1. Rádio 1 Implantação



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1. Rádio
1.1 Implantação
O rádio nasceu com o propósito de efetuar comunicação bidirecional entre duas pessoas distantes que necessitam trocar informações. Somente em 1916 que ele passou a se tornar meio de comunicação massiva unidirecional (GIL, 1994, p. 35-36, apud Ferraretto, 2001, p. 88). Segundo Ferraretto (2001, p. 86), este episódio ocorreu 10 anos após o desenvolvimento da estrutura básica da transmissão em amplitude modulada, realizada pelo canadense Reginald Fessenden.

A primeira radiodifusão sonora ocorreu nos EUA, no início do século XX, por volta de 1904 a 1906, quando era desenvolvido a válvula amplificadora, que estabilizava o fluxo dos sinais eletromagnéticos. Este período, portanto, marca a primeira transmissão de som sem fio. Contudo, não se pode estabelecer este episódio como marco da implantação do rádio. É preciso levar em consideração os processos de transmissão de som através de aparelhos com fios, como o telégrafo e a telefonia, que antecedem a radiodifusão. O rádio foi enquadrado na legislação de telefonia e de telegrafia sem fios até 1931 (FERRARETTO, 2001). “A obtenção da tecnologia necessária para transmitir sons usando ondas eletromagnéticas não significa o surgimento do rádio” (FERRARETTO, 2001, p. 88). Antes de evoluir para o rádio, a tecnologia da transmissão de sons através de ondas eletromagnéticas modernizou a telegrafia e a telefonia, fazendo nascer a radiotelegrafia e a radiotelefonia.

Já no Brasil, segundo Ferraretto (2001, p. 93-94), a primeira radiodifusão ocorreu no dia 7 de setembro de 1922 (dia da independência do País), durante a Exposição Internacional do Rio de Janeiro.

O rádio teve seu apogeu entre 1940 a 1955, período caracterizado como época de ouro e do rádio espetáculo. O sucesso foi puxado principalmente pelos programas de entretenimento, envolvendo as diretrizes de radionovelas, de programas humorísticos e de auditório. Já o formato de radiojornalismo teve seu destaque a partir da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Tanto no Brasil como no mundo, a decadência do rádio foi marcada pelo surgimento da televisão, com duração de 1955 a 1970. O novo veículo chega ao Brasil na década de 50 do século XX. De início, não afetou tanto o público do rádio pelo fato de ser cara. Um receptor custava 9 mil cruzeiros. (FERRARETTO, 2001). Mas o rádio conseguiu sobreviver à crise e perdura até os dias de hoje, se remodelando a atingindo novos públicos.


1.2 Características gerais
As principais características do rádio, segundo Ortriwano (1985, p. 78-81), são: linguagem oral, penetração, mobilidade tanto na perspectiva do emissor quanto na do receptor, baixo custo, imediatismo, instantaneidade, sensorialidade e autonomia.

Pontuar as características do rádio também significa estruturar os atributos pertencentes aos profissionais deste meio. De acordo com McLeish (2001, p. 15), o locutor tem a capacidade de informar, educar, entreter, fazer propaganda e persuadir. Sendo as locuções comerciais com tons persuasivos, enquanto os conteúdos jornalísticos se estruturam com conotações informativas (FERRARETTO, 2001, p. 314).

O profissional deve obedecer alguns requisitos para ter resultado satisfatório em seu exercício. Para Ferraretto (2001, p. 311), um bom locutor deve: “entender o conteúdo, interpretar o texto, transferir as informações, medir o ritmo, matizar, ser natural, convencer e concluir bem a leitura.”

O autor Faus Belau (p. 205 apud Ortriwano 1985, p. 82) ressalta que a boa mensagem radiofônica está ligada à fatores da claridade, da compreensibilidade, da adequação à emissão, da audibilidade e dos tipos de recepção radiofônica. Este último, por sua vez, é ramificado por Abraham Moles (1964, p. 17 apud Ortriwano 1985, p. 82) em quatro tipos clássicos: ambiental, companhia, atenção concentrada e seleção intencional.

