3. verão de 1910. Sabe-se que falou sobre elas e sobre todo o tema da paranóia durante sua viagemà Sicília, com Ferenczi, em setembro desse ano



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  • 1. O caso Schereber, artigos sobre técnica e outros trabalhos VOLUME XII (1911-1913)

  • 2. Dr. Sigmund Freud NOTAS PSICANALÍTICAS SOBRE UM RELATO AUTOBIOGRÁFICO DE UM CASO DE PARANÓIA (DEMENTIA PARANOIDES) (1911) NOTA DO EDITOR INGLÊS PSYCHOANALYTISCHE BEMERKUNGEN ÜBER EINEN AUTOBIOGRAPHISCHBESCHRIEBENEN FALL VONPARANOIA (DEMENTIA PARANOIDES) (a) EDIÇÕES ALEMÃS: 1911 Jb. psychoan. psychopath. Forsch., 3 (1), 9-68. 1913 S. K. S. N., 3, 198-266. (1921, 2ª ed.) 1924 G. S.., 8, 355-431. 1932 Vier Krankengeschichten, 377-460. 1943 G. W., 8, 240-316. 1912 ‘Nachtrag zu dem autobiographisch beschriebenen Fall von Paranoia (Dementia paranoides)’, Jb. psychoan. psychopath. Forsch., 3, (2), 588-90. 1913 S. K. S. N., 3, 267-70. (1921, 2ª ed.) 1924 G. S., 8, 432-5. 1932 Vier Krankengeschichten, 460-3. 1943 G. W., 8, 317-20. (b) TRADUÇÃO INGLESA: ‘Psycho-Analytic Notes upon an Autobiographical Account of a Case of Paranoia (Dementiaparanoides)’ 1925 C. P., 3, 387-466. - ‘“Pós-escrito” ao Caso de Paranóia’, ibid., 467-70. (Trad. deAlix e James Strachey.) A presente tradução inglesa constitui reedição da publicada em 1925, algumas correções enotas adicionais. As Memórias de Schreber foram publicadas em 1903; mas, embora houvessem sidoamplamente debatidas em círculos psiquiátricos, só parecem ter atraído a atenção de Freud no

  • 3. verão de 1910. Sabe-se que falou sobre elas e sobre todo o tema da paranóia durante sua viagemà Sicília, com Ferenczi, em setembro desse ano. No retorno a Viena, começou a escrever o artigo,cujo término foi anunciado a Abraham e Ferenczi em cartas datadas de 16 de dezembro. Nãoparece ter sido publicado até o verão de 1911. O ‘Pós-escrito’ foi lido perante o Terceiro CongressoPsicanalítico Internacional (realizado em Weimar), em 22 de setembro de 1911, e publicado noinício do ano seguinte. Freud atacara o problema da paranóia numa fase muito prematura de suas pesquisas empsicopatologia. Em 24 de janeiro de 1895, alguns meses antes da publicação dos Estudos sobre aHisteria, enviou a Fliess longo memorando sobre o assunto (Freud, 1950a, Rascunho H). Esteincluía uma breve história clínica e um exame teórico que visava a estabelecer dois pontosprincipais: que a paranóia é uma neurose de defesa e que seu mecanismo principal é a projeção.Quase um ano depois (em 1º de janeiro de 1896), enviou a Fliess outra nota, muito mais breve,sobre paranóia, parte de um relato geral sobre as ‘neuroses de defesa’ (ibid., Rascunho K), quepouco depois ampliou em seu segundo trabalho publicado com aquele título (1896b). Nessapublicação, a Seção II incluía outra história clínica, mais extensa, intitulada ‘Análise de um Caso deParanóia Crônica’, caso para o qual Freud (em nota de rodapé acrescentada quase 20 anosdepois) preferiu o diagnóstico corrigido de ‘dementia paranoides’. Com referência à teoria, essetrabalho de 1896 pouco acrescentava às suas sugestões anteriores; mas, numa carta a Fliess nãomuito posterior (9 de dezembro de 1899, Freud, 1950a, Carta 125), há um parágrafo um tantocrítico, que prenuncia considerações posteriores de Freud, inclusive a sugestão de que a paranóiaacarreta o retorno a um auto-erotismo primitivo. Este parágrafo é transcrito na íntegra na Nota doEditor Inglês ao artigo sobre ‘A Disposição à Neurose Obsessiva’, com relação ao problema da‘escolha da neurose’. (Ver a partir de [1].). Entre a data desta última passagem e a publicação da história clínica de Schreber, mais dedez anos se passaram quase sem haver menção à paranóia nos escritos publicados de Freud.Informam-nos Ernest Jones (1955, 281), contudo, que em 21 de novembro de 1906 ele apresentouum caso de paranóia feminina perante a Sociedade Psicanalítica de Viena. Nessa data,aparentemente ainda não havia chegado ao que deveria ser sua generalização principal sobre oassunto, a saber, a vinculação existente entre paranóia e homossexualismo passivo