A divina Tragédia no Inferno dos Imbecis Ato I



Baixar 78,87 Kb.
Encontro23.08.2017
Tamanho78,87 Kb.
A Divina Tragédia no Inferno dos Imbecis

Ato I

Casa noturna.

Entra Azazyel com uma cerveja na mão, dando alguns goles enquanto acha um lugar para se sentar. Ele fica se movimentando discretamente enquanto a música toca e olha para o relógio com ar impaciente.

O volume da música abaixa.

AZAZYEL: Atrasado de novo... Isso é a cara dele. De certo, está cheirando a bunda do chefe.

O rapaz termina sua garrafa e a descansa em cima da mesinha. Algumas garotas passam dançando e o observam sugestivamente ao parar do outro lado do recinto.

AZAZYEL (Dando de ombros): Que se dane! Uma festa não é uma festa sem um pouco de diversão. (Levanta e faz menção de ir até as garotas)

Entra Gadrel com passos apressados e as mãos enfiadas nos bolsos. Quando percebe que o amigo está prestes a agir sozinho, se adianta e o puxa de volta pelo ombro.

GADREL: Opa! Não foi isso que a gente combinou.

AZAZYEL: Tem razão, você disse que chegaria às onze.

Gadrel ri, soltando o outro do aperto.

GADREL: Fiquei preso no “escritório” (Azazyel faz careta com o uso da palavra).

AZAZYEL: Por que Ele sempre manda te chamar no meio da noite? Se quiséssemos seguir regras, não teríamos deixado o paraíso.

GADREL: Ele precisa de mim, você sabe.

As meninas ficam aborrecidas com a demora e falta de atenção, desistindo, então, de esperar e ambos os amigos voltam a se sentar.

AZAZYEL: E onde Ele estava quando fomos destinados a ficar presos nesta poça de lama?

GADREL: Você quer ficar divagando sobre as vontades do Príncipe ou quer arrumar uma presa para esta noite?

AZAZYEL: Eu não precisaria ARRUMAR uma se você não tivesse espantado as que eu tinha em vista.

GADREL: Sempre um passo a frente de todos, esse é o nosso Azazyel.

AZAZYEL: É bom definir bem esse “nosso”.

Ele começa a levantar e ajeitar as próprias vestes, conferindo o cabelo na parede atrás dos pufes.

AZAZYEL: Afinal, eu inventei as espadas para deixar minhas preferências bem claras. Ou teria criado arranjos de flores.

Gadrel sorri uma vez mais, balançando a cabeça negativamente para o amigo debochado. O outro começa a andar em direção à saída.

GADREL (Enquanto Azazyel se afasta): O príncipe disse que sente saudades.

Azazyel para bruscamente.

AZAZYEL (sem olhar para trás): E é assim que eu prefiro.

Sai Azazyel.

As luzes se apagam.

Ato II

Uma rua escura.

Entra Azazyel, caminha até o único ponto iluminado e se posiciona com postura preguiçosa, o olhar fixo no céu acima.

AZAZYEL: E como pensar em mulheres quando tenho todo este peso nas costas? (Suspiro) Quem sou eu afinal? Milênios vieram e se foram, correram por mim feito cavalos selvagens em fúria e do que fui feito disso? Apenas um escravo nojento do plano inferior. Nem anjo, nem humano, nem demônio, nem fantasma. Eu sequer existo. Dei tudo aos mortais, os ensinei a moldar ferro, a criar lâminas capazes de fortalecer os que mereciam ser fortes e sucumbir àqueles que não eram dignos de estar neste lugar... E como fui agradecido? Os mais velhos deles nem sabem que existi.

Entra Gabriel, permanecendo no escuro.

GABRIEL: Então, está arrependido?

AZAZYEL: Quem está ai?

GABRIEL: Quinhentos mil anos foram suficientes para apagar a voz de um amigo da memória?

AZAZYEL: Gabriel, a voz de Deus. Por que está aqui?

Gabriel se aproxima da luz.

GABRIEL: Eu o tenho observado, Azazyel.

AZAZYEL: Sei o quanto vocês lá de cima pregam que não devem ter preferências, mensageiro, mas não me sinto confortável tendo um homem sobre o meu pescoço.

GABRIEL: Vocês não são os únicos que quebram algumas regras, caído. Alguma vez já me viu descer à Terra em forma de mulher?

AZAZYEL: Agora que você mencionou... Camisola branca e cachinhos formosos não são exatamente uma reprodução heterossexual.

GABRIEL: Um anjo tem que fazer o que um anjo tem que fazer.

