A biologia e o futuro da Psicanálise: um novo referencial intelectual para a psiquiatria revisitado



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A Biologia e o futuro da Psicanálise: um novo referencial intelectual para a psiquiatria revisitado

Eric R. Kandel, MD1


R. Psiquiatr. RS, 25'(1): 139-165, jan./abr. 2003

We must recollect that all of our provisional ideas in psychology will presumably one day be based on an organic substructure”



Sigmund Freud, “ On Narcissism”

The deficiencies in our description would probably vanish if we were already in a position to replace the psychological terms with physiological or chemical ones... We may expect (physiology an chemistry) to give most surprising information and we cannot guess what answers it will return in a few dozen years of questions we have put to it. They may be of a kind that will blow away the whole of our artificial structure of hypothesis”.



Sigmund Freud, “Beyond the Pleasure Principle”

Durante a primeira metade do século XX, a Psicanálise revolucionou nossa compreensão da vida mental. Ela proporcionou um conjunto surpreendente de novos insights sobre os processos inconscientes, o determinismo psíquico, a sexualidade infantil e, talvez, o tema mais relevante de todos, a irracionalidade da motivação humana. Em contraste com esses avanços, as conquistas da Psicanálise durante a segunda metade do século foram menos impressionantes. Embora o pensamento psicanalítico continue a progredir, ultimamente tem havido relativamente poucos novos insights relevantes, com a possível exceção de alguns avanços na área do desenvolvimento infantil (para uma revisão dos progressos recentes, ver 4,7). Extremamente relevante e frustrante é o fato da Psicanálise não haver evoluído cientificamente. Mais especificamente, ela não desenvolveu métodos objetivos de experimentação das ideias brilhantes que formulou. Como resultado, a Psicanálise entra no século XXI com sua influência em declínio.


Este declínio é lamentável, já que ela continua a representar a visão mais coerente e intelectualmente satisfatória da mente humana. Caso a Psicanálise queira recuperar seu poder e influência intelectual, precisará fazer mais do que responder às criticas hostis. Precisará, também, do envolvimento construtivo por parte daqueles que a valorizam e que privilegiam uma teoria sofisticada e realista da motivação humana. Tenho como propósito neste artigo sugerir uma forma de revigoramento da teoria psicanalítica que se dá através do desenvolvimento de uma relação próxima com a Biologia em geral e com a neurociência cognitiva em particular.
Uma relação de maior proximidade com a Psicanálise e a neurociência cognitiva pode proporcionar à Psicanálise o alcance de dois objetivos: um conceitual e outro experimental. Do ponto de vista conceitual, a neurociência cognitiva pode prover a Psicanálise de novos fundamentos para seu crescimento futuro, fundamentos talvez mais satisfatórios do que os provindos da metapsicologia. David Olds referiu-se a esta potencial contribuição da Biologia como “reescrever a metapsicologia embasada numa fundamentação científica”. Do ponto de vista experimental, os princípios biológicos poderiam servir como estímulo para a pesquisa, a fim de testar ideias específicas sobre o funcionamento mental.
Outros argumentaram que a Psicanálise deveria se satisfazer com objetivos mais modestos, como esforçar-se por aproximar sua interação com a psicologia cognitiva, uma disciplina que tem uma relevância clínica mais direta e está mais intimamente relacionada com a Psicanálise. Mesmo não pondo em dúvida essa posição, parece-me, entretanto, que o que é estimulante na psicologia cognitiva dos dias de hoje, e será ainda mais no futuro, é a fusão desta com a neurociência em uma única disciplina, chamada neurociência cognitiva (p. ex. ver 8). É minha esperança que, unindo-se à neurociência cognitiva no desenvolvimento de uma nova e instigante perspectiva da mente e de seus transtornos, a Psicanálise poderá recuperar sua energia intelectual.
Uma interação significativa, do tipo que descrevo aqui, entre a Psicanálise e a neurociência cognitiva exigirá um novo direcionamento da Psicanálise e novas estruturas institucionais que a encampem. Portanto, o propósito desse artigo é descrever prováveis pontos de intersecção entre a Psicanálise e a Biologia e delinear como estas interações podem ser produtivamente investigadas.

