A classe operária vai ao paraíso II



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A CLASSE OPERÁRIA VAI AO PARAÍSO II

 

 



 

            Nome original: La classe operaria va in paradiso

            Produção: Itália

            Ano: 1971

            Idiomas: Italiano

            Diretor: Elio Petri

            Roteiro: Elio Petri, Ugo Pirro

            Elenco: Gian Maria Volonté, Mariangela Melato, Gino Pernice, Salvo Randone, Luigi Diberti

            Gênero: drama

            Fonte: “The Internet Movie Database” – http://www.imdb.com/ 

 

O título deste artigo não contém nenhuma alusão à eleição de Lulla para presidente. Mesmo porque, em tal eleição, a classe operária brasileira não chegou ao poder, não teve contemplado nenhum item do seu programa histórico de reivindicações e muito menos chegou ao paraíso. O título do artigo contém talvez um trocadilho infame, por conta de poder aludir à recente ida deste escriba-proletário ao bairro paulistano do Paraíso, onde o Centro Cultural São Paulo projetou um ciclo de filmes italianos (a rigor, bancário não é proletário, mas conceda-se a licença poética). Dentre os filmes deste ciclo estava “A classe operária vai ao paraíso”, de Elio Petri, realizado em 1971, o qual será objeto do presente comentário.



O personagem principal do filme, assim como Lulla, também é um Luís, o italiano Ludovico Massa, apelidado de Lulu. Assim como Lulla, um metalúrgico, e como ele, também vítima de um acidente de trabalho, no qual perde um dedo. Mas as semelhanças entre os dois param por aí. Lulu protagoniza apenas e tão somente um pequeno episódio de luta sindical. Mas esse episódio vem a ser uma preciosa fonte de ensinamentos sobre o papel da classe operária na história universal da luta de classes.

A princípio, Lulu parece ser o menos indicado para protagonizar qualquer episódio de luta sindical. Ele é o operário-padrão, o stakanovista, que se submete voluntariamente a um ritmo desumano de produção, na tentativa de ganhar um valor extra no salário referente a uma premiação por peça. O movimento sindical local está justamente em luta contra esse sistema de produção por peça, que representa um retrocesso em relação à remuneração por tempo de trabalho. Mas Lulu ignora a luta. Pior que isso, presta-se a servir de parâmetro para calibrar a produtividade dos colegas, quando os engenheiros de produção passam a exigir que os demais produzam tantas peças/tempo quanto ele.

Com isso, Lulu atrai a hostilidade de todos, não só dos colegas e dos militantes sindicais, mas também da mulher com quem vive e até de si mesmo, como veremos. Temos aqui um exame clínico da condição do operário sob o capitalismo. O operário-padrão, sem consciência de classe, acredita que o trabalho duro pode lhe dar os meios para melhorar de vida. Por acreditar nisso, persegue caninamente as metas traçadas pelos patrões. Mas o dinheiro nunca é o bastante para satisfazer a todas as necessidades. O desgaste físico e mental impede que o trabalhador obtenha alguma fruição até mesmo dos objetos de consumo aos quais tem acesso.

De nada serve uma casa mobiliada, de nada serve a televisão, que apenas apascenta o cérebro, sem alimentá-lo com nada útil. Aliás, se tivesse algum interesse em cultura, Lulu não teria tempo nem forças para dedicar-se à atividade de apreciar qualquer forma de arte ou literatura. Nem sequer a satisfação sexual ele consegue devido à devastação física do trabalho. Ou seja, em todos os sentidos, o trabalhador é um ser mutilado, um homem pela metade, um rebotalho esmagado e triturado diariamente pela rotina massacrante. Lulu gira em círculos com sua raiva, frustração, desânimo, sem saber como encontrar a solução para a existência auto-destrutiva em que vive.

A solução somente será descoberta ao custo de muita luta e sofrimento. Trata-se de uma solução que vai além da problemática de um único indivíduo, mas envolve a totalidade dos seres humanos submetidos ao capitalismo. Didaticamente, somos apresentados ao longo do filme aos quatro momentos da alienação descritos na análise clássica de Marx:

 

1. O homem se aliena dos resultados do seu trabalho, dos objetos sob a forma de mercadoria, da materialidade circundante em geral. O operário Lulu Massa se encontra em sua casa cercado de objetos sem utilidade e sem valor, que depois de adquiridos não podem ser consumidos nem sequer revendidos, que dirigem a sua vida e dos quais não pode sequer usufruir. O status de vida pequeno-burguesa ambicionado por sua companheira sacrifica até a convivência no ambiente do lar, tornado infernal por brigas constantes. Na civilização burguesa é mais importante conservar os objetos do que satisfazer os seres humanos.



2. O homem se auto-aliena no processo de trabalho. O processo de trabalho não é a realização, mas a negação do homem. Aqui ele se sente objeto e não sujeito. O homem se torna um apêndice das máquinas. O operário-modelo Lulu escraviza-se ao ritmo repetitivo das máquinas, esforçando-se para cumprir cotas de produção e superar os demais operários. Ele haure motivação inserindo conotação sexual aos seus gestos. Trabalha repetindo para si mentalmente o refrão: “uma peça, um rabo, uma peça, um rabo, uma peça, um rabo”, desviando para a atividade de trabalho o desejo sexual por uma colega de trabalho.