AZAZYEL: Vai me dizer a que devo a honra?

GABRIEL: Há cinco mil anos, você presenteou o Rei de Ur com uma lâmina de bronze capaz de matar os inimigos e causar temor nos súditos. Foi a primeira espada dada à humanidade. No milênio seguinte, você contrariou as ordens de Lúcifer e foi sozinho desafiar Rafael num duelo.

AZAZYEL: Não precisa me lembrar. Fui expulso do inferno naquele dia.

GABRIEL: Então, deve estar fresco na lembrança também quem perdeu a luta.

AZAZYEL: E para que veio até aqui? Só para se divertir à custa das minhas escolhas ridículas? Quantas vezes vou ter que admitir que estava errado, que não faria de novo se tivesse a oportunidade, que...

GABRIEL: E você tem.

AZAZYEL: O que disse?

GABRIEL: Eu não estou aqui por livre vontade, ainda que já o tenha tido como um amigo. O Criador me deu uma nova missão, não devo anunciar a vinda de um novo salvador, ou indicar o caminho para as escrituras sagradas, tampouco me pediu que dissesse a um pai que sacrificasse o próprio filho, hoje, feitor das armas e protetor da destruição, nosso pai quer que ceife a vida de uma jovem.

Azazyel parece surpreso de início, mas solta alta e sonora gargalhada com a proposta recebida.

GABRIEL: Não entendo porque se deleita tanto com a vontade d’Ele.

AZAZYEL (em meio às risadas): Eu não sei o que é mais ridículo: Esse seu jeito arcaico de falar ou querer me tornar a figura da morte com foice e capuz negro (Anda divertidamente em volta do anjo, curvado e apoiado numa foice invisível). Afinal, não existem celestes que devem levar as almas dos sacos de sangue?

GABRIEL: Eu não questiono a vontade do Pai, Azazyel, apenas repasso o que tem a dizer.

AZAZYEL: E quem é a azarada?

GABRIEL: Isso significa que aceita a proposta?

AZAZYEL: Definitivamente não. Só estou curioso a respeito, principalmente sobre porque um anjo não poderia fazer isso ele mesmo.

GABRIEL: Ela não está pronta para morrer. E, como você sabe, nós não matamos, nós recolhemos.

AZAZYEL: Dê-me um nome e verei o que posso fazer.

GABRIEL: Seu nome é Ilídia, é enfermeira em um hospital.

AZAZYEL: Sabe quantos Hospitais existem em São Paulo?

GABRIEL (Em tom de brincadeira): Procuro-te pelo Himalaia da próxima vez, então?

Azazyel se prepara para sair, mas volta a atenção para Gabriel uma vez mais.

AZAZYEL: Então, agora o céu anda matando?

GABRIEL: E não é isso que sempre fizemos?

Sai Gabriel.

AZAZYEL (sorrindo): Ilídia, hein? Espero que seja gostosa.

Apagam-se as luzes.



Ato III

Hospital/Cafeteria. Do lado direito,o hospital. Do lado esquerdo, a cafeteria.

Entra Ilídia segurando uma prancheta, anotando algumas informações importantes.

ILÍDIA (falando com um paciente invisível): A pressão aumentou vinte e cinco por cento da noite anterior para este fim de tarde. Vamos ter que adicionar uma grande porção de abacates picados ao seu lanche da noite. Já está tomando remédios demais. Mas que fique entre nós, ok?

Entra Laila de fininho, querendo dar um susto na amiga.

LAILA: Falando sozinha de novo, Lily?

ILÍDIA (Surpresa): Laila! Não me trate assim na frente dos pacientes. Vão achar que não somos profissionais responsáveis o bastante para cuidar deles.

LAILA (rindo): Certo, certo, “Enfermeira Ilídia”, você é quem manda. Agora, quer jantar?

ILÍDIA: E desde quando nós temos tempo para jantar?

LAILA: Eu só vou ser chamada em uma hora para a operação do baço daquele senhor rico do quarto 203.

ILÍDIA (tirando o jaleco): Acho que tenho tempo para um café.

LAILA: Café, então.

As garotas deixam o hospital de braços dados, andando pela rua até a cafeteria. Pelo caminho, vão conversando sobre frivolidades quaisquer. Assim que chegam, pegam a primeira mesa e sentam. Na outra, mais distante, está Azazyel, escondido atrás de um jornal.

LAILA: Ainda não tive tempo de te contar. Sabe aquele advogado?

ILÍDIA: O Canadense que conheceu na conferência?