reprimido. Nãoobstante, pouco mais de um ano mais tarde, apresentava esta hipótese em cartas a Jung (27 dejaneiro de 1908) e Ferenczi (11 de fevereiro de 1908), dela pedindo e recebendo confirmação.Mais de três anos se passaram antes que as memórias de Schreber lhe oferecessem aoportunidade de publicar sua teoria pela primeira vez e de apoiá-la em um relato detalhado de suaanálise dos processos inconscientes em ação na paranóia. Há várias referências a essa enfermidade nos escritos posteriores de Freud. As maisimportantes foram seu artigo sobre ‘Um Caso de Paranóia que Contraria a Teoria Psicanalítica daDoença’ (1915f), e a Seção B de ‘Alguns Mecanismos Neuróticos no Ciúme, na Paranóia e noHomossexualismo’ (1922b). Além disso, ‘Uma Neurose Demonológica do Século XVII’ (1923d)

  • 4. inclui um exame do caso Schreber, embora a neurose, que é o tema do trabalho, em parte algumaseja descrita por Freud como paranóia. Em nenhum desses escritos posteriores há qualquermodificação essencial dos pontos de vista sobre paranóia expressos no presente trabalho. A importância da análise de Schreber, contudo, de maneira alguma se restringe à luz quelança sobre o problema da paranóia. A terceira parte, especialmente, foi, sob muitos aspectos,assim como o breve artigo simultaneamente publicado sobre os dois princípios do funcionamentomental (1911b), ver em [1], precursora dos artigos metapsicológicos a que Freud se dedicou, trêsou quatro anos mais tarde. Expuseram-se vários temas que posteriormente deveriam serexaminados mais detalhadamente. Assim, as observações sobre narcisismo (Ver a partir de [1].)antecederam o artigo dedicado a este tema (1914c), a descrição do decurso de alguns anos(1915d), e o exame dos instintos (ver em [2]) preparava terreno para um estudo mais elaborado em‘os Instintos e suas Vicissitudes’ (1915c). Já o parágrafo sobre projeção (ver em [3]), apesar depromissor, não encontraria nenhuma seqüência. Cada um dos dois tópicos examinados na últimaparte do trabalho, contudo - as diversas causas do desencadeamento da neurose (inclusive oconceito de ‘frustração’) e o papel desempenhado por ‘pontos de fixação’ sucessivos - deveria sertratado antes que decorresse muito tempo, em artigos separados (1912c e 1913f). Finalmente, nopós-escrito, encontramos a primeira rápida excursão de Freud pelo campo da mitologia e aprimeira menção aos totens, que estavam começando a ocupar seus pensamentos e deveriamfornecer o título para uma de suas obras principais (1912-13). Como Freud nos diz (Ver em [1].), sua história clínica faz uso apenas de um único fato (aidade de Schreber à época em que caiu enfermo) que não se achava contido nas Memórias.Possuímos hoje, graças a um trabalho escrito pelo Dr. Franz Baumeyer (1956), certa quantidadede informações adicionais. O Dr. Baumeyer esteve por alguns anos (1946-9) encarregado de umhospital situado perto de Dresden, onde encontrou alguns dos registros clínicos originais dassucessivas doenças de Schreber. Resumiu estes registros e citou muitos deles na íntegra. Alémdisso, coligiu grande número de fatos relacionados à história familiar e aos antecedentes deSchreber. Toda vez que esse material for importante para o trabalho de Freud, será mencionadonas notas de rodapé. Neste momento, é necessário apenas relatar a seqüência à história narradanas Memórias. Após sua alta, em fins de 1902, Schreber parece terlevado uma existênciaexteriormente normal por alguns anos. Então, em novembro de 1907, a esposa teve uma crise deparalisia (embora vivesse até 1912), o que parece ter precipitado novo desencadeamento de suaenfermidade. Foi novamente internado - agora num asilo situado no distrito de Dösen em Leipzig -duas semanas mais tarde. Ali permaneceu, em estado extremamente perturbado e muito intratável,até sua morte, após deterioração física gradativa, na primavera de 1911 - pouco tempo apenasantes da publicação do trabalho de Freud. O seguinte quadro cronológico, baseado em dadosderivados, parte das Memórias e parte do material de Baumeyer, pode tornar os pormenores doestudo de Freud mais fáceis de desemaranhar.