Já para Belau (p. 202-204 apud Ortriwano 1985, p. 81-82), a boa recepção da mensagem precisa levar em conta: o caráter imediato da emissão do conteúdo; os elementos que compõem a mensagem – como palavras, músicas e efeitos sonoros –; a capacidade física auditiva e o receptor que depende também de condicionamento tecnológico para ouvir a mensagem. O autor Alves (2005, p. 164) lembra que é preciso estar sempre atento ao fato de que o texto radiofônico é direcionado para leitura – por parte do locutor – e para audição – por parte do ouvinte. Sobretudo, é preciso manter um tom interpessoal e informal, sendo postas de forma direta e objetiva.
1.3 As peculiaridades do rádio
A estrutura radiofônica possibilita maior acessibilidade à informação se comparado a outros meios de comunicação. Não é para tanto que Ortriwano (1985, p. 78) denomina o rádio como um veículo de comunicação de massa, assim sendo o “mais popular e o de maior alcance público”. Esta perspectiva, ainda de acordo com a autora, não é apenas predominante no Brasil, mas no mundo inteiro. A autora defende que a vasta acessibilidade do rádio se dá principalmente por motivos geográficos, econômicos e culturais. O aspecto geográfico está estritamente ligado à tecnologia, que inclui os receptores transistorizados, circulado no mercado norte-americano a partir de 1952. Em âmbito econômico se destaca o baixo custo na aquisição do produto e no consumo de informações. E na esfera cultural está a propagação do seu uso.

O autor McLeish (2001, p. 15) destaca a acessibilidade do rádio para analfabetos e cegos. Levando em conta estes pontos, é possível fazer um comparativo com a televisão, pois ela faz bastante uso da palavra falada. Porém, não há garantia de que a informação será transmitida em sua totalidade, haja vista que a imagem geralmente é tida como o principal recurso informativo para a televisão, quando não, pode-se aparecer textos importantes para a compreensão da mensagem. “Com relação à televisão, o espectador também não precisa saber ler, apesar de, cada dia mais, os caracteres estarem sendo utilizados para prestar informações importantes, que escaparão ao analfabeto (ex.: nome do entrevistado, local etc)” (ORTRIWANO, 1985, p. 78).

Já no rádio, a imagem é criada a partir da voz. Enquanto a televisão se utiliza do chavão de que uma imagem vale mais que mil palavras, o rádio se utiliza de mil palavras para criar várias imagens (ORTRIWANO, 1985, p. 81). Tudo isso ocorre de forma mental. “Trata-se de um meio cego, mas que pode estimular a imaginação, de modo que logo ao ouvir a voz do locutor o ouvinte tente visualizar o que ouve, criando na mente a figura do dono da voz” (MCLEISH, 2001, p. 15).

A voz é o principal recurso do rádio, ela que irá transmitir informação e então possibilitar compreensão por parte do ouvinte. A preocupação em difundir-se ao máximo implica diretamente na construção estrutural do rádio, ou seja, no modo em que ele comunica. Este meio, assim como qualquer outro veículo, também exige técnicas na construção da informação. Para auxiliar na compreensão e efetivar o seu alcance, o rádio ganha uma linguagem própria, assim defende Ortriwano (1985, p.78) e Mário Andrade (2005, p. 115-116).