LAILA: Sim, o de sorriso iluminado e olhos...

ILÍDIA: Olhos de um oceano sem fim, eu me lembro, continue.

LAILA: Então, adivinha quem vai ao show dos Maníacos de Estúdio com ele?

ILÍDIA: AI MEU DEUS! Eu não acredito! Você correu atrás do sujeito por um mês. Eu já tinha achado que tinha desistido.

LAILA: Eu também. Não é incrível?

O celular de Laila toca.

LAILA: Pronto, pode falar. Sim... Aham... Claro, tudo bem.

ILÍDIA: Algum problema, amiga? Posso ajudar?

LAILA: Você sempre se preocupa demais, Lily. É só a cirurgia da qual te falei mais cedo. Eles adiantaram, vão fazer agora.

ILÍDIA (se levantando): Então vamos voltar logo.

LAILA (levanta também, mas faz menção de que a amiga torne a se sentar): Você fica, mal tocou no café. Nos encontramos mais tarde. Estamos no mesmo plantão.

ILÍDIA: Tudo bem então. Deixa que eu pago a conta e corre. Estão esperando por você.

Sai Laila apressada.

Azazyel que não havia saído de trás das folhas do jornal até então, põe o mesmo sobre a mesa, levanta e segue até Ilídia.

AZAZYEL: Mas que azar, um plantão bem na hora do jantar.

Ilídia pula da cadeira assustada e fica encarando o estranho com os olhos arregalados.

AZAZYEL (com seu mais formoso sorriso diabólico): Eu sinto muito, não pretendia assustar você. Todavia, não pude deixar também de ouvir a conversa. É um café pequeno. (Dá de ombros, mostrando indiferença) Eu posso?

Antes que a enfermeira respondesse, Azazyel toma para si a cadeira onde Laila estava sentada anteriormente.

ILÍDIA: Eu já estava de saída, pode ficar com a mesa, senhor.

Gargalhando com vontade perante àquele jeito todo meigo de falar, o demônio balança a cabeça negativamente, desacreditando no que tinha se metido.

AZAZYEL (ainda risonho): Você ouviu sua amiga, não vai sair antes de terminar o café.

As luzes se apagam.



Ato IV

Uma rua escura.

Entra Ilídia e Azazyel alguns passos atrás dela. A garota anda desconfiada, sempre olhando para trás.

ILÍDIA: Era só o que me faltava. Depois de ficar vinte minutos parado, me encarando na cafeteria, vai me seguir até o hospital também?

AZAZYEL: Gostaria que eu a deixasse sozinha no escuro da noite?

ILÍDIA: E o que é você? Alguma espécie de super-herói? Se algo acontecer, vai mesmo ser capaz de me proteger? É mais magrelo do que os termômetros que usamos nos pacientes.

Suspirando pesadamente, aquele que não era mais anjo desejou profundamente jamais ter traído o Criador. Duvidava que Miguel se prestasse a seguir garotas malucas.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa em sua defesa, o grito de Ilídia invade seus pensamentos.

Entra o ladrão e puxa a bolsa da enfermeira com força, fazendo com que ela tombe no chão devido ao impacto.

A partir daí, toda a cena se passa em câmera lenta. O Ladrão e Ilídia se movem quase imperceptivelmente e Azazyel é o único que parece ter a velocidade normal, isso para dar o efeito de um ser super-rápido.

Ele segura o braço esticado do ladrão que segurava a bolsa e o põe violentamente atrás das costas do mesmo, retirando o objeto e o lançando de volta para a garota que ainda estava no chão. O tempo volta ao normal assim que o anjo toca o criminoso.

Azazyel (empurrando o outro ao chão com a força do braço): Então você é tão insignificante que se aproveita do escuro da noite para rastejar até uma mulher e se aproveitar da ignorância dela?

Ilídia deixa escapar um resmungo descontente com a fala do anjo, mas ele nada se incomoda e continua como se nem a tivesse ouvido.

AZAZYEL: Não me faça esmagar você como o verme que é bem aqui e agora.

LADRÃO (desesperado, tenta se virar para olhar Azazyel): Quem é você? O QUE É VOCÊ?

AZAZYEL (pega num único puxão com a outra mão, a faca que o ladrão guardava sob a camisa): Ainda quer me indagar? Está vendo esta faca aqui? Não me faça usar uma de minhas próprias criações para abrir um sorriso na sua garganta.

ILÍDIA: PARE COM ISSO! VOCÊ É LOUCO?

AZAZYEL: Vermes como ele não merecem viver.