O trabalho é uma atividade torturante que não tem significado em si, mas é necessário como meio de sobrevivência. O homem se desumaniza quando trabalha, pois torna-se máquina, animal de carga. O trabalho é sua tortura e não sua realização. O trabalhador se sente humano quando está fora do trabalho e não dentro dele. E no entanto, este “sentir-se humano” é um mero intervalo escapista no qual não são permitidas outras atividades criativas, nem sequer o sexo, pois o intervalo se destina apenas a repor as forças do animal-trabalhador para a jornada seguinte.

3. O homem se aliena em relação à finalidade do seu trabalho. O resultado do dia de trabalho de um operário é uma porção de objetos que lhe são estranhos, indiferentes. O operário é considerado louco porque não consegue ver o sentido humano daquilo que faz, o que torna o seu trabalho desumano. O velho Militina, ex-operário internado no manicômio, explica a Lulu que a sua loucura foi diagnosticada quando inquiriu da direção da fábrica o destino daquilo que produziu. Por que produziu parafusos durante a vida inteira? Para onde iam os parafusos? Qual seria o seu uso? Como continuar trabalhando sem saber o uso a ser dado ao produto do seu trabalho? Além de instigar essas interrogações no espectador, a visita de Lulu a Militina proporciona uma coleção de frases de efeito, que são um dos momentos altos do filme.

4. Sob o capitalismo, o operário deve se contentar em vender a sua força de trabalho ao capitalista e adquirir em troca a possibilidade do consumo, sem o direito de questionar para que trabalha e porque deve consumir o que lhe é oferecido. Ele tem um papel na sociedade, o qual lhe cabe cumprir servilmente. Não lhe é dado opinar, decidir, escolher, propor nada, visto que a administração da sociedade está totalmente fora de seu alcance, entregue a um mecanismo distante e impessoal. Lulu não sabe nem sequer quem é o proprietário da fábrica, a pessoa que dirige o empreendimento. Não há mais um capitalista empreendedor. Há uma sociedade de pessoas que participam em maior ou menor grau da propriedade capitalista. Uma sociedade de pessoas que se põem em relação ao dinheiro como meios para o fim da acumulação. Nessa medida, o capitalista é tão alienado quanto o trabalhador, embora a alienação tenha diferentes efeitos sobre cada um.

Nessa última dimensão do processo, o trabalhador acaba alienado de si mesmo como homem e dos outros homens. Para o capital, é indiferente a individualidade das pessoas de que se serve. Lulu encarna essa mentalidade quando não se interessa sequer pelo nome dos operários a quem dá treinamento. Só interessam ao capital como fonte de força de trabalho. O homem deixa de ser sujeito e de ter valor enquanto indivíduo, para ser mero repositório quantitativo de força de trabalho. O homem se torna estranho para outro homem e para si mesmo.

 

Essas quatro formas de alienação, naturalmente, se articulam e se sobrepõem simultaneamente. Para desvendar alguns desses traços de alienação peculiares à figura histórica do trabalhador assalariado, Lulu será vítima de um acidente de trabalho. No esforço de cumprir as cotas, sofre um acidente e perde um dedo, ficando incapacitado de trabalhar no mesmo ritmo. Sem a possibilidade de vender sua força de trabalho, o trabalhador perde aquilo que define o seu ser. Mas o aspecto humano do problema nunca é levado em consideração. O homem não interessa senão como máquina. O capital, interessado em restituir o mesmo nível de produtividade ao operário mutilado, manda-o ao psicólogo, encarregado de convencê-lo a voltar para a “normalidade”.



O incidente com Lulu é o ponto de partida para conflitos sindicais que culminam na demissão dele. Na condição de desempregado, Lulu encara a sua posição de indivíduo deformado pelo capital, vendedor de força de trabalho, consumidor de mercadorias, incapaz de corresponder à expectativa da família, dos companheiros de trabalho e do capital simultaneamente. Ele conscientiza-se da própria alienação, e paulatinamente se integra na atuação sindical, que culmina na sua readmissão ao emprego. Mas ele não é mais o mesmo operário modelo e não tem mais as mesmas ilusões de realização dentro do consumismo.

Ele aprende que é preciso derrubar um “muro”, metáfora das condições sociais capitalistas, que separam os indivíduos da sua humanidade. É preciso superar a alienação. Entretanto, isso é mais fácil de dizer do que fazer. Que o digam os ativistas que militam na porta da fábrica. Diariamente, um grupo de agitadores, de megafone em punho, enfrenta a brutal indiferença dos operários que entram na fábrica sem dar a mínima para o seu discurso, jogando ao chão os panfletos tão logo os apanham, como uma manada de seres irracionais.