O MÉTODO PSICANALÍTICO E A CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA DA MENTE


Antes de destacar os pontos concordantes entre a Psicanálise e a Biologia, é útil revisarmos alguns fatores que levaram à presente crise do pensamento psicanalítico, crise esta que resultou em boa parte da restrição de sua metodologia. Nesse sentido, três pontos são relevantes:
Em primeiro lugar, no início do século vinte, a Psicanálise introduziu um novo método de investigação psicológica baseado na associação livre e na interpretação. Freud nos ensinou a escutar cuidadosamente os pacientes de uma nova maneira nunca antes experimentada. Freud também criou um sistema provisório de interpretações para dar sentido a algo que, de outra maneira, apareceria como associações desconexas e incoerentes dos pacientes. Esta abordagem era tão singular e poderosa que, por muitos anos, não apenas Freud, como também outros psicanalistas não menos inteligentes e criativos, poderiam argumentar que os encontros psicoterapêuticos entre pacientes e analistas proveriam um melhor contexto para a investigação. Na verdade, nos seus primórdios, a Psicanálise fez muitas contribuições úteis ao nosso entendimento da mente, através da simples escuta dos pacientes, ou através da testagem das ideias provindas do setting analítico em estudos observacionais, um método que provou ser particularmente útil no estudo do desenvolvimento infantil. Esta abordagem pode ainda ser útil na clínica porque, como Anton Kris enfatizou, ouve-se diferentemente agora. Todavia, está claro que, como instrumento de pesquisa, este método particular perdeu muito de seu poder investigatório. Cem anos depois de sua introdução, há poucas novidades no campo da teoria que possam ser aprendidas apenas através de uma mera escuta atenta dos pacientes. Nós devemos, finalmente, reconhecer que, neste ponto do moderno estudo da mente, a observação clinica de pacientes em um contexto psicanalítico está sujeita à parcialidade do investigador, e isso não é uma base suficiente para uma ciência da mente.
Essa perspectiva é compartilhada mesmo por profissionais experientes da comunidade psicanalítica. Assim, Kurt Eissler9 escreveu:
O decréscimo do impulso da pesquisa psicanalítica não é devido a fatores subjetivos presentes entre os psicanalistas, mas a fatos históricos de significado mais amplo: a situação psicanalítica já deu tudo o que continha. Está esgotada quanto a possibilidades de pesquisa, ao menos até que possamos conceber novos paradigmas.”
Em segundo lugar, como estes argumentos deixam claro, embora a Psicanálise tenha sido historicamente científica em seus objetivos, raramente foi científica em seus métodos, ou seja, falhou durante anos em submeter suas suposições à testagem experimental. De fato, a Psicanálise tem se saído tradicionalmente bem melhor em gerar ideias do que em testá-las. Como resultado desta falha, não foi capaz de progredir como o fizeram outras áreas da psicologia e da medicina.
As preocupações da moderna ciência comportamental em controlar a influência das particularidades do investigador através de experimentos “cegos” têm escapado ao largo das preocupações dos psicanalistas (exceções, ver 10-12). Com raras exceções, os dados obtidos nas sessões psicanalíticas são privados: os comentários dos pacientes, associações, silêncios, posturas, movimentos e outros comportamentos são privilegiados. De fato, a privacidade da comunicação é ponto central para a confiança produzida pela situação psicanalítica. Aqui está o obstáculo. Na maior parte dos casos, nós temos somente a narrativa subjetiva do psicanalista sobre o que ele acredita haver acontecido. Como o pesquisador psicanalítico Hartvig Dahl11 tem argumentado reiteradamente, evidências remotas como estas não são aceitas como dados na maior parte dos contextos científicos. Os psicanalistas, entretanto, raramente preocupam-se com o fato de que suas narrativas das sessões analíticas estejam fadadas a ser subjetivas e parciais.
Como resultado, o que Boring13 escreveu, aproximadamente há 50 anos, continua válido:
Podemos dizer, sem faltar com a consideração com o que foi produzido, que a Psicanálise tem sido pré-científica. Faltaram experimentos e não foram desenvolvidas técnicas de controle. No requinte da descrição sem controle, é impossível distinguir especificações semânticas dos fatos”.
Assim, no futuro, os institutos psicanalíticos deveriam se esforçar para ter, no mínimo, uma parcela de toda a análise supervisionada, acessível a este exame. Isto é importante não apenas para a situação psicanalítica, como também para outras áreas de investigação. Os insights obtidos nas sessões terapêuticas inspiraram outros modos de investigação fora da situação analítica. Um exemplo bem sucedido é a observação direta de crianças e a análise experimental do apego e da interação pais-bebê. Para que as análises futuras experimentais possam se basear nos insights adquiridos na situação analítica, é de maior importância a validação da confiabilidade científica dessas situações.
Em terceiro lugar, diferentemente de outras áreas da medicina acadêmica, a Psicanálise apresenta um sério problema institucional. Os institutos psicanalíticos autônomos, que persistiram e proliferaram ao longo do século passado, desenvolveram suas próprias abordagens de pesquisa e de técnica que se diferenciaram de outras formas de pesquisa. Com algumas admiráveis exceções, os institutos psicanalíticos não forneceram aos seus estudantes ou membros ambientes acadêmicos apropriados para a habilitação para bolsas de pesquisa empírica.
Para sobreviver como força intelectual na medicina e na neurociência cognitiva, assim como na sociedade como um todo, a Psicanálise precisará adotar novos recursos intelectuais, novas metodologias e novos planejamentos institucionais para levar adiante sua pesquisa. Várias disciplinas médicas cresceram através da