A mulher se levanta com dificuldade e vai até os dois homens, o ladrão permanece choramingando e clamando por piedade. Ilídia parece nervosa, o coração saltando pela boca enquanto, trêmulas, as mãos se erguem e fazem caminho direto aos ombros do caído.

ILÍDIA: Por favor, deixe-o.

O aperto de Azazyel não enfraquece, pelo contrário. Frustrado por receber ordens de uma simples mortal, segura ainda mais firme o outro.

ILÍDIA: Por favor...

Relutante, aquele que um dia foi anjo soltou uma vítima para que escapasse pela primeira vez. Sem esperar um segundo convite, o ladrão sai aos tropeços e deixa demônio e enfermeira sozinhos. Azazyel nem se mexe, com raiva demais para olhar para a outra.

AZAZYEL: Ele teria matado você sem pensar sequer mais de uma vez.

ILÍDIA: Eu sei.

AZAZYEL: Ainda assim, preferiu salvá-lo?

ILÍDIA: Eu salvo vidas... Como pode ficar diante de mim, prestes a tirar uma e esperar que eu fique bem com isso?

AZAZYEL: Humanos... Sempre vestindo uma nobreza que não lhes pertence.

ILÍDIA: Fala como se não fosse um.

Finalmente, ele se vira para ela. Um sorriso frio, porém, sincero, desenha os lábios do rapaz. Gentilmente, porém ainda inquisidor, segura a mão dela e a dirige ao hospital.

AZAZYEL: Vamos, eu te levo de volta.

ILÍDIA (puxando o braço de volta): Espera! Eu nem sei o seu nome.

AZAZYEL: Meus amigos me chamam de Azazyel, isso se eu tivesse algum.

ILÍDIA: Azazyel, como o demônio?

Ele ri sarcasticamente, falando mais para os céus e, de forma consecutiva, para Gabriel, do que para a garota.

AZAZYEL: Ótimo, ela foi catequizada.

ILÍDIA: Algum problema com isso? Também fiz a primeira comunhão, crisma...

AZAZYEL: É virgem e acredita na felicidade conjugal abençoada pelo todo poderoso Deus?

A menina fica vermelha, simplesmente ofendida com aquela suposição. E daí se ela fosse virgem? O que ele tinha a ver com isso?

ILÍDIA: Você vai me levar ao hospital ou não?

AZAZYEL: Ah, agora você quer a minha ajuda, Ilídia?

ILÍDIA: Como sabe o meu nome?

AZAZYEL: É uma longa história.

O caído puxa Ilídia enquanto ela reluta para se soltar e entender melhor a situação, porém, nenhuma palavra deixa os lábios dele.

Saem os dois.

Entra Gabriel, admirando a cena enquanto ela acaba, rindo para si mesmo.

GABRIEL: E eu que pensei que fosse demorar. Bastou uma noite apenas com a alma mais pura da Terra que ele hesitou em matar. Agora, os dias passarão, semanas a fio por eles correrão. E quem dirá, Deus ou Diabo, se descobrir irão a morte ou o ser amado?

Sai Gabriel e entra Laila apressada com o telefone celular no ouvido.

LAILA: Ilídia? Atende a droga desse celular! Você está atrasada de novo para o plantão, sabia? Já faz uma semana que entra tarde e sai cedo do hospital! Nós mal nos falamos! Por favor, amiga, atende!

A enfermeira suspira com a falta de respostas e desliga o aparelho, colocando-o dentro da bolsa.

LAILA: O que será que aconteceu com você?

Sai Laila.

Acendem as luzes.



Ato V

O Céu.

Rafael está sentado na mesa com uma pilha enorme de papéis para dar baixa. A expressão parece cansada, mas ele continua sem parar.

Entra Gabriel.

GABRIEL: Mandou que me chamassem, irmão?

RAFAEL (olha para o outro, mas logo retoma a atenção ao trabalho): Precisava vos perguntar uma coisa que vem incomodando a mim.

O anjo mensageiro permanece quieto, porém, a ausência de resposta do arcanjo atarefado lhe fere os nervos.

GABRIEL: Sabe, eu não tenho o dia todo. Ainda há muito que fazer lá em baixo. As passagens do Criador não se propagam sozinhas.

RAFAEL: Eu ouvi que você encontrou um dos imundos.

GABRIEL: Você se lembra do nome dele.

RAFAEL: Quem ele era ou o que fizera enquanto anjo não existe mais. Tampouco seu nome (Suspiro alto). Você ainda não respondeu à minha pergunta.