O simples problema de alcançar o maior número de pessoas, de lhes ser acessível e as convencer a todas, obrigado rádio a uma linguagem mista, complexa, de um sabor todo especial, a começar pelo ‘Amigo ouvinte’, que da linguagem dos púlpitos passou para a do rádio. (ANDRADE, 2005, p. 115)
Andrade (2005, p. 113) explica que a Diretoria Geral dos Correios e Telégrafos, por meio de uma Comissão, já se propôs a refletir e reorganizar normas de linguagens. Mas o resultado não teve conclusão com exatidão e todas as opiniões foram consideradas. Tal acontecimento deixou em xeque normas e padrões para se seguir, o que contribuiu para a caracterização do uso de uma linguagem mista no rádio. Para Andrade (2005, p 116), o rádio exige uma linguagem mais próxima do público porque tem a intenção de simpatizar e se familiarizar com os ouvintes.

O rádio adotou uma linguagem coloquial para que soasse mais próxima do ouvinte e que se direcionasse à comunidade. A intenção era fazer com que houvesse maior identificação com o assunto abordado, bem como com o próprio locutor. Essa linguagem começou a se disseminar após a chegada da televisão. Desde então, o rádio foi se direcionando para assuntos mais voltados a um público mais específico, ou seja, a regionalização e o individualismo passaram a ser as principais características no modo de comunicação deste veículo (ALVES, 2005, p. 163).


Já é muito falada nas redações de rádio a busca de linguagem coloquial, que os dicionários escolares definem como “caseira, doméstica, cotidiana, sem muita correção gramatical.” Mas dessas quatro particularidades somente as três primeiras mudaríamos ao definir a linguagem coloquial do radiojornalismo. Mudaríamos a quarta para com muita correção gramatical, pois não vemos nisso uma incompatibilidade total. Ou seja, podemos conciliar a maneira de falar do nosso, dia-a-dia com a gramática. (ALVES, 2005, p. 164)
1.4 A voz que desperta emoções
Além da escuta, o rádio também é capaz de gerar emoções no ouvinte (BARBEIRO e LIMA, 2001; VIGIL, 2003; ORTRIWANO, 1985). Só existe uma saída para se passar diferentes emoções, angulações e enquadramentos no conteúdo. Este ocorre por meio do som. Por isso ele deve ser modificado de acordo com a intenção da mensagem que se deseja transmitir, seja por meio da voz do locutor ou de recursos sonoros.

Em se tratando de acessibilidade aos deficientes visuais, do qual me proponho a enfatizar neste trabalho, vale ressaltar o aspecto sensorial mencionado por Ortriwano (1985, p. 80). A audição é o único sentido concreto presente no rádio, mas como defende McLeish (2001, p. 15), ela pode desencadear a visão por meio da imaginação. Vigil (2003, p. 163) ressalta que “No rádio só podemos contar com a voz. Nada se vê, é preciso fazer que tudo seja visto por meio desse fio de som.”

A ausência de imagem pode ascender a criatividade do público e ser o fator chave para estimular a imaginação, pois não existem bases ilustrativas, é a mente que comanda o cenário. McLeish (2001) pondera que o ouvinte tem o mecanismo de criar imagens na medida em que a voz transmite um conteúdo emocional, o que deixa o veículo com mais facilidade de criar cenários e situações diferentes (MCLEISH, 2001, p. 15). “Quem faz textos e comentários para o rádio escolhe as palavras de modo a criar as devidas imagens na mente do ouvinte e, assim fazendo, torna o assunto inteligível e a ocasião memorável” (MCLEISH, 2001, p. 16).

Ortriwano (1985, p. 80) explica que a expectativa do ouvinte vai implicar diretamente na interpretação final da informação, que é possível por meio da junção da emocionalidade nas palavras ditas e dos recursos de sonoplastia. É importante que se tenha noção das diferentes possibilidades de emitir uma mensagem neste meio. Vigil (2003, p. 164) chama este conhecimento de interpretação sonora. O autor ressalta que a boa modulação da voz também está ligada com o posicionamento corporal do locutor:


