A estratificação dos países no sistema internacional e sua importância para as relações internacionais contemporâneas



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1º Seminário Nacional de Pós-Graduação em Relações Internacionais

Brasília: 12 e 13 de julho de 2012

Painel Avulso



Economia Política Internacional – EPI

A estratificação dos países no sistema internacional e sua importância para as relações internacionais contemporâneas


Sérgio Leusin Júnior

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Resumo:

Atualmente se observa a ampliação no debate acadêmico sobre a importância e o papel que determinados países tem desempenhado na história recente das relações políticas e econômicas internacionais. E a partir do momento em que se aceita a hipótese da diferenciação entre atores da dinâmica das relações internacionais, designando determinados como desenvolvidos, subdesenvolvidos, emergentes, entre outros, faz-se necessário determinar critérios teóricos e empíricos para fundamentar esta heterogeneidade. Assim, o presente estudo busca hipóteses que confirmem a existência de critérios ou evidências teóricas, estruturais e conjunturais para a classificação dos países, e suas implicações tanto no que se refere ao seu desempenho politico quanto econômico na história recente das relações internacionais. Mesmo sendo reconhecido como importante tema de recorrentes debates na atualidade é possível constatar que a estratificação dos países carece de abordagem teórica e de elementos que confirmem a existência no tempo e espaço de estruturas diferenciadas entre países. Para dar conta desta ambiguidade começa a ser corrente caracterizar países ou agrupar países arbitrariamente, embora os parâmetros desta classificação não sejam teoricamente consistentes. Assim, o presente trabalho buscará evidências teóricas e empíricas para comprovar e fundamentar as diferenças estruturais e conjunturais entre atores das relações internacionais contemporâneas, assim como sua importância no campo de estudos das relações internacionais.


Palevras-chave:

Periferia, Semiperiferia, estratificação internacional, países emergentes, potências médias.

A estratificação dos países no sistema internacional e sua importância para as relações internacionais contemporâneas
Sérgio Leusin Júnior
Introdução:

Atualmente se observa a ampliação no debate acadêmico sobre a importância e o papel que determinados países tem desempenhado na história recente das relações políticas e econômicas internacionais. E a partir do momento em que se aceita a hipótese da diferenciação entre atores na dinâmica das relações internacionais, designando determinados como desenvolvidos, subdesenvolvidos, emergentes, entre outros, faz-se necessário o esforço em determinar critérios teóricos e empíricos para fundamentar esta heterogeneidade. As diferenças entre países podem ser estáticas no curto prazo, quando se analisa a estrutura, ou dinâmicas, quando realizada a analise da conjuntura ou as circunstâncias na qual os países estão inseridos. Assim, o presente estudo busca hipóteses que confirmem a existência de critérios ou evidências teóricas, estruturais e conjunturais para a classificação dos países, e suas implicações tanto no que se refere ao seu desempenho politico quanto econômico na história recente das relações internacionais.



1. O andar intermediário de Arrighi.

Apoiado e operacionalizando o conceito de semiperiferia introduzido por Wallerstein (1974), Arrighi (1997) inclui grande parte dos países hoje considerados emergentes em "um andar intermediário". Desta forma, Arrighi (1997) apresenta uma alternativa à visão dos teóricos da modernização, que sugerem que o estrato intermediário é temporário e que corresponde ao período compreendido entre a passagem do atraso para a maturidade, assim como contrapõe a visão dos teóricos da dependência, que advogam que o estrato intermediário é residual.

As razões para o estabelecimento e permanência de determinados países no centro e outros na periferia, segundo Arrighi (1997), podem ser explicadas a partir da visão de Schumpeter dos ciclos econômicos. Para Schumpeter (1964) o processo de "destruição criativa" é a essência do capitalismo, assim como a competição e concorrência entre empresas. Através deste processo de inovação em produtos e processos as empresas buscam alcançar a vanguarda do mercado e assim situar-se em um ambiente de menor concorrência. Este locus permite a obtenção de lucros extraordinários advindos dos monopólios temporários originados pela inovação estabelecida, assim como também torna obsoletas as combinações produtivas preexistentes.

Desta forma, com efeitos semelhantes aos descritos pelos teóricos da dependência estrutural, Schumpeter (1964) sugere que a fase de implementação da inovação é benéfica para países centrais, geralmente o locus desta ação. Contudo, a instituição de novas tecnologias, produtos ou processos, fruto das inovações, possivelmente potencializa a dependência estrutural dos países periféricos em virtude do relativo atraso originado ou intensificado, assim como pela destruição ou atraso criado do arcabouço produtivo existente nestes lugares. Uma hipótese relevante levantada por este argumento é que, assim como observado por Wallerstein (1974), a existência da periferia é confirmada pela dinâmica do tempo, pois países centrais estarão à frente das inovações, mas Schumpeter (1964) inova ao sugerir que esta dinâmica temporal também acaba por definir o espaço onde se situa e se estruturará o centro e consequentemente a periferia.