  • 5. 1842 25 de julho. Daniel Paul Schreber nasce em Leipzig. 1861 Novembro. Morre-lhe o pai, com 53 anos de idade. 1877 O irmão mais velho (3 anos mais) morre com 38 anos. 1878 Casamento. Primeira Doença 1884 Outono. Apresenta-se como candidato ao Reichstag. 1884 Outubro. Passa algumas semanas no Asilo de Sonnenstein. 8 de dezembro. Clínica Psiquiátrica de Leipzig. 1885 1º de junho. Alta. 1886 1º de janeiro. Toma posse no Landgericht de Leipzig. Segunda Doença 1893 Junho. É informado da nomeação próxima para o Tribunal de Apelação. 1º de outubro. Toma posse como juiz presidente. 21 de novembro. É internado novamente na Clínica de Leipzig. 1894 14 de junho. É transferido para o Asilo de Lindenhof. 29 de junho. É transferido para o Asilo de Sonnenstein. 1900-1902 Escreve as Memórias e impetra ação judicial para ter alta. 1902 14 de julho. Decisão judicial de alta. 1903 Publicação das Memórias. Terceira Doença 1907 Maio. Morre-lhe a mãe, com 92 anos de idade. 14 de novembro. A esposa tem uma crise de paralisia. Cai enfermo imediatamente após. 27 de novembro. É admitido no Asilo, em Leipzig-Dösen. 1911 14 de abril. Morte. 1912 Maio. Morre a esposa, com 54 anos de idade. Uma nota sobre os três hospitais psiquiátricos a que se faz menção, de várias maneiras,no texto, também pode ser útil. (1) Clínica Psiquiátrica (departamento de pacientes internados) da Universidade deLeipzig. Diretor: Professor Flechsig. (2) Schloss Sonnenstein. Asilo Público Saxônico em Pirna sobre o Elba, dez milhas acimade Dresden. Diretor: Dr. G. Weber. (3) Asilo Particular Lindenhof. Perto de Coswig, onze milhas a noroeste de Dresden.Diretor: Dr. Pierson. Uma tradução inglesa das Denkwürdigkeiten, de autoria da Dra. Ida Macalpine e do Dr.Richard A. Hunter, foi publicada em 1955 (Londres, William Dawson). Por diversas razões,

  • 6. algumas das quais serão evidentes a quem quer que compare sua versão com a presentetradução inglesa, não foi possível fazer uso dela para as muitas citações do livro de Schreber queocorrem na história clínica. Há dificuldades específicas em traduzir as produções dosesquizofrênicos, nas quais as palavras, como o próprio Freud apontou em seu artigo sobre ‘OInconsciente’ (Ver a partir de [1], 1974), desempenham papel tão predominante. Aqui o tradutor sedefronta com os mesmos problemas que tão amiúde encontra em sonhos, lapsos de língua echistes. Em todos esses casos, o método adotado na Standard Edition é o método prosaico de,onde necessário, fornecer as palavras originais alemãs em notas de rodapé e procurar, mediantecomentários explicativos, oferecer ao leitor [inglês] oportunidade para formar opinião própria sobreo material. Ao mesmo tempo, seria enganoso desprezar inteiramente as formas exteriores e,através de uma tradução puramente literal, apresentar um retrato inculto do estilo de Schreber.Uma das características notáveis do original é o contraste que perpetuamente oferece entre asfrases complicadas e elaboradas do alemão oficial acadêmico do século XIX e as extravagânciasoutré dos eventos psicóticos que descrevem. Informações adicionais interessantes sobre o pai deSchreber podem ser encontradas em Niederland, W. G. (1959a) e (1959b). Por todo o trabalho, os números entre colchetes sem serem precedidos por ‘p.’ constituemreferências às páginas da edição alemã original das memórias de Schreber - Denkwürdikeiteneines Nervendranken, Leipzig, Oswald Mutze. Números entre colchetes precedidos por ‘p.’ são,como sempre acontece na Standard Edition, referências a páginas do presente volume. INTRODUÇÃO A investigação analítica da paranóia apresenta dificuldades para médicos que, como eu,não estão