GABRIEL: Recebi um sinal do Pai. Uma profecia tão antiga quanto à de Moisés, Abraão ou Davi. De que nós tomaríamos e venceríamos o plano Inferior e ao próprio Luc...

RAFAEL (Levanta com raiva e soca a mesa, sua voz soa como um trovão): NÃO SE ATREVA A DIZER O NOME DELE EM MINHA SALA!

Gabriel respira fundo e permanece em silêncio. Era sempre impossível conversar com Rafael sobre Lúcifer, Azazyel ou qualquer um dos antigos anjos.

RAFAEL: SÓ RESPONDA FINALMENTE AO QUE LHE PERGUNTEI, ARCANJO!

GABRIEL: A profecia dizia que só conseguiríamos vencer quando um demônio traísse seu mestre e salvasse a alma que devesse matar. Então, tudo o que eu fiz foi procurar aquele que mais se arrependia de ter nos traído e o que mais ajudou a transformar os humanos nos monstros que são hoje, mas também, aquele que possui maior ódio e tem um número inigualável de almas na ponta da espada, e pedi que ceifasse uma para mim.

RAFAEL: Está me dizendo que entregou uma de nossas almas de bandeja para um deles?

GABRIEL: Não, estou dizendo que entreguei Ilídia para ele.

A cor do rosto de Rafael some. Ele pensa em tudo o que já viu do mundo e em como a alma de Ilídia, sua protegida pessoal, em nada podia ser comparada às atrocidades mundanas. Por um instante, quis afundar o rosto do irmão com o próprio punho, mas se conteve.

RAFAEL: Por que você daria minha mais preciosa humana para Azazyel?

GABRIEL: Era a vontade do Senhor.

RAFAEL (sai de trás da mesa esbravejando): A VONTADE DO SENHOR? TAMBÉM FOI A VONTADE DO SENHOR QUE INUNDÁSSEMOS O MUNDO, TAMBÉM FOI A VONTADE DO SENHOR QUE DIZIMÁSSEMOS AS ALMAS DE SODOMA E GOMORRA, TAMBÉM FOI A VONTADE DO SENHOR QUE ABRAÃO SACRIFICASSE SEU PRÓRPIO FILHO PARA MOSTRAR OBEDIÊNCIA E DEPOIS MANDASSE VOCÊ PARA DIZER QUE TUDO NÃO PASSAVA DE UMA BRINCADEIRA. QUANTAS VEZES MAIS O NOSSO PAI VAI TER QUE ERRAR EM PROFECIAS PARA QUE VOCÊ APRENDA QUE ELE NÃO É TÃO PERFEITO ASSIM?

GABRIEL: Justamente, irmão. Rogo que ele esteja certo dessa vez. Você não os viu juntos, eu sim. Ele teve a garganta de um homem nas mãos e não o matou, simplesmente pelo pedido dela.

RAFAEL (se acalmando): Não parece algo vindo de Azazyel.

GABRIEL: Entende porque há esperança?

RAFAEL: Não. Mas se tu és capaz de jogar, eu também sou.

Sai Rafael, enfurecido. Gabriel permanece estático, depois, suspira alto.

GABRIEL: Nem todo anjo é puro, nem todo santo é imaculado. Fomos feitos de luz, mas nem por isso, deixamos de sucumbir às trevas quando elas chamaram por nós. Eu só espero que para salvar a alma de um demônio, não esteja levando um irmão à sua ruína.

Sai Gabriel.

Apagam-se as luzes e voltam a se acender só na frente do palco, mantendo o outro plano no escuro.

Ato VI

O Cais.

Entra Ilídia de mãos dadas com Azazyel, ambos correndo e rindo para, então, pararem para descansar.

ILÍDIA (Com as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego): Eu sabia que não devia te deixar me buscar no hospital novamente. Já estão estranhando a enfermeira do mês ter saído cedo a semana inteira. Tudo porque o senhor não é capaz de esperar um segundo apenas até que dê a hora certa.

AZAZYEL (respirando um pouco mais aceleradamente, mas não cansado como ela): Pensei que estava te fazendo um favor. Nós passeamos pelo cais ontem...

ILÍDIA: E você tentou subornar o pobre pescador para que não denunciasse a sua moto sem placa.

AZAZYEL (colocando o braço em volta do ombro dela divertidamente): E eu QUASE teria conseguido se não fosse você e todo o seu altruísmo. (imita a voz de Ilídia de uma forma bem cômica) “Ai, meu senhor, por favor, por favorzinho, não nos denuncie, eu sou uma funcionária pública, não posso ter pendências judiciárias”.

