A evoluçÃo histórica da alfaiataria: trajes, saberes, MÉtodos e relaçÕes de trabalho



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A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA ALFAIATARIA: TRAJES, SABERES, MÉTODOS E RELAÇÕES DE TRABALHO.

Juliana Barbosa e Eloisa Helena Santos (*)



Resumo: Este artigo tem origem em uma pesquisa que buscou conhecer os saberes tradicionais do alfaiate bem como as dificuldades que incidem sobre a preservação desses saberes e sobre a sua transmissão. Uma revisão bibliográfica e uma pesquisa de campo compuseram a metodologia qualitativa adotada. O presente artigo objetiva apresentar resultados da revisão bibliográfica empreendida e que tratou do desenvolvimento histórico da alfaiataria. Ele se constitui dos primeiros registros impressos da alfaiataria, da evolução do traje masculino, da alfaiataria artesanal e do prêt-à-porter, da hierarquia nas oficinas e das relações de trabalho, do processo de ensino e aprendizagem na alfaiataria e dos desafios da alfaiataria artesanal no século XXI.

Palavras-chave: Alfaiataria, publicações, saberes, metodologias, aprendizado.

A alfaiataria é um ofício secular, particularmente dotado de técnicas e saberes perpetuados pelos alfaiates de maneira singular na hierarquia de suas organizações, na particularidade dos métodos de ensino e aprendizagem empregados e por meio de suas práticas.

O objetivo deste artigo é descrever o desenvolvimento histórico da alfaiataria. Fruto de uma revisão bibliográfica, ele parte de uma primeira publicação, datada no ano de 1589 e segue até a evolução dos sistemas de produção prêt-à-pôrter e suas implicações, bem como a evolução do traje masculino, analisadas por outras publicações mais recentes. Esta descrição permite estabelecer uma relação direta com a história do alfaiate e seu ofício na sociedade.

O artigo abordará, também, a hierarquia dentro das oficinas, desde as guildas, a relação entre o mestre e o aprendiz, responsável por manter o ofício através de inúmeras gerações, relação que se apresenta na condição de pai para filho ou por meio de acordos estabelecidos entre as famílias dos aprendizes e os mestres.

A descrição da história da alfaiataria permite compreender as fortes mudanças pelas quais atravessa a alfaiataria artesanal e repensar novas estratégias e possibilidades de continuidade do ofício por meio de metodologias de ensino e aprendizagem capazes de abarcar os saberes destes profissionais.

O artigo compõe-se de seis itens que tratarão dos seguintes temas: os primeiros registros impressos da alfaiataria, a evolução do traje masculino, a alfaiataria artesanal e o prêt-à-porter, a hierarquia nas oficinas e as relações de trabalho, o processo de ensino e aprendizagem na alfaiataria, os desafios da alfaiataria artesanal no século XXI. Finalmente, um último item apresenta as considerações finais.



PRIMEIROS REGISTROS IMPRESSOS DA ALFAIATARIA

A alfaiataria artesanal é um ofício secular. Um dos primeiros registros encontrados na literatura data do reinado de Henrique I (1100-1135), em que o rei concedia direitos e privilégios aos alfaiates de Oxford (Pirenne, 1973). Com relação aos métodos utilizados pelos alfaiates, no ano de 1589 surgiu a primeira referência bibliográfica sobre o tema, publicada pelo alfaiate espanhol Juan de Alcega, o primeiro livro de traçados em modelagem masculina na história intitulado o “Libro de Geometri pratica y Traça” (Junior, 1937).

Juan de Acelga reuniu em seu livro traçados que vão desde as roupas masculinas e femininas, até roupas para sacerdotes e comandantes militares. Os desenhos não indicam necessariamente a construção de cada uma das peças, mas demonstram as formas e o posicionamento sobre o tecido para se obter o melhor aproveitamento da peça a ser confeccionada. Em seu livro, Alcega sugere indicações de encaixe, número de partes a cortar, além de códigos que indicam valores a serem executados. Esses valores dizem respeito a uma espécie de tabela de medidas que eram aplicadas a fim de se obter o valor total do tecido a ser empregado, uma vez que havia na época até quatorze possibilidades de larguras de tecido.

Seguindo o modelo de Alcega, no ano de 1618, em Madri, foi publicado o segundo livro de alfaiataria intitulado Geometria Y Traça, do também espanhol Francisco de La Rocha de Burguen. Ambas publicações tinham como objetivo principal mostrar como colocar as modelagens da forma mais vantajosa no tecido, de acordo com a sua largura, além apresentar uma constante preocupação com os desejos do cliente. Segundo Waugh em ambas as publicações,