Assim, Arrighi (1997) busca comprovar que estados intermediários constituem uma posição estrutural distinta na economia mundial. O autor identifica empiricamente três posições estruturais da economia mundial, além de observar se a importância relativa de cada estrato realmente permaneceu relativamente constante durante os 45 anos da analise realizada. Para cumprir este objetivo o autor compara, numa longa série temporal, o PNB1 per capita de diferentes países com vistas a atribuir-lhes uma posição (central, periférica ou semiperiférica) no sistema mundial, bem como traçar as oscilações que estas posições teriam passado.

1.1 A análise empírica de Arrighi para a estratificação da economia mundial.

A partir da analise da evolução do PNB per capita do período compreendido entre 1938 e 1983, com uma amostra que varia entre 57 e 105 países, o autor busca confirmar a hipótese de que é possível identificar um padrão estrutural de três camadas da economia mundial. O estudo de Arrighi (1997) também permitiu observar a composição de cada zona durante o período analisado.

O autor evidenciou um padrão tri-modal na distribuição da renda mundial de todos os países da amostra em relação à sua porcentagem da população mundial. Como fruto da sua analise, Arrighi (1997) observou grupos relativamente estáveis de países em correspondência às posições relativas de renda. Observa-se também que a distância entre os grupos de países é significativa e mantém-se no tempo. A comprovação empírica da existência de uma estrutura de três camadas da economia mundial e a coesão durante o tempo destes grupos, segundo o autor, não é mero acidente, mas é, provavelmente, fruto de condições desiguais dos Estados de superar ou submeter-se a periferização.

O quadro 1 expressa o critério mais rigoroso de Arrighi, no qual os Estados foram enquadrados em centrais, semiperiféricos ou periféricos, somente se em cada período de análise (1938-50, 1960-70 e 1975-83) a nação permaneceu fixa na mesma posição. Assim, os estados elencados no quadro abaixo evidenciam empiricamente a suposição teórica da existência ao longo da história de uma camada intermediária entre países centrais e periféricos. E desta forma, fornece importante instrumento para contrapor o argumento de situação temporária ou residual de países entre o centro e a periferia econômica mundial.



Quadro 1 Estratificação dos Estados na Economia Mundial



Fonte: Arrighi (1997)

A posição do Brasil é um caso entre as nações que foram excluídas do quadro acima em virtude de sua dinâmica dentro das estruturas da economia mundial. Quando se analisa o Brasil no período entre 1938 e 1950 o país situa-se no estrato correspondente a semiperiferia e o mesmo ocorre quando se observa a renda per capita brasileira como porção da população mundial no período entre 1975 e 1983. Contudo, a posição brasileira encontra-se na zona periférica no período de analise entre 1960 e 1970.



2. Estratificação complementar de Lima P. (2007)

Através de técnicas exploratórias e de dados que permitiram tratamento abrangente e de longa duração (1950-2003) Lima P. (2007) verifica diversas proposições quanto à estratificação do sistema econômico mundial. Para tanto, o autor examina, além do critério clássico da produção, dados relativos às atividades industriais e ao comércio em nível mundial. Desta forma, o autor busca tornar operacional a classificação proposta por Wallerstein, visto que, segundo o autor, embora seja esta perfeitamente compatível com o sistema teórico proposto pelo mesmo, do ponto de vista empírico, a perspectiva teórica carece de operacionalidade.



Os resultados encontrados atestam grande estabilidade de determinadas aglomerações na distribuição da economia mundial. Pelo método de Ward2 observa-se que a periferia constitui grupo suficientemente homogêneo, apresentando 74 casos, a semiperiferia possui 45 membros e o centro3 com 23 países. Segue abaixo quadro com os países4.

Quadro 2 Classificação pelo método de Ward



Fonte: Lima P. (2007)

O autor destaca que através dos resultados encontrados torna possível delimitar com suficiente evidência um expressivo terceiro estrato que apresenta características próprias, assim como aumentar coerentemente o nível de explicação da evolução dos grupos presentes no sistema. Ou seja, Lima P. (2007) admite como apropriada a denominação do estrato intermediário, ou semiperiférico.


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