No rádio não é preciso gritar, o microfone não é surdo. Pelo contrário, é um amplificador que recolhe e salienta os melhores detalhes do som. Essa sensibilidade faz que um simples pigarro, que na conversa rotineira passaria despercebido, diante do microfone pareça um bombardeio ou terremoto. [...] É preciso falar com todo o corpo, agitar as mãos, cerrar os punhos, fazer caretas, levantar o peito, aproveitar todos os músculos para enfatizar a palavra, para entoar uma frase com raiva, pena ou desespero. (VIGIL, 2003, p. 164)
A entrevista é outro recurso emotivo. Muito usual no jornalismo, tem suas diferenças que variam de acordo com o meio do qual irá se propagar. Há quem defenda que no rádio ela pode ganhar maior relevância justamente pela capacidade de gerar emoção. “A entrevista é uma das práticas jornalísticas mais antigas. Em veículos de comunicação como o rádio, ela adquire importância ainda maior porque é capaz de transmitir o que o jornalismo impresso nem sempre consegue: a emoção” (BARBEIRO e LIMA, 2001, p. 46).
1.5 Coleta de informações
O jornalismo em sua diversa gama de atuação – rádio, impresso, internet, televisão e outras – se utiliza da entrevista como forma de obter informações. Ela pode servir de suporte, complementação e apresentação de um programa, sendo peça principal ou secundária. É muito importante para o colhimento de informações no rádio e ganha credibilidade exaltada quando apresentada ao vivo.
Através do uso das entrevistas ao vivo, a atenção do ouvinte é capturada pela valorização atribuída ao acontecimento, pela interrupção da programação e pelo acompanhamento do evento, mostrando ao público que todas as informações que ele venha a precisar e que de alguma maneira interfiram em seu cotidiano serão imediatamente disponibilizadas pela emissora. (LOPEZ, 2010, p. 72)
No rádio, o tempo é delimitado para cada programação, portanto deve-se escolher bem as partes da entrevista que entrarão no conteúdo. “Boas entrevistas são as que revelam novos conhecimentos, esclarecem fatos e marcam opiniões” (BARBEIRO e LIMA, 2001, p. 46).

Um formato de entrevista bastante utilizado no rádio é a enquete, também conhecida como vox populi. Ela consiste em colher opiniões de diferentes pessoas sobre o mesmo assunto. O repórter vai às ruas entrevistar pessoas avulsas com um gravador, devendo fazer de uma a duas perguntas. Como no produto final a voz do entrevistador não aparece, deve-se ter o cuidado em não interromper a fala do entrevistado. A base de informação da enquete não pode ser conclusiva, pois não existe uma estrutura apropriada para tal (MCLEISH, 2001, p. 123-124).


Utilizada de modo adequado, a enquete representa mais uma cor na paleta do radialista. Proporciona um contraste com o material de estúdio e, ao refletir com precisão o que as pessoas estão dizendo, ajuda o ouvinte a se identificar com a emissora, aumentando assim a credibilidade desta. (MCLEISH, 2001, p. 126)
1.6 Gêneros
Os gêneros radiofônicos podem ser distribuídos sob três perspectivas. Em primeiro plano vem o modo de produção das mensagens, em que se enquadram os gêneros mais usuais, que são: dramático, jornalístico e musical. Posteriormente tem-se a classificação sob a ótica da intencionalidade do emissor, que condiz com a perspectiva do produtor, que são: informativo, educativo, de entretenimento, participativo, cultural, religioso, de mobilização social e publicitário. Por fim, vem a segmentação dos destinatários, que reúne os gêneros direcionados à um determinado público, que são: infantil, juvenil, feminino, de terceira idade, sertanejo, urbano e sindical (VIGIL, 2003, p. 118-119).

Devido à natureza que o rádio possui em emitir notícias factuais, por ter estrutura mais viável para tal, ele tende a assumir o caráter informativo em sobreposição aos demais gêneros. É o que Lopez (2010, p. 68) explica como caráter imediato do veículo: “Entre as características centrais do rádio como meio de comunicação está o imediatismo. Por conta disso, observou-se, por muito tempo, uma predominância do gênero informativo nas grades de programação das emissoras.”