incorporação de metodologias e conceitos de outras disciplinas. A Psicanálise falhou amplamente em fazer o mesmo. Porque a Psicanálise ainda não reconheceu a si mesmo como um ramo da Biologia, ela não incorporou, dentro da

perspectiva psicanalítica da mente, os ricos resultados dos conhecimentos da Biologia sobre o cérebro e a capacidade de controle do comportamento que ele exerce, surgidos nos últimos cinquenta anos. Isto, é claro, levanta a seguinte questão: Por que a Psicanálise não foi mais receptiva à Biologia?

A GERAÇÃO ATUAL DE PSICANALISTAS LEVANTOU ARGUMENTOS PRÓ E CONTRA UMA BIOLOGIA DA MENTE


Em 1894, Freud referiu que a Biologia não tinha avançado o bastante para ser útil à Psicanálise. Ele pensou que era prematuro uni-las. Um século mais tarde, um significativo número de psicanalistas têm uma visão bem mais radical. A Biologia, argumentam, é irrelevante para a Psicanálise. Para dar um exemplo, Marshall Edelson14, em seu livro “Hypothesys and Evidence in Psychoanalysis”, escreveu:
“Os esforços para vincular a teoria psicanalítica aos fundamentos neurobiológicos, ou combinar hipóteses sobre a mente e sobre o cérebro em uma estrutura só, deveriam ser evitados por representarem expressões de uma confusão lógica.
Eu não vejo razão em abandonar a posição de Reiser apesar de sua conhecida crença na “unidade funcional” da mente e corpo, quando ele considera a relação entre ambos:
“A ciência da mente e a ciência do corpo usam linguagens diferentes, conceitos diferentes (com níveis diferentes de abstração e complexidade) e um diferente conjunto de técnicas e instrumentos. O estudo simultâneo e paralelo, do ponto de vista psicológico e fisiológico de um paciente em estado de ansiedade aguda, produz a necessidade de dois distintos conjuntos de dados descritivos, de medições e de formulações. Não há forma de unir essas duas ciências na tradução de uma linguagem comum, ou compartilhar um marco conceptual comum, nem são elas formadas por conceitos extensivos que poderiam servir... como intermediários ou isomórficos. Portanto, para todos os propósitos práticos, nós lidamos com os conhecimentos de mente e corpo como universos diferentes. Virtualmente, todos os nossos dados psicofisiológicos e psicossomáticos consistem na essência de dados covariantes, demonstrando coincidência de eventos em dois universos do conhecimento em um intervalo de tempo especifico e numa frequência não casual. (15, p. 479)”.
Penso que seja, no mínimo, possível que os cientistas possam finalmente concluir que aquilo que Reiser descreve não reflete apenas, metodologicamente, o estado atual das coisas, ou a inadequação do nosso pensamento, mas representa, por outro lado, algo que é logicamente ou conceitualmente necessário; algo que nenhum desenvolvimento prático ou conceitual poderá atenuar.
Em minhas diversas interações com Reiser, nunca percebi nele dificuldade alguma em relacionar o cérebro à mente. Contudo, concordo com muito do que Edelson afirma, pois seu ponto de vista é representativo do que é compartilhado por um número surpreendentemente grande de psicanalistas, até mesmo por Freud em seus últimos escritos. Essa perspectiva, várias vezes referida como hermenêutica em oposição à visão científica da Psicanálise, reflete uma posição que tem dificultado a continuação do crescimento da Psicanálise.
Bem, a Psicanálise poderia, caso desejasse, facilmente acomodar-se nos seus lauréis hermenêuticos. Poderia continuar discorrendo sobre as notáveis contribuições de Freud e seus alunos, sobre os insights dos processos mentais inconscientes e suas motivações, que fazem com que sejamos os indivíduos complexos e singulares que somos18-26. Decerto, no contexto dessas contribuições, poucos desafiariam a posição de Freud como o maior pensador moderno da motivação humana ou negariam que nosso século tem sido permanentemente marcado pela profunda compreensão freudiana das temáticas psicológicas que ocuparam a mente ocidental desde Sófocles até Schnitzer.
Mas, se a Psicanálise se acomodar com suas descobertas passadas, permanecerá inevitavelmente, como Jonathan Lear e outros descreveram, uma filosofia da mente e a literatura psicanalítica – de Freud a Hartmann, a Erickson, a Winnicott – deveria ser lida como uma filosofia moderna ou texto poético ao lado de Platão, Shakespeare, Kant, Schopenhauer, Nietzsche e Proust. Por outro lado, se a disciplina almeja ser, como eu acredito que muitos psicanalistas o fazem, um contribuinte ativo na evolução da ciência emergente da mente, então, a Psicanálise está ficando para trás.
Dai porque eu concordo com o sentimento expresso por Lear27: “Freud está morto”. Ele morreu em 1939, após uma produção extraordinária e uma vida criativa... é importante não ficarmos fixadas nele como um sintoma rígido, seja para idolatrá-lo ou para denegri-lo.