ligados a instituições públicas. Não podemos aceitar pacientes que sofram destaenfermidade, ou, de qualquer modo, mantê-los por longo tempo, visto não podermos oferecertratamento a menos que haja alguma perspectiva de sucesso terapêutico. Somente emcircunstâncias excepcionais, portanto, é que consigo obter algo mais que uma visão superficial daestrutura da paranóia - quando, por exemplo, o diagnóstico (que nem sempre é questão simples) éincerto o bastante para justificar uma tentativa de influenciar o paciente, ou quando, apesar de umdiagnóstico seguro, submeto-me aos rogos de parentes do paciente e encarrego-me de tratá-lo poralgum tempo. Independente disto, naturalmente, vejo muitos casos de paranóia e de demênciaprecoce e aprendo sobre eles tanto quanto outros psiquiatras o fazem a respeito de seus casos;mas em geral isso não é suficiente para levar a quaisquer conclusões analíticas. A investigação psicanalítica da paranóia seria completamente impossível se os própriospacientes não possuíssem a peculiaridade de revelar (de forma distorcida, é verdade) exatamenteaquelas coisas que outros neuróticos mantêm escondidas como um segredo. Visto que osparanóicos não podem ser compelidos a superar suas resistências internas e desde que, dequalquer modo, só dizem o que resolvem dizer, decorre disso ser a paranóia um distúrbio em que

  • 7. um relatório escrito ou uma história clínica impressa podem tomar o lugar de um conhecimentopessoal do paciente. Por esta razão, penso ser legítimo basear interpretações analíticas na históriaclínica de um paciente que sofria de paranóia (ou, precisamente, de dementia paranoides) e aquem nunca vi, mas que escreveu sua própria história clínica e publicou-a. Refiro-me ao doutor em Direito Daniel Paul Schreber, anteriormente Senatspräsident emDresden, cujo livro. Denkwürdigkeiten eines Nervenkranken [Memórias de um Doente dos Nervos],foi publicado em 1903, e, se estou corretamente informado, despertou considerável interesse entreos psiquiatras. É possível que o Dr. Schreber viva ainda hoje e que se tenha distanciado de talforma do sistema delirante que apresentou em 1903 que possa sentir-se magoado por estas notasa respeito do seu livro. Contudo, na medida em que ele ainda se identifique com sua personalidadeanterior, posso apoiar-me nos argumentos com que ele próprio - ‘homem de dotes mentaissuperiores e contemplado com agudeza fora do comum, tanto de intelecto quanto de observação’ -contraditou os esforços levados a efeito visando a coibi-lo de publicar suas memórias: “Não tiveproblemas’, escreve ele, “em fechar os olhos às dificuldades que pareciam jazer no caminho dapublicação, e, em particular, à preocupação de render devida consideração às suscetibilidades dealgumas pessoas ainda vivas. Por outro lado, sou de opinião que poderia ser vantajoso tanto paraa ciência quanto para o reconhecimento de verdades religiosas se, durante meu tempo de vida,autoridades qualificadas pudessem encarregar-se de examinar meu corpo e realizar pesquisassobre minhas experiências pessoais. Todos os sentimentos de caráter pessoal devem submeter-sea esta ponderação. Declara ele, em outra passagem, que decidira se ater à sua intenção depublicar o livro, mesmo que, em conseqüência, seu médico, o Geheimrat Dr. Flechsig, de Leipzig,movesse uma ação contra ele. Atribui ao Dr. Flechsig, porém, as mesmas considerações que lheatribuo agora. ‘Confio’, diz ele, ‘que mesmo no caso do Geheimrat Prof. Dr. Flechsig, quaisquersuscetibilidades pessoais serão sobrepujadas por um interesse científico no contexto geral deminhas memórias.’ (446.) Embora todas as passagens das Denkwürkdigkeiten nas quais minhas interpretações sebaseiam sejam citadas literalmente nas páginas seguintes, solicitaria a meus leitores tornarem-sefamiliarizados com o livro, lendo-o pelo menos uma vez, de antemão. I - HISTÓRIA CLÍNICA ’Duas vezes sofri de distúrbios nervosos’, escreve o Dr. Schreber, ‘e ambas resultaram deexcessiva tensão mental. Isso se deveu, na primeira ocasião, à minha apresentação comocandidato à eleição para o Reichstag, enquanto era Landgerichtsdirektor em Cheminitz, e, nasegunda, ao fardo muito pesado de trabalho que me caiu sobre os ombros quando assumi meusnovos deveres como Senatspräsident no Oberlandesgericht em Dresden.’(34.) A primeira doença do Dr. Schreber começou no outono de 1884; em fins de 1885 achava-se completamente restabelecido. Durante este período, passou seis meses na clínica de Flechsig,

  • 8. que, em relatório formal redigido posteriormente, descreveu o distúrbio como sendo uma crise degrave hipocondria [379]. O Dr. Schreber assegura-nos que a moléstia seguiu seu curso ‘sem aocorrência de quaisquer incidentes que tocassem as raias do sobrenatural.’ (35.) Nem a própria descrição do paciente, nem os relatórios médicos impressos no final de seulivro dizem-nos o suficiente sobre sua história anterior ou seus pormenores pessoais. Nem mesmotenho condições de fornecer a idade do paciente à época de sua enfermidade, embora a elevadaposição judiciária que havia atingido antes da segunda doença estabeleça uma espécie de limiteinferior. Sabemos que o Dr. Schreber já estava casado há muito tempo, antes da época de sua‘hipocondria’. ‘A gratidão de minha esposa’, escreve ele, ‘foi talvez ainda mais sincera, poisreverenciava o Professor Flechsig como o homem que lhe havia restituído o marido; daí ter ela,durante anos, mantido o retrato dele sobre a escrivaninha.’ E, no mesmo lugar: ‘Após merestabelecer da primeira doença, passei oito anos com minha esposa - anos, em geral, de grandefelicidade, ricos de honrarias exteriores e nublados apenas, de vez em quando, pela contínuafrustração da esperança de sermos abençoados com filhos.’ Em junho em 1893, ele foi informado de sua provável indicação para Senatspräsident, eassumiu o cargo a 1º de outubro do mesmo ano. Entre estas duas datas tivera alguns sonhos,embora só mais tarde viesse a lhes atribuir qualquer importância. Sonhou duas ou três vezes que oantigo distúrbio nervoso retornara e isto o tornou tão infeliz no sonho, quanto a descoberta de serapenas um sonho fê-lo feliz ao despertar. Além disso, certa vez, nas primeiras horas de manhã,enquanto se achava entre o sono e a vigília, ocorreu-lhe a idéia de que, ‘afinal de contas, deve serrealmente muito bom ser mulher e submeter-se ao ato da cópula’. (36.) Tratava-se de idéia queteria rejeitado com a maior indignação, se estivesse plenamente consciente. A segunda enfermidade manifestou-se em fins de outubro de 1893, com um torturanteacesso de insônia, forçando-o a retornar à clínica Flechsig, onde, porém, sua condição piorourapidamente. O curso ulterior da moléstia é descrito em Relatório redigido subseqüentemente [em1899] pelo diretor do Asilo Sonnenstein: ‘No início de seu internamento ali, expressava mais idéiashipocondríacas, queixava-se de ter um amolecimento do cérebro, de que morreria cedo etc. Masidéias de perseguição já surgiam no quadro clínico, baseadas em ilusões sensórias que, contudo,só pareciam aparecer esporadicamente, no início, enquanto, ao mesmo tempo, um alto grau dehiperestesia era observável - grande sensibilidade à luz e ao barulho. Mais tarde, as ilusões visuaise auditivas tornaram-se muito mais freqüentes e, junto com distúrbios cenestésicos, dominavam