[...] o alfaiate que deseja cortar bem suas roupas, seja para um homem ou para uma mulher, deve tomar medidas cuidadosas de seus clientes. Ele também é avisado dos caprichos dos referidos clientes, que muitas vezes quando um vestuário está sendo cortado pede para ele ser feito dois ou três centímetros mais curto e mais estreito, e quando a peça de vestuário está feita, quer mais comprida e larga, o que significa que muitas peças de vestuário são desperdiçadas, e o alfaiate deve permitir isso (1985, p.35)
Apesar das muitas recomendações acerca do corte e do aproveitamento do tecido, as publicações não traziam variações de estilo nem instruções técnicas, e a montagem das peças não era mencionada (Waugh, 1985).
A primeira publicação francesa surgiu no ano de 1671 intitulada Le Tailleur Sincère, de Le Sieur Benist Boullay. Como as anteriores espanholas, orientava como cortar todas as peças de ternos masculinos e a quantidade de material que cada um exigia, sem ainda fazer nenhuma menção à montagem das peças (Waugh, 1985).
De acordo com Waugh, o primeiro tratado “realmente sério” sobre a arte da alfaiataria, L’Art du Tailleur, foi escrito por François Alexandre de Garsault e publicado pela Académie Royale des Sciences de Paris, em 1769. Ele descrevia os traços de um casaco desde a tomada de medidas até a apresentação detalhada de como realizar os pontos utilizados na confecção e no acabamento, o método de prensagem, os instrumentos necessários, etc. Ainda não há nenhum tipo de orientação com relação à montagem, mesmo que, segundo a autora, Garsault dê instruções sobre a confecção de corsets que até então era de domínio dos alfaiates (Waugh, 1985).

As publicações do período refletiam o momento em que os alfaiates viviam. Eles gozavam de uma sólida reputação, pois eram os responsáveis por confeccionar os trajes tanto femininos quanto masculinos (Roche, 2007). Nesse contexto, os alfaiates exerciam forte representação social e política. Eles se organizavam por meio das guildas1 (Pirenne, 1973), as quais representavam e garantiam a proteção econômica necessária à classe, por meio de normas rígidas acerca do exercício do ofício. Segundo Roche,

[...] o ápice da hierarquia dos alfaiates era constituído de quatro oficiais ajuramentados, pelo prazo de dois anos, por todos os mestres e pelos antigos mestres ajuramentados, os bacharéis. Assistidos por dezesseis jovens mestres, de “toga e borla”, eles visitavam lojas e oficinas. Nomeados na presença do procurador do rei, no Châtelet, os alfaiates ajuramentados encarnavam o ideal do governo como bons pais de família das comunidades antigas, uma emancipação do poder real, uma forma de primazia intelectual (eles tinham de saber ler e escrever “na medida do necessário”) e técnica, em suma, representavam a autoridade, embora temporária e transitória. Eles supervisionavam o ofício, mantinham a disciplina e asseguravam a coesão, especialmente as condições de seu exercício (Roche, 2007, p.303).

Até o século XIV, os alfaiates eram especializados em segmentos específicos do vestuário em que se destacavam as guildas dos Doubletiers2, Chaussetiers3 e Pourpontiers4 (Waugh, 1985). Somente “em 1588 todas as guildas foram unificadas e tornaram-se o Les Maîtres Tailleurs d’Habits5, quando então obteve a permissão para fazer todo tipo de roupa usada por homens e mulheres” (Waugh, 1985). A partir desse ano, durante um século, os alfaiates controlaram a confecção de vestimentas e administraram todos os ofícios ligados ao vestuário (Roche, 2007).

Desde a formação inicial, as guildas foram as responsáveis por estabelecer um padrão de hierarquia definida, constituída de mestres, oficiais6 e aprendizes. Pirenne descreve o modelo de organização da idade média que ainda se mantém em muitos aspectos definindo as relações de trabalho das oficinas.

Os membros de toda corporação dividem-se em categorias subordinadas umas às outras: os mestres, os aprendizes e os companheiros (oficiais ou jornaleiros). Os mestres formam a classe dominante de quem dependem as outras duas. São pequenos chefes de oficinas, proprietários da matéria-prima e das ferramentas. Pertencem-lhes os produtos fabricados e portanto, todos os lucros da venda ficam em suas mãos. Ao seu lado, os aprendizes iniciam-se no ofício sob a sua direção, uma vez que ninguém pode ser admitido no exercício da profissão sem garantia de capacidade. Os companheiros, enfim, são trabalhadores assalariados que terminaram o aprendizado, porém não puderam ainda elevar-se à categoria de mestre (Pirenne, 1973, p.192).

As guildas, ou ainda os Cavaleiros da Agulha, constituíam uma organização que, de acordo com Thompson, eram “extremamente poderosos, ao menos até a recessão de 1823” (1985, p.99). Eram esses cavaleiros os responsáveis por fiscalizar e regulamentar o ingresso dos alfaiates de acordo com as normas impostas. O domínio do corte e da costura era exigido ao ponto de ser previsto em seus regulamentos indenizações aos clientes descontentes.

Ainda de acordo com Hollander, “as guildas de alfaiates tinham tanta importância quanto as outras instituições artesanais e profissionais e, como elas, eram totalmente masculinas” (2003 p. 89). Contudo, existiam costureiras profissionais que eram empregadas pelos alfaiates, e a elas cabiam tarefas de costura, ornamentação e acabamentos da roupa. “As mulheres nunca eram alfaiates, ou treinadas para criar estilo, corte e acabamento..., mas eram reconhecidamente especialistas no trabalho de costura fina” (Hollander, 2003, p. 89).

Somente em 1675 as mulheres conquistaram o direito de trabalhar de maneira autônoma. Nesse ano, o governo real parisiense concedeu-lhes o direito de formar sua própria guilda garantindo-lhes o status quo perante a sociedade. A confecção das roupas por pessoas do mesmo sexo garantia a decência e a modéstia das mulheres e moças (Roche, 2007).