A BIOLOGIA A SERVIÇO DA PSICANÁLISE


Meu foco neste artigo é em como a Biologia pode revigorar a exploração psicanalítica da mente. Devo dizer, de saída, que embora esboçamos o que poderia evoluir para uma significativa fundamentação biológica para a Psicanálise, estamos recém nos primórdios deste processo. Ainda não temos uma compreensão satisfatória dos complexos processos mentais. Mesmo assim, a Biologia tem feito progressos notáveis nos últimos cinquenta anos, e os passos não estão diminuindo. Como os biólogos focalizaram seus esforços na compreensão do cérebro/mente, a maior parte deles está convencida de que a mente representará para a Biologia do século XXI o que os genes representaram para a Biologia do século XX. Desta forma, François Jacob28 escreve:
“O século que está terminando preocupou-se com as proteínas e os ácidos nucleicos. O próximo se concentrará na memória e no desejo. Será ele capaz de responder às indagações?”
Minha ideia é de que a Biologia do século vindouro, está, de fato, apta a responder a algumas questões sobre memória e desejo e que estas respostas serão mais ricas e significativas se forjadas por um esforço sinérgico entre Biologia e Psicanálise. Ademais, respostas para estas questões e o próprio esforço de provê-las em conjunto com a Biologia, irá fornecer uma base mais científica para a Psicanálise.
No próximo século, é muito provável que a Biologia faça profundas contribuições para a compreensão dos processos mentais, descrevendo a base biológica dos muitos processos inconscientes, como por exemplo, do determinismo psíquico, do papel dos processos mentais inconscientes na psicopatologia e do efeito terapêutico da Psicanálise. Bem, mas a Biologia não poderá iluminar imediatamente seus profundos e centrais mistérios. Estes temas representam, juntamente com a natureza do inconsciente, os problemas mais difíceis com que a Biologia se confronta, na verdade que toda a ciência enfrenta. No entanto, já se pode esboçar as formas pelas quais a Biologia poderá, pelo menos, clarificar alguns temas psicanalíticos centrais. Aqui, eu defino oito áreas em que a Biologia poderia se unir à Psicanálise para fazer contribuições importantes:
1) A natureza dos processos mentais inconscientes;

2) A natureza da causalidade psicológica;

3) Casualidade psicológica e psicopatologia;

4) Experiência precoce e predisposição à patologia mental;

5) O pré-consciente, o inconsciente e a córtex pré-frontal;

6) Orientação Sexual;

7) A psicoterapia e as mudanças estruturais na mente;

8) A psicofarmacologia como tratamento combinado com a Psicanálise.