ILÍDIA: Engraçadinho (e o empurra para o lado)! E como me esquecer da sua capacidade em manipular o destino para que os gatos vomitem bolas de pelo bem em cima de homens carecas inocentes?

AZAZYEL (pigarreando enquanto fala): Mal sabe ela que o “destino” sou eu mesmo.

ILÍDIA: O que disse?

AZAZYEL: Você esqueceu a última terça, três dias atrás quando passamos a noite bebendo naquele pulgueiro da Zona Leste.

ILÍDIA: Quer dizer, a noite na qual VOCÊ encheu a cara e eu fiquei observando até que o todo machão ai perdeu os sentidos e tive que te carregar até um posto de saúde? Claro que eu lembro.

Ambos riem e para de frente um para o outro, depois, encaram o horizonte.

AZAZYEL: Por que quis vir aqui hoje?

ILÍDIA: Gosto de observar o mar noturno, a forma como as ondas crescem e vem quase até a costa, essa espuma branquinha cobrindo a areia. Mas, principalmente para ouvir o som, a música da noite.

AZAZYEL: Eu também costumava vir aqui, mas já faz muitos anos.

ILÍDIA: E qual é o seu anjo?

AZAZYEL (assustado, começa a se atropelar): Anjo? Que anjo? Eu não conheço nenhum anjo, nunca conheci um, não sei do que você está falando...

ILÍDIA: Desculpa, essa é uma linguagem que usamos no hospital. “Anjo” quer dizer “causa”, “motivo”. É uma forma carinhosa de perguntar a um paciente pelo que ele está passando.

AZAZYEL (pensativo): Ah... Meu anjo... Ele... Na verdade...

ILÍDIA: Você não sabe?

AZAZYEL (respira fundo): Consegue enxergar aquela luz lá longe?

A enfermeira concorda com a cabeça, mas permanece um momento esquadrinhando o mar com os olhos, atrás do ponto que o amigo indicava.

AZAZYEL: Desde que eu vim aqui na primeira vez, ela está lá, estática, parada. Pode ser um barco, ou só um farol boia, flutuando sem rumo. Já pensei que fosse o sol nascente em dias de grande embriaguez ou que era a lua linda, se preparando para reinar no céu. Nos meus piores dias, quis estar aqui, sozinho, contemplando esta incógnita que me dá sentido.

Ilídia o encara admirada, sem saber o que dizer, ele volta a atenção para ela, demoradamente, os lábios trêmulos como se estivesse entre mais uma frase ou o começo de um choro.

ILÍDIA: Todos acham que a minha vida é perfeita, mas, até uma semana atrás eu ainda não sabia qual era o real sentido dela. Eu não... Não sabia qual era a minha luz, meu destino, Azazyel.

AZAZYEL: Eu me contentaria em descobrir o que é esse maldito pontinho brilhante que me traz tanto conforto.

ILÍDIA (se virando para encarar o rapaz novamente): Você ainda não entendeu? A luz é você, sempre foi você.

A garota se aproxima ainda hesitante, posta uma das mãos no rosto dele e sobe os calcanhares até que os lábios se encontram. Azazyel interrompe após alguns instantes, negando veemente com a cabeça.

AZAZYEL (com as mãos nos ombros da garota, colocando-a gentilmente mais para trás, afastada dele): Não, Ilídia. Isso não pode acontecer. Não pode.

ILÍDIA: Mas por que não? Você já tem namorada?

AZAZYEL: Não, não é isso! Eu não sou quem você pensa... Você não me conhece.

ILÍDIA (tenta se reaproximar dele novamente): Eu sei que uma semana é pouco tempo, mas tem tanta gente que se envolve em menos dias, às vezes até em duas horas de boate.

AZAZYEL: O tempo não é o que importa aqui, Ilídia. Afinal, eu já tenho muito dele para colecionar.

ILÍDIA: Eu não compreendo.

AZAZYEL: Não pertenço ao mesmo universo que você. Enquanto teve o ventre da mãe para aquecer seu corpo em formação até o nascimento, eu já vim assim ao mundo.

ILÍDIA (confusa): Mas que papo é esse? Você está bem, Azazyel? Está se sentindo meio zonzo? (Faz menção de tocar a testa dele, mas logo Azazyel afasta a garota de novo).