O filme não deixa de ser também o documento de um momento peculiar da luta de classes na Itália da década de 1970. Naquele momento viveu-se um importante ascenso das lutas sociais no país. Greves e mobilizações foram cruciais para elevar o nível de vida da classe trabalhadora italiana ao nível de seus vizinhos europeus. Mas a construção desse movimento não foi fácil, tranqüila, linear ou uniforme. O filme toma partido a favor dos operários, mas não deixa de apontar as limitações e contradições do movimento.

Os ativistas que militam na porta da fábrica estão divididos em dois grupos. De um lado, os sindicalistas ligados à tradição da esquerda reformista, que desejam lutas parciais sem confrontação aberta para obter pequenos avanços à custa de um mínimo de mobilização e muita negociação. De outro, os militantes estudantis ligados à tradição da esquerda revolucionária que querem transformar a sociedade como um todo e precisam convencer os operários de que esse é o seu papel. Sobre um dos lados, pesa a suspeita de oportunismo. Sobre o outro, a de apenas fazer discursos e não pertencer àquela realidade.

Aliás, os estudantes não pertencem à realidade nenhuma. Nem sequer são propriamente “estudantes”. Moram na universidade, circulam de uma luta a outra, fomentando greves, foragidos da polícia. Refugiam-se inclusive na casa de Lulu, o que precipita o fim do relacionamento com sua companheira. Os revolucionários não tomam o poder, mas revolucionam a vida de Lulu.

Respira-se nesse momento um pouco da atmosfera dos anos 1960. Naquele grande impulso libertário, tentava-se superar todas as formas de poder que escravizavam a humanidade: capitalismo, stalinismo, farisaísmo, patriarcado, machismo, autoritarismo, academicismo, etc. Tentava-se mudar tudo ao mesmo tempo, e para isso, era aceitável buscar qualquer tipo de caminho. Tudo era permitido e nada era proibido. Era indiferente inclusive ficar desempregado, como o estudante diz a Lulu. A vida pode ser vivida de qualquer maneira, não tem que ser obrigatoriamente da maneira determinada pela sociedade tradicional.

Claro que isso expressa muito mais debilidade organizativa do que viabilidade programática da parte do setor revolucionário do movimento. Esse vago aspecto libertário é marginal em relação ao peso e opacidade dos vícios da esquerda tradicional, mesmo aquela organizada em grupos revolucionários. Se o apelo dos revolucionários parece honesto e sedutor, prova-se também ao final precário e materialmente vago. Entretanto, o sindicalismo reformista, potencialmente oportunista e pelego, não fica muito atrás em incompetência.

Na verdade, os operários ignoram os dois grupos o quanto podem. A alienação é um sofrimento, mas é um sofrimento com o qual podem conviver e preferem se conformar. Já a luta emancipatória provoca choques e embates, interiores e exteriores, exige sacrifícios e escolhas, colocando ao indivíduo a tarefa de posicionar-se. E isso ninguém quer. O acidente com Lulu o obriga a tomar parte das mobilizações. Por meio de seu caso individual temos um exemplo dos passos e percalços que atravessam o avanço da consciência de classe. Todo esse episódio faz com que um operário adquira o conhecimento da força de sua mobilização individual e coletiva. Mas ao final, tudo volta ao normal, com um pequeno avanço, e o sonho de derrubar o muro da alienação plantado em mais consciências.

Por meio da greve e da mobilização coletiva os operários realizam o seu aprendizado político. Percebem o poder da ação coletiva, a importância do debate democrático, a sentimento da lealdade mútua, a necessidade de organização. Tomam o primeiro passo em direção à descoberta final, a mais radical de todas, que será a da inutilidade social da classe proprietária e da possibilidade e necessidade dos trabalhadores governarem suas próprias vidas, através da emancipação de seu trabalho da regra do capital.

Se o filme é um documento da situação particular da luta de classes na Itália de 1971, serve também como documento das dificuldades da esquerda em geral de fazer avançar seu programa histórico. A esquerda reformista e a revolucionária vão disputar o espaço na consciência dos trabalhadores e acabam por fazê-la avançar. Mas isso não será feito sem lutas e sem traumas. Os dois programas podem em determinado momento parecer passíveis de unificação por projetarem no limite um mesmo alvo, mas a sua marcha em direção a esse alvo não se dá sem contradições. A divisão fratricida da esquerda sempre impressiona, mas não mais do que o alheamento dos operários em relação ao discurso de ambos os grupos. Nem o agrupamento dos radicais nem o dos moderados conseguem inserção orgânica no seio dos trabalhadores. Permanecem sendo elementos estranhos, alienígenas.

A tarefa de levar a consciência de classe aos trabalhadores permanece sendo um dilema das organizações de esquerda, também aqui no nosso mundo real bastante distante do paraíso. Ao final, o filme parece terminar com uma nota otimista, pois demonstra que a consciência se produz na luta direta, fomentando a dialética entre os discursos da vanguarda organizada e os impulsos espontâneos dos trabalhadores. Aos trancos e barrancos, essa dialética avança. Não há soluções mágicas na construção de uma sociedade emancipada. Há um lento tatear no escuro, em que se aprende fazendo e se faz aprendendo.

 

Daniel M. Delfino



 


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