1. PROCESSOS MENTAIS INCONSCIENTES

É central, para a Psicanálise, a ideia de que desconhecemos muito da nossa vida mental. A maior parte do que vivenciamos, do que percebemos, pensamos, sonhamos ou fantasiamos não pode ser diretamente acessado através do pensamento consciente. Da mesma forma, não podemos explicar o que frequentemente motiva nossas ações. A ideia de processos mentais inconscientes, além de ser importante por si mesma, é decisiva para a compreensão da natureza do determinismo psíquico. Dado o papel central dos processos psíquicos inconscientes, como pode a Biologia nos ensinar a compreensão de tais processos?


Em 1954, Branda Milner29 fez a notável descoberta, a partir de estudos de H. M., um paciente com amnésia, de que o Lobo Temporal Medial e o Hipocampo medeiam o que hoje denominamos armazenamento da memória declarativa (memória explícita), que corresponde à memória consciente de pessoas, objetos e lugares. Em 1962, ela foi mais longe, descobrindo que ainda que seu paciente não se recordasse conscientemente de suas memórias recentes sobre pessoas, lugares e objetos, ele era totalmente capaz de aprender novas habilidades motoras e perceptivas (para uma revisão recente, ver 8). Esse tipo de memória, denominada memória procedural ou memória implícita, é completamente inconsciente e se evidencia somente no seu desempenho e não nas recordações conscientes.
O uso simultâneo dos dois sistemas de memória consiste mais em regra do que em exceção. Esses dois sistemas de memória se justapõem e são comumente usados em conjunto, de forma que muitas tarefas de aprendizagem requerem ambos. De fato, repetições constantes podem transformar a memória declarativa em procedural. Por exemplo, o aprendizado de dirigir um automóvel envolve primeiramente lembranças conscientes, mas, após um determinado número de repetições, o ato de dirigir toma-se automático, consistindo-se em atividade motora inconsciente. A memória procedural constitui, por si mesma, um conjunto de processos que envolve diversos sistemas cerebrais diferentes: o “priming”, ou reconhecimento de estímulos recentes, é uma função da córtex sensorial; a aquisição de estados emocionais diversificados envolve a amídala; a formação de novos hábitos motores (e talvez cognitivos) requer o neostriatum; o aprendizado de novos comportamentos motores ou atividades coordenadas depende do cerebelo. Diferentes contextos e experiências de aprendizado recrutam diferentes subgrupos desses e outros sistemas de memória de procedimentos, em combinação variável com os sistemas de memória explícita do hipocampo e de outras estruturas afins (30-31, figura 1).

Figura 1 – Taxonomia dos sistemas de memória declarativa e procedurala

a Esta taxonomia relaciona as estrutuaras e conecções cerebrais consideradas de especial importância para cada tipo de memória declarativa e não