Tanto para os alfaiates como para as costureiras, agora devidamente registradas e reconhecidas por meio das guildas, não havia um tipo de padrão de medidas que os orientassem. Essa padronização só ocorreu a partir de 1830 quando o alfaiate francês Guglielmo Compaign, pioneiro da antropometria moderna, estabeleceu critérios e técnicas de mensuração do corpo humano. Até esse momento, para o registro das medidas, os alfaiates utilizavam uma fita de papel ou ainda de couro marroquino para cada um de seus clientes. Em cada uma das fitas escreviam o nome, as observações necessárias e assinalavam os valores por meio de piques de tesoura. Porém, essas fitas apresentavam o inconveniente de enrolar, enrugar ou ainda apagar facilmente as anotações que eram registradas (Ormen, 2011).


Para cada cliente, os alfaiates mantinham uma única fita métrica com seu nome inscrito nela, marcada com indicações denotando o comprimento de seu antebraço, o diâmetro de seu pescoço, a largura de seus ombros ou o que quer que fosse necessário para o feitio de sua roupa. O traje do cliente seria cortado de modo apropriado, alterando-se um padrão muito geral para coincidir com as indicações da fita individual (Hollander, 2003, p.133).

De acordo com North e Tiramani (2011), essas fitas eram mantidas e atualizadas para a confecção de novas peças de vestuário, bem como para alterar as já existentes. No ano de 1847 o alfaiate francês Alexis Lavigne criou a fita métrica tal qual é conhecida hoje. Produzida com material à prova d’água e com qualidade na impressão que garantiria a sua durabilidade, não haveria desgaste dos números aplicados. Com a criação da fita métrica o processo de tomada de medidas foi facilitado. Ela tornou-se um acessório vital dos alfaiates e costureiras nas oficinas do início do século XIX substituindo as fitas individuais usadas até então (Ormen, 2011). Estes avanços permitiram a evolução do ofício em concordância com a evolução da indumentária masculina.



A EVOLUÇÃO DO TRAJE MASCULINO

Segundo Hollander (2003), o traje masculino civil padrão em todo o mundo constitui-se de paletó, calças, coletes, sobretudos, camisas e gravatas originárias do período neoclássico. Esse traje colocou um selo definitivo de desaprovação nas roupas espalhafatosas usadas até então e se firmou como padrão para os homens sérios de qualquer classe. Isto se deu graças ao poder de permanência da alfaiataria masculina, com autoridade própria e força simbólica que permitiram sua autoperpetuação.

Essa maneira de vestir consolidou-se no século XIX com o movimento do Dandismo7, que na figura de George Beau Brummell encontrou seu principal representante. O inglês Beau Brumell, conhecido como o Dândi (D’ Aurevilly, 2009) corporificava um novo “tipo de herói” feito pela alfaiataria, em que o heroísmo de um homem era ser simplesmente ele mesmo (Hoolander, 2003).

Brummell provou que o ser superior essencial não era mais um nobre hereditário. Sua excelência era inteiramente pessoal, sem o apoio de brasões heráldicos, salões ancestrais, vastas extensões de terra [...] Sua roupa tinha de ser perfeita apenas em sua integridade de ser feita por um alfaiate, isto é, apenas na forma, sem a sobrecarga de quaisquer indícios superficiais do valor atribuído ao nível social (Hollander, 2003, p.119).

Para Hollander (2003), as técnicas de alfaiataria possibilitaram a execução dos trajes utilizados pelos dândis, com linhas ajustadas ao corpo, e que evidenciavam a forma simples e o corte cuidadoso. Segundo a autora, “o nível social do homem ou mesmo seus feitos são irrelevantes quando confrontados com o fino corte de seu casaco simples; apenas suas qualidades pessoais mostram-se importantes” (Hollander, 2003, p.120). As formas simples do vestir masculino, tidas como modernas no século XIX, traziam uma mensagem de “honradez severa, e a confecção de roupas sob medida passou a depender do corte sutil e da textura fina de seus tecidos discretos, mais ainda do que do feitio” (Hollander, 2003, p. 139).

A lã, tecido comum desde a antiguidade, já estava estabelecida na Inglaterra através de uma produção altamente desenvolvida e estruturada. Conforme Wilson (1985), ela tornou-se um tecido habilmente adotado pelos alfaiates ingleses. Após a revolução industrial deixou de ser usado pelas classes mais humildes e se estendeu “aos estratos mais altos da sociedade, para o traje formal, pelo menos para o traje masculino” (Wilson, 1985, p.96). Por suas características flexíveis e elásticas, dava aos alfaiates condições de adaptá-la ao corpo proporcionando caimento e cortes exatos como se demandava.

Sob a influência do vapor, da pressão e da manipulação cuidadosa, para não dizer nada do corte criativo, a lã podia ser esticada, encolhida e encurvada, obediente à vontade do alfaiate, para acompanhar as formas e os movimentos do corpo do usuário sem formar volumes ou rugas (Hollander, 2003 p.116).

Hollander (2003) destaca que a forma simples imposta pelos dândis, evidenciada pelo corte e o emprego dos tecidos, era consequência do retorno ao natural e às formas simples que o neoclassicismo impunha. A utilidade e a graça da roupa eram fundidas e evidenciadas simultaneamente, sendo “os alfaiates masculinos da Inglaterra os primeiros a colocar isto em prática, exatamente como os arquitetos, e as costureiras da França” (Hollander, 2003, p. 113). Ainda de acordo com a autora, os casacos em lã eram originários do “grosseiro casaco campestre” inglês e davam destaque ao corpo do homem agora evidenciado. As costuras e as tramas aparentes do tecido faziam o vestuário parecer honesto, bem como o homem que o vestia.