AZAZYEL: EU TRAI DEUS, ILÍDIA. EU TRAI O MEU CRIADOR. DESCI AO MAIS PROFUNDO DOS INFERNOS E ENCAREI DESPRAZERES QUE VOCÊ NEM PODE IMAGINAR. EU MATEI TANTOS DE VOCÊS QUE OS GRITOS ME SERVEM DE CANÇÃO DE NINAR PARA A HORA DE DORMIR!

ILÍDIA: O que você está dizendo? Tantos de nós?

AZAZYEL: VOCÊ ESTAVA ERRADA, ILÍDIA! Eu não sou COMO o demônio Azazyel, EU SOU O DEMÔNIO AZAZYEL. E fui mandado para levar a alma mais pura do céu de volta. Para ceifar alguém.

ILÍDIA (atônita): “A alma mais pura do céu”?

Finalmente, Azazyel se aproxima da garota, uma das mãos repousa sobre o rosto assustado dela. Com o coração que há muito havia parado de bater, novamente latente no peito, leva o rosto até o ouvido da jovem.

AZAZYEL (sussurrando): Você.

ILÍDIA (assustada, começa a se afastar rapidamente): Está louco! Como quer que eu acredite em você?

LÚCIFER (OFF): Isso mesmo, Azazyel, como quer que ela acredite em você?

O casal se encara espantado, uma ventania tremenda surge no cais, fazendo com que o caído abraçasse Ilídia a fim de protegê-la.

ILÍDIA (gritando devido ao barulho): O QUE É ISSO AZAZYEL? PORQUE O VENTO DIZ SEU NOME?

AZAZYEL: PORQUE EU NÃO MENTI!

Entra Lucifer lentamente enquanto Azazyel fala.

Atônita, a jovem enfermeira arregala ainda mais os olhos, porém, sua expressão de pavor vai aumentando ainda mais a medida que a sombra do príncipe vem chegando e toma forma diante deles.

A ventania para.

LÚCIFER: É assim tão difícil, meu caro servo, tirar a alma dessa mortal a quem você tão fielmente protege agora?

AZAZYEL (aperta a garota ainda mais forte): Não se atreva a chegar perto dela!

LÚCIFER: Mas não fui eu quem quis vir aqui. Estou a pedido de outro celeste.

AZAZYEL: Gabriel...

Entra Rafael.

RAFAEL: Passou perto. Infelizmente, Gabriel não vai poder salvá-lo agora (se volta para Ilídia com uma das mãos estendida para ela). Venha comigo, Ilídia. Eu posso ajudá-la.

ILÍDIA: Quem é esse, Azazyel?

AZAZYEL: Você não reconhece seu próprio anjo da guarda quando o vê? (sorrindo sarcasticamente, olha para o Arcanjo) Mas que belo trabalho você faz, Rafael.

LÚCIFER: Entregue a garota à ele, servo! É A ORDEM DO SEU MESTRE.

Como se mil estacas estivesse perfurando a carne de suas costas, Azazyel se contorce e cai. A única coisa que pode ser ouvida é o grito de Ilídia no momento em que Rafael a agarra e a puxa para longe. Azazyel, apesar de toda a dor, faz menção de ir atrás deles, porém, é impedido.

LÚCIFER: Venha, filho meu e mostre ao seu irmão o preço que se paga por me desobedecer.

Entra Gadrel e segue imediatamente até o amigo caído em dor, o segurando pelos ombros.

GADREL: Eu sinto muito.

ILÍDIA: AZAZYEL! Por favor!

RAFAEL (segura Ilídia nos braços): Não temas, pois Deus é contigo. O que acontece aqui é a vontade do Senhor.

O Arcanjo inclina a cabeça da garota para trás, começando então o ritual para sugar o sopro da vida do corpo de Ilídia. Desesperado ao ver a cena, Azazyel para de lutar contra as mãos de Gadrel e fica de joelhos.

AZAZYEL: Deus, meu Pai! Se este foi o teu bom desejo desde o início, não me negues o coração que me destes de volta. Salva Ilídia, pai. E que seja feita a tua vontade!

LÚCIFER: E como ousas chamar pelo criador que o expulsou quando eu, que te salvei e abriguei, estou aqui parado na sua frente?

Entra Gabriel.

GABRIEL: Felizmente para Azazyel e infelizmente para você, ser imundo, um irmão é só um irmão, não importa quanto poder se tenha sobre ele. Mas um pai sempre será um pai.

Rafael para o ritual ao ver a figura de Gabriel, Ilídia desmaia nos braços do arcanjo, sem forças.

RAFAEL: Como você se atreve a me desafiar aqui na frente de todos?