declarativa (8, reimpressa por permissão de Cell Press
Na memória procedural, temos um exemplo biológico de um componente da vida mental inconsciente. De que forma é que esse inconsciente biológico se relaciona ao inconsciente de Freud? Em seus últimos escritos, Freud usou o conceito de inconsciente de três formas diferentes (para uma revisão das ideias de Freud sobre a consciência, ver 32). Primeiramente, ele usou o termo de uma forma especifica e estrutural para se referir ao inconsciente reprimido ou dinâmico. Este inconsciente corresponde ao que a literatura psicanalítica clássica refere como o inconsciente. Este inclui não apenas o id, como também parte do ego que contém impulsos, defesas e conflitos inconscientes, sendo, por isso, similar à dinâmica inconsciente do id. Nesse inconsciente dinâmico, as informações sobre conflitos e impulsos são impedidas de alcançar a consciência por poderosos mecanismos de defesa como a repressão.
Em segundo lugar, complementando as partes reprimidas do ego, Freud propôs que uma outra parte permanece inconsciente. Diferentemente das partes inconscientes do ego que se encontram reprimidas e, por esse motivo, assemelham-se ao inconsciente dinâmico, a parte inconsciente do ego não reprimida não está preocupada com os impulsos e conflitos inconscientes. Além disso, diferentemente do pré-consciente, essa parte inconsciente não é, de forma alguma, acessível à consciência, mesmo não estando reprimida. Desde que este inconsciente esteja relacionado a hábitos e habilidades motoras e perceptivas, ele se projeta na memória procedural. Devo, então, me referir a esta parte do inconsciente como inconsciente procedural.
Finalmente, Freud usou o termo, descritivamente, em um sentido mais amplo – pré-consciente/inconsciente – para referir-se a quase todas as atividades mentais, à maior parte dos pensamentos e memórias que alcançam a consciência. De acordo com Freud, o indivíduo não tem consciência de quase todos os processos e eventos mentais, mas pode ter pronto acesso à consciência de muitos deles através de um esforço de atenção. A partir dessa perspectiva, conclui-se que a maior parte da vida mental ocorre no plano inconsciente, podendo tornar-se consciente somente como percepções sensórias, tais como palavras e imagens.
Desses três processos mentais inconscientes, apenas o inconsciente procedural, a parte inconsciente do ego que não está em conflito ou reprimida, parece projetar-se no que os neurocientistas chamam de memória procedural (para uma maior discussão, ver p.33). Esta correspondência importante entre a Neurociência Cognitiva e a Psicanálise foi primeiramente reconhecida em um inspirado artigo de Robert Clyman34, que relacionou a memória procedural ao contexto emocional e sua relevância para a transferência e tratamento. Essa ideia foi desenvolvida mais profundamente por Louis Sander, Daniel Stern e seus colegas do Boston Process of Change Study Group35. Este grupo enfatizou que muitas das mudanças que se desenvolvem no processo terapêutico durante a análise não estão no campo da compreensão consciente e, sim, no campo dos comportamentos e conhecimentos não-verbais do inconsciente procedural. Para sintetizar essa idéia, Sander36, Stern37 e colegas desenvolveram o conceito de que há momentos de significação – que ocorrem na interação entre paciente e terapeuta – no contexto psicanalítico que representam o alcance de um novo grupo de memórias implícitas que permite, à relação terapêutica, progredir a um novo nível. Essa progressão não depende da compreensão consciente e não requer que o inconsciente se torne consciente. Ao invés disto, os momentos significantes, no entender dos autores, levam a mudanças comportamentais que aumentam o limite da ação das estratégias procedurais de ser e agir. O crescimento nessas categorias do conhecimento conduz a estratégias de ação que se refletem na forma com que a pessoa interage com outras, inclusive na transferência.
Marianne Goldbeneger38 expandiu essa linha de pensamento, enfatizando que o desenvolvimento moral também pode ser desenvolvido pelos meios procedurais. Salienta que as pessoas geralmente não se lembram, de forma consciente, das circunstâncias sob as quais assimilaram as regras morais que regem seus comportamentos; essas regras são adquiridas de forma quase automática, como as regras da gramática que regulamentam a língua nativa de qualquer pessoa.
Ilustrei a distinção entre memória procedural e declarativa, proveniente da Neurociência Cognitiva, a fim de enfatizar a utilidade, para o pensamento psicanalítico, de uma percepção fundamentalmente neurobioliológica. Além disso, sugiro que, assim como na Psicanálise, essas ideias biológicas são, até aqui, apenas ideias. O que a Biologia pode oferecer é uma oportunidade de levá-las a um passo adiante. Agora, sabemos bem mais sobre os aspectos biológicos do conhecimento procedural incluindo algumas de suas bases moleculares8.
Essa interessante convergência da Psicanálise com a Biologia na problemática da memória procedural confronta-nos com a tarefa de testar tais ideias de forma sistemática. Precisaremos examinar, a partir de ambas as perspectivas psicanalítica e biológica, a extensão dos fenômenos que agrupamos sob a rubrica de “memória procedural” e observar como eles se distribuem nos diferentes sistemas neurais. A partir disto, poderemos examinar, nos estudos comportamentais, observacionais e de imagens, em que grau diferentes comportamentos de um dado momento significante ou diferentes momentos deste tipo recrutam um ou outro subsistema anatômico da memória procedural. Conforme essas ideias vão se tornando mais claras, podemos perceber que uma das primeiras limitações do estudo sobre os processos psíquicos inconscientes foi a falta da existência de uma metodologia para a observação direta. Todos os métodos de estudo dos processos inconscientes foram indiretos. Assim, a contribuição mais importante que a Biologia pode agora fazer – com a sua habilidade de inferir sobre os processos mentais e com sua habilidade para estudar pacientes com lesões cerebrais em diferentes componentes da memória procedural – é modificar a base do estudo dos processos mentais inconscientes, desde a inferência indireta até a observação direta. Nesse sentido, poderemos ser capazes de determinar quais aspectos psicanaliticamente relevantes da memória procedural são mediados por cada um dos sistemas subcorticais envolvidos. Além disso, métodos de imagens podem nos permitir discernir que sistemas cerebrais medeiam as duas outras formas de memória inconsciente: o inconsciente dinâmico e o pré-consciente.
Antes de voltar minha atenção ao inconsciente/pré-consciente e a sua possível relação com o córtex pré-frontal, desejo considerar três outros aspectos relativos ao inconsciente procedural: sua relação com o determinismo psíquico, com os processos mentais conscientes e com as experiências precoces.