Para Hollander (2003), desde o século XV a evolução do traje masculino sofreu importantes alterações que o libertaram dos excessos, brilhos e adornos. No seu modo de ver, o período neoclássico estabeleceu um padrão que permanece há quase dois séculos e que constitui sua maior contribuição à história do traje. A autora considera que esse um padrão revela um ideal manifesto na vida contínua dos trajes confeccionados no estilo alfaiataria entre homens e mulheres do mundo moderno.

A ALFAIATARIA ARTESANAL E O PRÊT-À-PORTER

A evolução do traje masculino diz respeito também à evolução da indústria do vestuário. Os avanços tecnológicos extinguiram profissões e permitiram que outras evoluíssem (Cerqueira, 1999), ou ainda, coexistissem de forma paralela. De acordo com Kakita (2014) há na produção do vestuário masculino “duas abordagens da mesma forma como ocorre com as oficinas de alta costura, separando suas unidades de produção em duas áreas” (Kakita, 2014, p.16). No caso da alfaiataria, pode-se observar a coexistência de dois segmentos: a alfaiataria artesanal e a alfaiataria prêt-à-porter.

A indústria do prêt-à-porter pôde ser implementada graças aos próprios alfaiates que dominavam as técnicas de confecção do vestuário, adotadas por varejistas para a confecção de roupas em massa (Ormen, 2011). A própria introdução da máquina de costura, que impulsionou a produção de roupas prontas, se deu primeiramente nas alfaiatarias, mais do que na própria indústria (Avelar, 2011).

Ainda segundo Avelar, a roupa pronta para vestir apresentou um forte crescimento após a segunda guerra mundial, com a economia estabilizada e o aumento da população que demandava por mais produtos. As lojas de departamentos, que surgiram na primeira metade do século XIX, criavam estratégias de vendas variando proporcionalmente o valor das peças de acordo com o grau de trabalho e com os materiais envolvidos em sua fabricação (Avelar, 2011). A mudança na concepção do vestuário, tanto masculino quanto feminino, contribuía significativamente, impulsionando a produção que se tornava menos complicada e dessa forma não necessitava de mão de obra especializada como a dos alfaiates e costureiras da Haute Couture.

A alfaiataria artesanal, por sua vez, é formada por mão de obra altamente especializada. Ela apresenta-se ao universo masculino assim como a Alta Costura se apresenta ao universo feminino (Hopkins, 2013). De acordo com Roche, ela “representa o monopólio masculino na esfera do vestuário, uma herança do antigo passado medieval e do começo da Idade Moderna” (2007, p.302).

A alfaiataria tem como objetivo principal a confecção de roupas sob medida, sobretudo masculinas, tais como gravatas, casacas, camisas, e principalmente o terno, costume ou fato. Em 1930 o terno “consistia em três peças, ou seja, as calças, o casaco e o colete. Hoje em dia, a composição é, em regra, só de duas peças, nomeadamente o casaco e as calças, o colete desaparece gradualmente” (Roetzel, 2010, p.91).

Todas essas peças, quando produzidas no rigor da alfaiataria artesanal, comparam-se à alta costura pelos acabamentos utilizados, pela qualidade dos tecidos e aviamentos empregados, além do fato de não ser uma roupa padronizada, atendendo as particularidades do corpo que as vestirá. Apesar de constituir o mesmo ofício, costura e confecção em ambos os setores - alfaiataria ou alta costura, são distintas e claramente descritas por Grumbach:

A primeira (alta costura) veste as mulheres sob medida, ao passo que a segunda (prêt-à-pôrter) se dirige à sra. Todo Mundo. Embora na origem os dois ofícios sejam aparentemente um só, a confecção (indústria), mais dinâmica, assume o risco da estocagem ao produzir de antemão modelos segundo medidas ditadas pela experiência e passíveis de serem oferecidos a preços mais acessíveis... Uma procura enfatizar o luxo e o savoir-faire que se exige dela exaltando a criatividade, ao passo que a outra se padroniza a fim de tornar-se mais competitiva (Grumbach, 2009, p.33).

A indústria do vestuário prêt-à-porter, diferente do traje customizado da alfaiataria artesanal, desenvolveu-se de tal maneira que hoje é possível encontrar trajes de alfaiataria em larga escala a um preço acessível. Porém, mesmo esses trajes não se equiparam àqueles desenvolvidos pela alfaiataria artesanal, não apenas no fazer manual como também na elaboração e criação dos traçados. A alfaiataria artesanal quando examinada em seus detalhes tais como a modelagem, o corte e a montagem das peças, é classificada, de acordo com Waugh (1985) como uma arte altamente qualificada:

É a mais pessoal e essencial de todas as artes aplicadas, pois o artista que cria usando roupa, seda e outros materiais tem sempre de lidar com o elemento humano para a formação bem como para a visualização de sua arte. É uma arte que é ainda mais complicada pelo fato de, além de ser incômodo em termos de forma o seu modelo nunca é estático e o produto acabado. O que deverá parecer de forma agradável e elegante para um espectador, também deve ser flexível e confortável para o usuário ao mover-se (Waugh, 1985, p. 34).