atotalidade de seu sentimento e pensamento. Acreditava estar morto e em decomposição, quesofria de peste; asseverava que seu corpo estava sendo manejado da maneira mais revoltante, e,como ele próprio declara até hoje, passou pelos piores horrores que alguém possa imaginar, etudo em nome de um intuito sagrado. O paciente estava tão preocupado com estas experiênciaspatológicas, que era inacessível a qualquer outra impressão e sentava-se perfeitamente rígido eimóvel durante horas (estupor alucinatório). Por outro lado, elas o torturavam a tal ponto, que eleansiava pela morte. Fez repetidas tentativas de afogar-se durante o banho e pediu que lhe fosse

  • 9. dado o “cianureto que lhe estava destinado”. Suas idéias delirantes assumiram gradativamentecaráter místico e religioso; achava-se em comunicação direta com Deus, era joguete de demônios,via “aparições miraculosas”, ouvia “música sagrada”, e, no final, chegou mesmo a acreditar queestava vivendo em outro mundo.’ (380.) Pode-se acrescentar que havia certas pessoas por quem pensava estar sendo perseguidoe prejudicado, e a quem dirigia vitupérios. A mais proeminente delas era seu médico anterior,Flechsig, a quem chamava de ‘assassino da alma’; e costumava gritar repetidas vezes: ‘PequenoFlechsig!’, dando nítida ênfase à primeira palavra (383.). Foi removido para Leipzig e, após breveintervalo passado noutra instituição, foi trazido em junho de 1894 para o Asilo Sonnenstein, pertode Pirna, onde permaneceu até que o distúrbio assumiu o aspecto final. No decorrer dos anosseguintes, o quadro clínico alterou-se de maneira que pode ser mais bem descrita pelas palavrasdo Dr. Weber, diretor do asilo. ‘Não preciso me aprofundar nos pormenores do curso da doença. Devo, contudo, chamara atenção para a maneira pela qual, à medida que o tempo passava, a psicose inicialcomparativamente aguda, que havia envolvido diretamente toda a vida mental do paciente emerecia o nome de “insanidade alucinatória”, desenvolveu-se cada vez mais claramente (quasepoder-se-ia dizer cristalizou-se) até o quadro clínico paranóico que temos hoje diante de nós.’(385). Aconteceu que, por um lado, ele havia desenvolvido uma engenhosa estrutura delirante, naqual temos toda razão de estar interessados, ao passo que, por outro, sua personalidade forareconstruída e agora se mostrava, exceto por alguns distúrbios isolados, capaz de satisfazer asexigências da vida cotidiana. O Dr. Weber, em seu Relatório de 1899, faz as seguintes observações: ‘Assim, pareceque, no momento, independentemente de certos sintomas psicomotores óbvios, que não podemdeixar de impressionar como patológicos mesmo o observador superficial, Herr SenatspräsidentDr. Schreber não apresenta sinais de confusão ou de inibição psíquica, nem sua inteligência seacha notadamente prejudicada. Sua mente é calma, a memória excelente, tem à disposiçãoestoque considerável de conhecimentos (não somente sobre questões jurídicas, mas em muitosoutros campos) e é capaz de reproduzi-los numa seqüência vinculada de pensamento. Interessa-se em acompanhar os acontecimentos do mundo da política, da ciência, da arte etc. e ocupa-seconstantemente com tais assuntos… e um observador desinformado sobre sua condição geraldificilmente notaria algo de peculiar nesses procedimentos. Apesar disso tudo, entretanto, opaciente acha-se repleto de idéias de origem patológica, que se constituíram num sistemacompleto; são mais ou menos fixas e parecem inacessíveis à correção por meio de qualquerapreciação e juízo objetivos dos fatos externos.’ (385-6.) Assim, o estado do paciente experimentava grande mudança e ele agora se consideravacapaz de levar existência independente. Por conseguinte, adotou as medidas apropriadas pararetomar o controle de seus próprios assuntos e assegurar sua alta do asilo. O Dr. Weber dispôs-sea impedir a realização destas intenções e redigiu relatórios contrários a elas. Não obstante, em seu