GABRIEL (Ignorando o irmão, se volta para Azazyel): Sou o mensageiro do Senhor e lhe trago as boas novas. Seja feliz e toma suas asas de volta.

Nesse momento, Gadrel e Lúcifer se afastam do anjo ferido, a luz toma conta do lugar, quase cegando a todos e uma explosão se inicia. Quando a claridade ameniza e o som cessa, muita fumaça cobre os corpos de Lúcifer, Gadrel e Rafael, caídos no chão.

Azazyel permanece parado no meio da cena com grandes asas nas costas, Ilídia desmaiada nos braços e Gabriel parado a seu lado.

GABRIEL (Com uma das mãos sobre o ombro do agora não mais anjo caído): Sê bem vindo de volta, irmão.

AZAZYEL (a expressão devastada, encarando de perto o rosto sem vida de Ilídia): E de que me adianta um par de asas, se toda a vida que restava jaz aqui, desfalecida, em meus braços?

GABRIEL: Coragem, irmão. Encare o sacrifício de Ilídia como uma dádiva. Ela te concedeu o perdão do Pai.

Azazyel ajoelha, ainda segurando o corpo da enfermeira.

AZAZYEL: E ai de mim que, preso na lamúria, casto, insondável infortúnio, vejo então a esperança que aturdia fixa em teu olhar diurno. Ai de mim, pobre homem perdedor! Desço ao inferno, venço fogo, medo e o hálito azedo do anjo sofredor, para no final morrer em desmazelo. Terrível mestre sozinho e sem amor que vive moribundo no ninho, “aninhado”, talvez, nos prelúdios da dor. Mas que fiasco! E eu aqui bancando o herói. Sigo empunhando distorcida espada de papel que aos outros não fere e a mim destrói. Maldito mocinho de cordel! Eu que pensei ser Dante, fui ao âmago do etéreo causar o motim de dois mundos, trazer de volta o que jamais fora adiante, aquilo que havia perdido num instante, último suspiro de seus lábios pálidos. Lamentações, devaneios... Odiados, vis, certeiros. Perambulam em meu cérebro carregando o tesouro de mil contrabandos, um par de olhos da cor de braseiros.

GABRIEL (compadecido, abaixa para ficar da altura do amigo): Beije-a, Azazyel.

AZAZYEL: E de que me adiantaria um beijo quando os lábios já não possuem mais essência para retribuir? De todas as mil vidas que vivi, novecentas e noventa e nove daria a ela. Só preciso de uma se Ilídia estiver aqui para vivê-la comigo.

GABRIEL: Então cometa o pecado da carne, desista das asas e dê todas as vidas que viveu para que ela possa dividir uma contigo. Mas saiba, irmão, que Deus não lhe dará uma nova oportunidade de voltar aos céus.

AZAZYEL: Dez mil querubins barulhentos não valeriam uma Ilídia.

GABRIEL: Temo que concordar também valeria minhas asas.

Ambos sorriem fraternalmente um para o outro. Azazyel posta uma das mãos sobre a garota, um foco de luz começa a crescer dali. Então, suspira profundamente e leva os lábios aos dela. Nesse momento, relutante, Gabriel fica atrás do irmão e segura forte as asas do mesmo, puxando-as em seguida com o máximo de força que consegue reunir.

Azazyel interrompe o beijo com um grito de dor. Os olhos de Ilídia se abrem e ela o encara assustada. Vendo que a menina estava viva, ele engole todo o torpor.

ILÍDIA: Azazyel...

AZAZYEL: Ilídia, você está...

ILÍDIA: Eu estava certa. A luz é mesmo você.

Os dois sorriem e se abraçam fortemente.

Apagam-se as luzes.



Ato final

Sob apenas um único foco de luz, permanece Gabriel.

GABRIEL: Não se sabe se foi o beijo de Azazyel ou seu grito que despertou Ilídia de seu sono. Também não está certo por quanto tempo ficarão seguros das garras do Príncipe das Trevas e seus súditos, porém, uma coisa pode ser aprendida desta caótica e trágica desventura. Mesmo para os mais perdidos, àqueles que estão envoltos pela penumbra da noite e só se sentem confortáveis na solidão, ainda que sua alma esteja tão morta e seca quanto as páginas de um livro, sempre há luz. Seja a luz de Azazyel e Ilídia, ou o clamor de seu anjo da guarda, seja um amigo, uma mãe, um irmão, namorada. Ela brilha.

Apagam-se as luzes.



Fim.


©bemvin.org 2016
enviar mensagem

    Página principal