2. A NATUREZA DO DETERMINISMO PSÍQUICO: COMO DOIS EVENTOS TORNAM-SE ASSOCIADOS NA MENTE?



Na perspectiva freudiana, os processos mentais inconscientes proporcionam uma explicação para o determinismo psíquico. A ideia fundamental do determinismo psíquico é que muito pouco, ou nada, na vida psíquica de alguém, ocorre por acaso. Cada evento psíquico, não importando se declarativo ou procedural, é determinado por um evento precedente. Deslizes verbais, pensamentos aparentemente sem sentido, piadas, sonhos, e todas as imagens de cada sonho estão relacionados a acontecimentos psicológicos prévios e possuem um significado coerente com relação ao resto da vida psíquica de qualquer pessoa. O determinismo psíquico é igualmente importante na Psicopatologia. Até mesmo sintomas neuróticos, não importando o quão estranhos possam parecer ao paciente, têm um sentido na mente inconsciente relacionado a processos mentais anteriores. Estas conexões entre sintomas e processos mentais causais, ou entre imagens de um sonho e eventos relacionados, encontram-se obscurecidas pela operação de processos inconscientes dinâmicos e onipresentes.
O desenvolvimento de muitas ideias do pensamento psicanalítico e sua metodologia central, a associação livre, deriva do conceito de determinismo psíquico39. O objetivo da associação livre é obter o relato, por parte do paciente, de todos os pensamentos que passam por sua mente, impedindo que exerça sobre eles qualquer grau de censura ou direcionamento39-40. A ideia principal do determinismo psíquico é a de que qualquer fenômeno mental está causalmente relacionado a um precedente. Desta forma, Brenner40 escreveu:
Na mente, como na natureza física ao nosso redor, nada acontece fortuitamente ou por acaso. Cada acontecimento psíquico é determinado por um precedente.”
Embora não tenhamos um modelo biológico sofisticado de conhecimento psíquico explícito e declarativo, encontramos, na Biologia, um ponto de partida satisfatório para a compreensão de como as associações se desenvolvem na memória procedural (para uma revisão, ver31). Até onde os aspectos do conhecimento de procedimentos são relevantes para os momentos significativos, estes fundamentos biológicos devem provar ser úteis para o entendimento do inconsciente procedural.
Nas últimas décadas do século XIX, na mesma época em que Freud estava trabalhando em sua teoria do determinismo psíquico, Ivan Pavlov estava desenvolvendo uma abordagem empírica de um momento específico do determinismo psíquico, no nível do que hoje em dia denominamos conhecimento procedural, ou seja, a aprendizagem pela associação. Pavlov buscava a elucidação de uma característica essencial da aprendizagem que é conhecida desde a antiguidade. Pensadores ocidentais desde Aristóteles tinham inferido que o armazenamento da memória requer a associação temporal de pensamentos contínuos, um conceito posteriormente desenvolvido sistematicamente por John Locke e pelos filósofos empiristas britânicos.
O mais brilhante empreendimento de Pavlov foi o desenvolvimento de um modelo animal de aprendizado por associação que poderia ser rigorosamente estudado em laboratório. Mudando o tempo entre dois estímulos sensórios e observando os efeitos desta mudança no comportamento de reflexo simples, Pavlov (41) estabeleceu um procedimento no qual inferências razoáveis podiam ser feitas sobre como as mudanças na associação entre os dois estímulos poderiam levar a mudanças no comportamento – no aprendizado (referências recentes, ver31,42,44).
Desta forma, Pavlov desenvolveu paradigmas poderosos para o aprendizado por associação, que levaram a uma modificação permanente no estudo do comportamento, movendo-se de uma ênfase na introspecção para uma análise objetiva de estímulo-resposta. Este é exatamente o tipo de mudança que estamos buscando nas investigações psicanalíticas a respeito do determinismo psíquico. Descrevi este paradigma familiar porque desejo enfatizar três pontos relevantes para o pensamento psicanalítico. Primeiro: no aprendizado da associação entre dois estímulos, o sujeito não aprende simplesmente que um estímulo precede ao outro. Ao invés, ao aprender a associar dois estímulos, o indivíduo aprende que um vem a predizer o outro (para uma discussão deste ponto, ver44-45). Segundo, como veremos adiante, o condicionamento clássico é um paradigma soberbo para a análise de como o conhecimento pode se deslocar do plano inconsciente para o consciente46. Finalmente, o condicionamento clássico pode ser usado para