Para Waugh (1985), a qualidade da peça desenvolvida pelo alfaiate é assegurada desde a tomada de medidas, momento em que o corpo é cuidadosamente avaliado. Nessa etapa, o alfaiate observa e toma nota de todos os detalhes físicos de seu cliente, tais como ombros altos ou inclinados, forma e tamanho do estômago, peito de pombo8 etc. “Se o cliente tem algum defeito físico, deve notar-se, de modo a ser habilmente disfarçado com endurecimento adicional9, preenchimento, etc” (Waugh, 1985, p.86).

No entanto, há que se destacar que a roupa prêt-à-porter se desenvolveu de forma satisfatória graças ao resultado do investimento em criação de esquemas novos de medida, elaborados por “alfaiates habilidosos e experientes para a criação de padrões variáveis que tornariam as roupas prontas para o uso bem-feitas e desejáveis” (Hollander, 2003, p.136).

Dessa forma, a alfaiataria prêt-à-porter transformou o traje comum, porém de qualidade inferior, “no terno formal usado em todas as ocasiões pelos homens deste século, qualquer que seja sua classe ou ocupação”. E, principalmente depois da segunda guerra, quando o traje sob medida ficou ainda mais custoso, “os cidadãos comuns naturalmente continuaram a vestir versões produzidas em massa e de todos os preços” (Hollander, 2003, p.140).

Essas versões “produzidas em massa e de todos os preços” traduzem os apelos do consumismo imposto pela cultura do século XX, em contraponto ao artesanal produzido pelo alfaiate desde o século XVIII. Como atesta Alberoni, o fato burguês oitocentista confeccionado por um alfaiate utilizava um “tecido escolhido com os maiores cuidados e devia durar muito, muito tempo, como a casa, como a empresa que se devia transmitir aos filhos” (1989, p.58).

Cada qual com seus apelos, ambas as alfaiatarias possuem condições de manterem-se harmoniosamente com o seu respectivo público. A alfaiataria artesanal e sua tradição permanecem para atender a um público que preza pela qualidade e que compreende o quão valorosa é sua arte. Bem como por ser uma importante referência para a indústria do prêt-à-porter, que busca a todo tempo em seus produtos a aparência do sob medida (Hollander, 2003).

A HIERARQUIA DAS OFICINAS E AS RELAÇÕES DE TRABALHO

As regras impostas pelas guildas, que regulamentavam as condições de ingresso no ofício, bem como a hierarquia das organizações, demonstravam o caminho que o aprendiz de alfaiate percorreria até alcançar o título de mestre dentro das oficinas. Conforme Roche,

[...] dez mestres admitidos por ano, não incluindo os filhos de mestres; três anos de aprendizado e outros tantos na condição de jornaleiro; uma obra prima obrigatória, podendo ser substituída no caso de meninos nascidos dentro do ofício; as viúvas de mestres podiam continuar o negócio de seus maridos (Roche, 2007, p.304).

Havia ainda outras condições para que um alfaiate obtivesse o título de mestre, como a cobrança de 500 libras na Inglaterra no ano de 1660. Este era o custo médio exigido pelas Guildas pelas cartas de mestrança, às quais eram acrescidos os “direitos reais, os alfinetes da guilda, o preço do banquete de recepção, o custo de uma loja e o estoque de insumos, além da disponibilidade financeira de indenizar possíveis credores” (Roche, 2007, p.305).

A alfaiataria, como ainda se observa (Barbosa, 2011), desde as guildas é um ofício transmitido principalmente de pai para filho, que herda a oficina, os clientes, bem como todo o conhecimento adquirido ao longo de uma vida pelo mestre alfaiate. Além de seu pai, o mestre alfaiate poderia ser um parente próximo, como destaca Roche em uma análise em que demonstra a forma de ingresso no ofício dos alfaiates, em Paris no século XVIII.

Quatro quintos dos aprendizes de alfaiates vinham de famílias proprietárias de lojas e oficinas em Paris; três quartos deles eram jovens parisienses casados sobretudo com moças parisienses, sendo a metade filhos de alfaiates, mestres ou mesmo de jornaleiros parisienses. Chegada a hora de se estabelecerem profissionalmente, os jovens mestres alfaiates podiam contar com o apoio da família – pais, tios e primos -, quase todos da mesma origem social: a burguesia parisiense, ou trocando em miúdos, comerciantes, mestres e pequenos oficiais (Roche, 2007, p.321).

Os oficiais tinham origem nas províncias e pertenciam a níveis sociais humildes, o que demonstrava o grau de dependência das grandes alfaiatarias e a natureza fechada das guildas que se mantinham entre famílias tradicionais do ofício (Roche, 2007). Os alfaiates e as costureiras, ainda no século XVIII, “raramente tinham loja ou oficina; o trabalho deles era feito nas instalações do mestre, onde os materiais e instrumentos eram facilmente encontrados” (Roche, 2007, p.323).

O PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM NA ALFAIATARIA

O sistema de ensino e aprendizado dos alfaiates, que permaneceu desde as guildas até meados do século XX, empregava uma média de tempo de três a seis anos, com funções que variavam de acordo com o tamanho da loja (Maclochlainn, 2010). Havia uma sequência de aprendizado em que o aprendiz era qualificado e progredia dentro da oficina.