  • 10. Relatório datado de 1900, sentiu-se obrigado a dar esta descrição apreciativa do caráter e condutado paciente: ‘Visto que, durante os últimos nove meses, Herr Präsident Schreber fez suas refeiçõesdiariamente em minha mesa familiar, tive as mais amplas oportunidades de conversar com elesobre todos os tópicos imagináveis. Qualquer que fosse o assunto em debate (exceto,naturalmente, suas idéias delirantes), concernente a acontecimentos no campo da administração edo direito, da política, da arte, da literatura e da vida social - em resumo, qualquer que fosse otópico, o Dr. Schreber mostrava interesse vivaz, mente bem informada, boa memória e julgamentosólido; ademais, era impossível não endossar sua concepção ética. Também, em conversa maissuperficial com as senhoras da reunião, era tão cortês quanto afável, e, ao aflorar assuntos demaneira mais jocosa, invariavelmente demonstrava tato e decoro. Nem uma só vez, durante essasconversas inocentes à mesa de jantar, introduziu ele assuntos que mais apropriadamente seriamlevantados numa consulta médica.’ (397-8.) Na verdade, em determinada ocasião durante esteperíodo, quando surgiu uma questão de negócios que envolvia os interesses de toda a sua família,tomou parte nela de um modo que demonstrava tanto conhecimento técnico quanto senso comum(401 e 510). Nas numerosas solicitações aos tribunais, através das quais o Dr. Schreber esforçou-sepor recobrar a liberdade, não repudiou de modo algum seus delírios ou fez qualquer segredo daintenção de publicar as Denkwürdigkeiten. Pelo contrário, estendeu-se sobre a importância de suasidéias para o pensamento religioso e sua invulnerabilidade aos ataques da ciência moderna; mas,ao mesmo tempo, dava ênfase à ‘absoluta inocuidade’ (430) de todas as ações que, como se davaconta, seus delírios obrigavam-nos a realizar. Na verdade, tais eram sua perspicácia e a forçaconvincente de sua lógica, que finalmente, e apesar de ser ele paranóico reconhecido, seusesforços coroaram-se de sucesso. Em julho de 1902, os direitos civis do Dr. Schreber foramrestabelecidos e, no ano seguinte, suas Denkwürdigkeiten eines Nervenkranken apareceram,embora censuradas e com muitas partes valiosas omitidas. A decisão judicial que devolveu ao Dr. Schreber a liberdade resume a essência de seusistema delirante em poucas frases: ‘Acreditava que tinha a missão de redimir o mundo e restituir-lhe o estado perdido de beatitude. Isso, entretanto, só poderia realizar se primeiro setransformasse de homem em mulher.’ (475.) Para uma descrição mais pormenorizada de seus delírios, tal como apareceram em suaforma final, podemos recorrer ao Relatório de 1899 do Dr. Weber: ‘O ponto culminante do sistemadelirante do paciente é a sua crença de ter a missão de redimir o mundo e restituir à humanidade oestado perdido de beatitude. Foi convocado a essa tarefa, assim assevera, por inspiração direta deDeus, tal como aprendemos que foram os Profetas; pois os nervos, em condições de grandeexcitação, assim como os seus estiveram por longo tempo, têm exatamente a propriedade deexercer atração sobre Deus - embora isso signifique tocar em assuntos que a fala humana mal écapaz de expressar, se é que o pode, visto jazerem inteiramente fora do raio de ação daexperiência humana e, na verdade, terem sido revelados somente a ele. A parte mais essencial de
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