adquirir não somente respostas apetitivas como também aversivas, proporcionando-nos, assim, insights relacionados à emergência de psicopa-tologias. Agora, desenvolverei especificamente cada um destes pontos.

O DETERMINISMO PSÍQUICO DO CONDICIONAMENTO CLÁSSICO É PROBABILÍSTICO.

Por muitos anos, os psicólogos pensaram que o condicionamento clássico seguia as regras de um determinismo psíquico semelhante ao delineado por Freud. Pensavam que o condicionamento clássico dependia somente de contiguidade e de um intervalo crítico mínimo entre o estímulo condicionado e o não condicionado, de tal forma que os dois eram vivenciados como conectados. De acordo com esta perspectiva, em cada período de tempo, um estímulo condicionado é seguido de um reforço ou estímulo não condicionado. Uma conexão neural é, assim, fortalecida entre o estímulo e a resposta ou entre um estímulo e outro, até que finalmente a conexão entre os dois se torna tão forte que é possível a mudança de comportamento.


A única variável relevante determinando a força do condicionamento pensava-se ser o número de pares de estímulos condicionados e incondicionados. Em 1969, Leon Kamin47 fez o que hoje é considerado de forma geral, a descoberta empírica mais significativa no campo do condicionamento desde os primeiros achados de Pavlov, na virada do século. Kamin constatou que os animais aprendem mais do que a contiguidade: aprendem também as contingências. Eles não aprendem simplesmente que o estímulo condicionado precede o não condicionado, mas também que o estímulo condicionado prevê o estímulo não condicionado. Deste modo, a aprendizagem associativa não depende de um número crítico de pares de estímulos condicionados e não condicionados, mas do poder do estímulo condicionado de prever um não condicionado biologicamente relevante44.
Estas considerações sugerem o porquê dos animais e das pessoas adquirirem tão prontamente o condicionamento clássico. O condicionamento clássico, e talvez todas as formas de aprendizagem associativa, evoluiu filogeneticamente para capacitar o animal a distinguir acontecimentos que regularmente ocorrem juntos daqueles que estão associados somente pelo acaso. Em outras palavras, o cérebro parece ter desenvolvido um mecanismo simples que “dá sentido” a eventos do meio ambiente ao relacionar uma função preditiva a alguns desses eventos. Quais condições ambientais podem haver formado ou mantido um mecanismo comum de aprendizagem nas mais variadas espécies? Todos os animais devem ser capazes de reconhecer e evitar o perigo; eles precisam buscar gratificações como as provindas da nutrição e evitar a comida quando esta está deteriorada ou é tóxica. Uma forma efetiva de atingir esse conhecimento é adquirir a capacidade de detectar relações entre estímulos ou entre comportamentos e estímulos. É possível que, ao examinar essas relações em termos da Biologia Celular, podemos estar contemplando o mecanismo elementar do determinismo psíquico.

CONDICIONAMENTO CLÁSSICO E A RELAÇÃO ENTRE OS PROCESSOS MENTAIS PROCEDURAIS CONSCIENTES E DECLARATIVOS INCONSCIENTES

O condicionamento clássico convencional é usualmente realizado em uma forma denominada “condicionamento postergado”, em que o início do estímulo condicionado precede tipicamente o início do estímulo não condicionado por aproximadamente 500 msec, e ambos os estímulos terminam juntos (figura 2).

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