Na maioria dos casos, o primeiro ano era gasto em levar recados, arrumar, buscar ferros e outras tarefas domésticas, com estudo real apenas quando havia um momento livre. Pelo segundo ano aprendizes estão ajudando com a costura real, costura de bolsos, casas de botão e forros de calças. No terceiro ano, eles devem ser capazes de fazer a maioria do trabalho em um casaco e fazer calças e coletes. Pelo quarto ano eles têm que demonstrar que podem fazer toda a roupa na prática para o mestre antes de continuar como um operário ou sair como um trabalhador qualificado (Maclochlainn, 2010, p.34).

Com relação ao pagamento dos aprendizes, há registros que apontam que, no século XVIII, ele era formalizado somente a partir do segundo ano de aprendizado, momento em que estavam “aptos” a realizar tarefas mais importantes. Davies, citado por Maclochlainn, diz que “no primeiro ano, eles trabalhariam por nada; no segundo eles receberiam pouco pagamento. No terceiro ano, a taxa de remuneração seria melhorada; e no quarto seriam pagos tão bem quanto um homem” (2010, p.34).

A metodologia de ensino empregada pelos alfaiates desde as guildas, e evidenciada no século XVIII, comprova o longo período de tempo necessário para a formação de um alfaiate e, consequentemente, as habilidades desenvolvidas para a confecção completa de uma vestimenta. Nas alfaiatarias, os saberes eram transmitidos através do exercício constante, na prática do dia a dia, e de acordo com Sennett “através dos milhares de gestos quotidianos que acabam configurando uma prática” (2009, p.92).

O ensino se dava normalmente de pai para filho, e nos casos em que não havia um parentesco direto, o ensino do ofício era um empreendimento institucionalizado e caro, pois os pais da criança pagavam uma espécie de “prêmio” para que o mestre ensinasse a seu filho um ofício. A escolha do mestre era importante, pois segundo Maclochlainn (2010), ela afetava grandemente a educação da criança.

O autor relata conselhos do escritor Charles Dickens, importante personagem inglês da era vitoriana em seu livro The Tailor, que alertavam os pais na escolha de mestres a quem entregar seus filhos, enumerando as vantagens e as desvantagens na escolha de um grande mestre:

Se um menino é aprendiz do que é chamado um pequeno ou grande mestre pode, num primeiro pensamento, parecer uma questão de nenhuma consequência. É, no entanto, de peso considerável, e merece ser considerado por todos que podem se dar ao luxo de escolher entre um e outro. Existem vantagens e desvantagens em ambos os casos: por exemplo, se um rapaz é aprendiz de um grande mestre, ele será muito mais propenso a ter oportunidades de ver uma maior atenção dada às modas, e também ver uma maior variedade de artigos de vestuário do que se ele for colocado com um pequeno mestre. Além disso, se ele se destina, no devido tempo, em se tornar um mestre, ele será capaz de aprender os métodos de condução de um grande negócio com um comerciante como exemplo. Mas estas vantagens são susceptíveis de serem bastante ponderadas, se não mais desconsiderado pelas más consequências que daí podem resultar por serem obrigados, antes os princípios dele são fixados, ou o seu caráter formado para se misturar com um grande número de trabalhadores, a maioria dos quais será provável, tanto pelo seu exemplo e sua conversa, ter uma influência nefasta sobre a sua moral... (Dickens apud Maclochlainn, 2010, p.33).

Dickens, apud Maclochlainn, também listava as vantagens da escolha de um mestre de porte menor, que segundo ele “também era uma pessoa digna do trabalho e um bom trabalhador”. Sendo a alfaiataria uma empresa menor, o aprendiz poderia aprender com o mestre todas as funções, tornando-se um “trabalhador qualificado, facilmente adaptável de uma mão de obra para a outra e também para em seu próprio benefício, elaborando novos modos de trabalhar” (2010, p.33).

A preocupação dos pais com relação à escolha do mestre levava em consideração a relação mestre/aprendiz, neste contexto, já que ambos tornam-se tão próximos que o mestre acaba por “adotar” seu aprendiz. O aprendizado ultrapassava os limites da técnica do fazer, pura e simplesmente, transmitindo também lições de postura e valores de ordem profissional e pessoal. Desde a formação das guildas, os mestres recebiam das famílias dos aprendizes a função de pai substituto (Sennett, 2009).

Poucas alfaiatarias possuem hoje estrutura financeira e de gestão para receber um jovem aprendiz, no rigor da lei, por isso a presença dele não é mais notada dentro das alfaiatarias. Este cenário revela um vazio de ações que sejam capazes de viabilizar a formação de novos aprendizes, seja em projetos vinculados às instituições de ensino apoiados em programas governamentais, seja em organizações da iniciativa privada. Revela ainda uma ausência de atenção com a formação de jovens alfaiates por parte das instituições de ensino em geral (Barbosa, 2011).

OS DESAFIOS DA ALFAIATARIA ARTESANAL NO SÉCULO XXI

Após um declínio acentuado na confecção de roupas sob medida, consequência da inserção de roupas prontas para vestir em todos os segmentos do vestuário, a alfaiataria artesanal, que proporcionou as mudanças no vestuário masculino por meio de suas técnicas e contribuições na construção do vestuário masculino e também feminino, se mantém. Ela se coloca como uma alternativa à roupa industrializada, capaz de comunicar a personalidade e a identidade do homem e também da mulher que a traja.

