com frequência, é obrigado a ausentar-se do seu posto de trabalho para cuidar do filho; o chefe de uma família monoparental, pelo facto de ter de assumir sozinho todas as tarefas dos pais, vive num clima de cansaço, de tensão e de preocupações que acaba por afectar o equilíbrio de toda a comunidade familiar. 

24. A situação dos idosos


A evolução médico-científica, a melhoria da higiene, da salubridade e das condições de vida globais, provocaram o aumento da esperança de vida. Como consequência, aumentou significativamente o número de pessoas idosas na sociedade actual. Trata-se de uma questão que, além do seu impacto óbvio nas estruturas sociais, laborais e económicas, tem também consequências sérias na comunidade familiar.
Muitos idosos, por vontade própria ou por exigência das circunstâncias, vivem sozinhos, numa situação de especial vulnerabilidade. Por vezes, essa realidade significa pobreza, isolamento, solidão, esquecimento, tristeza e desamparo, apesar do apoio e do acompanhamento das instituições de solidariedade social públicas ou privadas. A natural susceptibilidade a certas doenças, a maior frequência de alterações degenerativas, a diminuição da acuidade dos sentidos, a eventual incapacidade física ou psíquica, tornam as pessoas e os casais que fazem parte deste grupo etário especialmente débeis e necessitadas. As suas carências económicas não lhes permitem, muitas vezes, ter acesso a determinados bens de primeira necessidade - nomeadamente aos cuidados de saúde - nem o aproveitamento do tempo de lazer a que têm direito. 
Muitos idosos estão, felizmente, integrados em comunidades familiares mais alargadas, constituídas pelos seus descendentes. Nesse contexto eles têm, normalmente, um papel muito importante na consolidação da estrutura familiar. Para os filhos e para os netos, eles dão testemunho do valor da família e “são, por sua natureza, fonte de dádivas, tesouro de experiências, conselheiros sábios e prudentes” (17). A sua presença e a sua afectividade são particularmente importantes no apoio, no acompanhamento e na transmissão de valores às gerações mais jovens da comunidade familiar. 
As necessidades particulares dos idosos dependentes - por motivo de deficiência profunda, doença grave ou idade avançada - constituem, contudo, uma realidade a que as famílias nem sempre conseguem dar a resposta adequada. A exiguidade e a falta de condições do espaço familiar, a dificuldade - por parte dos filhos - em conciliarem a vida profissional com o acompanhamento dos pais em situação de dependência, constituem uma grave dificuldade experimentada por muitas famílias.

25. As famílias deslocadas (os migrantes) 


A realidade da migração sente-se, entre nós, numa dupla direcção: por um lado, nos milhares de portugueses que emigraram, procurando noutros países melhores condições materiais; por outro, no número daqueles que, mais recentemente, demandam Portugal como pátria de acolhimento. 
Nos últimos anos testemunhámos um fluxo migratório sem precedentes. Muitas das pessoas envolvidas nessa corrente migratória foram coagidas a deixar a sua terra, o seu círculo familiar e as suas raízes sócio-culturais para encontrar, num país de acolhimento, uma vida melhor, para elas e para as suas famílias. Frequentemente, depois de uma viagem cheia de dificuldades e privações, os imigrantes caem nas mãos de redes de tráfico de pessoas e são explorados por empregadores sem escrúpulos. Apesar da sua contribuição para o desenvolvimento do país onde se estabelecem, nem sempre encontram mecanismos legais que defendam os seus direitos e são, muitas vezes, vítimas de actos de racismo e discriminação. Num contexto sócio-cultural estranho e, por vezes, adverso, o seu desenraizamento constitui um factor acrescido de marginalização. A separação da família, além de aumentar o seu sofrimento e solidão, enfraquece as relações familiares e contribui para a desagregação da comunidade familiar.
Nos casos em que é possível o reagrupamento familiar no país de acolhimento, a família migrante enfrenta novos e difíceis desafios. Para uma elevada percentagem de imigrantes e seus filhos, as oportunidades de integração estão limitadas pela sua dificuldade em dominar a língua do país que os acolheu, pelo choque de culturas, pelo seu baixo poder económico, pela discriminação e desvantagem no mercado de trabalho, pela segregação residencial, pela escassa participação política e sindical, pela dificuldade em aceder ao sistema de saúde, à educação e à cultura, pelo desemprego e pelo racismo. São, portanto, famílias especialmente vulneráveis à agressão do meio e que têm, frequentemente, dificuldades em encontrar o seu equilíbrio, o seu enquadramento e a sua realização.

26. Temos consciência de que este quadro significa, para a realidade familiar, um enorme desafio. Contudo, encaramos o futuro com confiança e esperança, convictos de que as famílias saberão encontrar o seu caminho, realizar as necessárias adaptações, conservar os valores perenes e continuar a desempenhar, com fidelidade, o seu papel e a sua missão na Igreja e no mundo. 


 

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