Contudo, percebe-se que a falta de aprendizes nas oficinas pode ser um entrave na continuidade do ofício, pois, se não há aprendizes não haverá renovação deste segmento de artesãos. Os alfaiates trabalham na maioria das vezes de maneira solitária em suas oficinas, e entendem que não há tempo para “parar seu serviço” e ensinar um novato. Segundo Fischer (2010, p.115), “a alfaiataria é uma habilidade tradicional complexa que exige conhecimento técnico especializado”, e por isso, demanda um longo tempo de aprendizado.

A ausência de formação de mão de obra também esteve, durante alguns anos, ligada à concepção de que ensinar representaria formar um concorrente, fala recorrente em entrevistas junto aos alfaiates (Barbosa, 2011) e como bem descreve Lave em sua pesquisa realizada junto aos alfaiates da Libéria, na década de 70.

Nenhum dos alfaiates era próspero o suficiente para assumir dois novos aprendizes ao mesmo tempo. Os alfaiates treinavam uma média de dez aprendizes durante toda a sua carreira, com média de um aprendiz treinado para cada cinco anos de experiência. Os mestres alfaiates estavam em seu próprio negócio treinando seus futuros competidores, e na verdade eles temiam que houvesse muitos alfaiates "nesses dias" e não existisse clientes o suficiente para todos ao redor. (Lave, 2011, p. 45).

Além da falta de aprendizes, o avanço da produção do prêt-à-porter forçou os alfaiates a procurar alternativas que os mantivessem competitivos no mercado. Houve ainda a incorporação de inovações da indústria ao seu trabalho tornando menos dispendiosas as suas tarefas.

Uma das justificativas para que os alfaiates adotem técnicas industriais ou semi-industriais é evidenciada na confecção da gola. Dependendo do ponto empregado, a aplicação manual da entretela na gola pode levar até três horas de trabalho, enquanto que a entretela de gola costurada na máquina não leva mais que dez minutos. A aplicação da gola, entre outros acabamentos, faz com que a roupa feita sob medida, totalmente artesanal, não leve menos de 40 horas de trabalho para ser entregue (Roetzel, 2009), fazendo com que o preço de um traje personalizado alcance um valor consideravelmente alto.

Além das dificuldades apresentadas, há ainda o fato de que uma parcela dos alfaiates admite que não transmitirão seu conhecimento para nenhum outro levando “o segredo para o túmulo” (Sennett, 2009). O autor ainda traz à tona a dificuldade que os alfaiates apresentam em ceder seus conhecimentos a outrem e questiona: “por que tem de ser tão difícil, porque se transforma num segredo pessoal?” (Sennett, 2009, p.89) Pelo fato de considerarem estes segredos sua propriedade, os alfaiates os concedem apenas a quem lhes interessa,

[...] praticamente toda a habilidade ou mistério do ofício era transmitido pelo oficial ao seu aprendiz, através de preceitos e exemplos, nas oficinas. Os artesãos consideravam este mistério como sua propriedade, e defendiam seu direito inquestionável ao “proveito e ao uso pacífico e exclusivo das suas artes e ofícios” (Thompson, 1987, p.95).

Poucos são os alfaiates que compartilham seus ensinamentos (Barbosa, 2011). Como os filhos das últimas gerações de alfaiates, poucos foram aqueles que tiveram interesse em aprender e assumir o estabelecimento do pai alfaiate, mesmo com o apelo de uma clientela já formada. Já aqueles que não possuem parentesco direto com os alfaiates artesanais e demonstram interesse em aprender esbarram em dificuldades como a de encontrar um alfaiate com disponibilidade de tempo e boa vontade para ensinar, além da falta de oferta de cursos de formação de alfaiates que abarquem toda a complexidade deste ofício.



Considerações finais

Pelo exposto, pode-se considerar que existe uma grande dificuldade de preservação dos saberes tradicionais do alfaiate com relação aos seus traçados e principalmente com relação às suas técnicas de confecção artesanal, o que traz implicações para a permanência desse ofício outrora tão valorizado. Os registros disponíveis desde a primeira publicação de Alcega contemplam apenas parte do processo da alfaiataria, principalmente a construção das peças na modelagem. A confecção dessas peças nos seus detalhes não aparece justamente pela complexidade das operações.

A alfaiataria artesanal vem acompanhando a evolução do traje do homem, sendo responsável diretamente pelas principais mudanças do vestuário masculino, em que os trajes espalhafatosos foram substituídos gradualmente por trajes limpos e sóbrios, atentos a qualidade do corte e caimento da peça. É um ofício que inspira admiração e respeito pela sofisticação das técnicas manuais que emprega e pela maneira como o alfaiate percebe o corpo que o vestirá, considerando variáveis e particularidades que a indústria não contempla.

As técnicas de corte e acabamento são a essência da alfaiataria e o que faz distinguir a roupa artesanal da roupa feita em escala industrial. De natureza complexa, torna-se evidente a necessidade de valorizar o trabalho desse artesão para se preservar os saberes desse ofício secular que ainda encontra espaço no mundo contemporâneo, em condições de atuar paralelamente à indústria do prêt-à-porter considerada alfaiataria de luxo.

O tempo dispendido para a confecção da roupa feita sob medida, exigência primeira para que um traje obtenha caimento perfeito, não pode ser um elemento responsável pela desqualificação do trabalho do alfaiate. Esse tempo, ao contrário, é aquele necessário para que o alfaiate artesão confeccione o traje atento aos detalhes que não são atendidos pela indústria.

O fator tempo não está presente apenas no processo de execução das peças, mas também na formação do alfaiate, que até aqui se manteve através de longos períodos de aprendizagem, por meio de um processo de ensino e aprendizagem baseado na observação e na prática constante.

Segundo os próprios oficiais, um alfaiate não é formado em um período menor do que três anos, caso em que ele deve estar nas mãos de um bom mestre. A disposição deste mestre para transmitir os seus saberes a um aprendiz que se tornará um oficial e posteriormente um mestre alfaiate, é uma das grandes dificuldades vivenciadas pela alfaiataria artesanal.

Para se manter viva, a alfaiataria artesanal necessita de instrumentos que lhe deem condições de continuar o legado de séculos de tradição. A história da alfaiataria está intrinsicamente ligada à história da evolução da indumentária, responsável por todas as principais mudanças no vestir considerando os dois trajes, o feminino e o masculino. A indústria do vestuário, que se apropriou das técnicas e acabamentos desenvolvidos pelos alfaiates, necessita, em contrapartida, reconhecer e apoiar ações para que a alfaiataria se perpetue e para que o ciclo que se estabeleceu permaneça, fazendo com que ambas as alfaiatarias, artesanal e prêt-à-porter continuem se desenvolvendo de maneira plena.



Referências

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Abstract: This paper comes from a survey that aimed to know the traditional knowledge of the tailor and the difficulties that are situated on the preservation of this knowledge and on its transmission. A literature review and field research comprised the qualitative methodology. This paper presents results of the literature review undertaken and which dealt with the history of tailoring development. It is composed of the first printed records of tailoring in press, the evolution of the male costume, handmade tailoring and ready-to-wear, such as the hierarchy in the ateliers and work relations, teaching and learning process in tailoring and the challenges of tailoring handmade in the Twentieth Century.
Keywords: Tailor, publications, knowledge, methodologies, learning.
Resumen: Este artículo tiene origen en una investigación que buscó conocer los saberes tradicionales del sastre bien como las dificultades que inciden sobre la preservación de esos saberes y sobre su transmisión. Una revisión bibliográfica y una investigación de campo compusieron la metodología cualitativa adoptada. El presente artículo objetiva presentar resultados de la revisión bibliográfica emprendida y que trató del desarrollo histórico de la sastrería. Él se constituye de los primeros registros impresos de la sastrería, de la evolución del traje masculino, de la sastrería artesanal y del prêt-à-porter, de la jerarquía en los talleres y de las relaciones de trabajo, del proceso de enseñanza y aprendizaje en la sastrería y de los desafíos de la sastrería artesanal en el siglo XXI.


Palabras-clave: Sastrería, publicaciones, saberes, metodologías, aprendizaje.


(*) Juliana Barbosa. Professora nos Cursos de Design de Moda na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e Moda do Centro Universitário UNA. Especialista em Alfaiataria e Modelagem do Vestuário, desenvolve pesquisas referentes à Preservação dos Saberes Tradicionais do Alfaiate com o intuito de garantir a salvaguarda deste ofício. Eloisa Helena Santos é Professora Doutora em Educação com Pós-Doutorado em Sociologia do Trabalho e Ergologia. Professora do Programa de Mestrado em Gestão Social, Educação e Desenvolvimento Local do Centro Universitário UNA. Membro da Rede Franco-lusófona Ergologia, Trabalho e Desenvolvimento e de seu Comitê Científico.

1 As guildas também eram conhecidas como corporações de ofício.

2 Mestres alfaiates especializados em produzir o doublet, uma espécie de casaco abotoado acolchoado, usado desde a idade média até meados do século 17;

3 Mestres alfaiates especializados na produção de meias que deram origem as calças ajustadas;

4 Mestres alfaiates especializados na produção do pourpoint, uma espécie de camisa de manga comprida usada por baixo das armaduras, fortemente acolchoada em pontos específicos para evitar possíveis cortes provocados pela armadura, protegendo desta forma a pele.

5 Mestres Alfaiates do Vestuário.

6 Oficiais, companheiros ou jornaleiros são os nomes atribuídos por diferentes autores aos alfaiates especialistas em determinada peça tais como: calceiro, camiseiro, coleteiro, buteiro (consertos), proveiro (frente do paletó) e acabador (manga e gola do paletó).

7 O Dandismo foi um movimento inglês no final do século XVIII que primava pelo corte da roupa e que retirava a suntuosidade dos trajes masculinos; o oposto, o simples é que era verdadeiro. Os alfaiates ingleses com habilidades superiores aos alfaiates franceses, tinham maior facilidade em trabalhar tecidos como casimira, que diferente da seda e de outros tecidos finos, eram fáceis de serem moldados e trabalhados, conferindo melhor acabamento às roupas.

8 Nome popular dado a um tipo de deformidade congênita da parede toráxica em que há uma proeminência do peito.

9 Reforços internos em que entretelas sobrepostas são utilizadas, além de mantas e pastas de algodão.


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