1.7 Radiojornalismo
De acordo com Lopez (2010, p. 67), as primeiras ramificações no jornalismo advieram da plataforma impressa por influência de Luiz Beltrão, que desempenhou pesquisas que interviram também no rádio. O formato informativo é uma delas, que inclusive passa a ser característica básica do gênero a partir da Segunda Guerra Mundial, quando o radiojornalismo emerge. Ortriwano (1985, p. 92-94) classifica os formatos que fazem parte dos conteúdos informativos em sete categorias: flash, edição extraordinária, especial, boletim, jornal, informativo especial, programas de variedades.

O flash se caracteriza pelas transmissões factuais, imediatas e curtas. As edições extraordinárias têm formato semelhante, mas podem ter duração mais longas. Ambas podem ser noticiadas em qualquer programação. Os programas especiais são marcados pela análise profunda de um determinado assunto. Este modelo será melhor exemplificado ao longo deste capítulo. O boletim geralmente aparece a cada meia hora ou uma hora, com três a cinco minutos de duração. Ele tem a função de noticiar os assuntos mais importantes e atuais entre cada programação. Já os jornais têm duração e periodicidade fixas, cobrem assuntos de todos os tipos e são distribuídos entre editorias. Também têm vinhetas e script bem estruturados. O formato informativo especial se assemelha ao boletim e ao jornal quanto ao conteúdo e à duração. Possui periodicidade fixa, com existência determinada de acordo com a demanda do público ou até que se acabe a evidência do assunto pautado. Já os programas de variedades trazem assuntos já esperados pela população, como pautas de serviços e tira dúvidas, sem estar necessariamente ligados à atualidade (ORTRIWANO, 1985, p. 92-94).

Segundo Vigil (2003, p. 124-125), o radiojornalismo pode ser de caráter: informativo – notícias, crônicas, biografias, boletins, entrevistas, reportagens etc. –, opinativo – comentários, debates, pesquisas, entrevistas de profundidade etc. – e investigativo – reportagem.

Para combinar os conteúdos com o formato mais eficaz é preciso dar enfoque ao público. Ele quem ditará a qualidade na medida que aceita ou rejeita determinada produção. “O formato é para o assunto, e não o assunto para o formato” (VIGIL, 2003, p. 127). Pode-se abordar qualquer conteúdo em todos os formatos, desde que o público receba positivamente de modo a compreender a verdadeira intenção da mensagem. Mas é preciso ter cautela quanto ao modo de transmissão da mensagem tanto no quesito de entonação da voz, como em recursos técnicos. Justamente pelo fato do rádio estimular a criatividade do ouvinte, deve-se ter cuidado para não dar vazão a uma compreensão errônea da mensagem.

Um episódio falho neste aspecto ocorreu quando Orson Welles fazia uso do formato informativo para narrar uma ficção, em que dizia que a Terra estava sendo invadida por marcianos. Várias pessoas acreditaram devido a credibilidade do modelo e do locutor. Como os mediadores da qualidade, que são os ouvintes, não compreenderam a ironia, o ato então foi falho, o que direciona a tendência de que não se deve misturar ficção com realidade; como bem lembra McLeish (2001, p. 191): "Fato e ficção constituem uma combinação perigosa, e os limites devem estar bem claros para o ouvinte."
1.8 Reportagem
Com o principal objetivo de informar algo, a reportagem é utilizada em todos os veículos de comunicação. Pode-se ter assuntos de todos os tipos, por isso o repórter não deve hesitar em pedir uma ajuda de um especialista no assunto abordado. O texto jornalístico deve ser “preciso, coloquial e conciso” a fim de “contar uma história simples, direta, clara, didática, objetiva, equilibrada e isenta” (BARBEIRO e LIMA, 2001, p. 41).

Prado (1985) classifica dois tipos de reportagem: simultânea e diferida. A primeira ocorre ao vivo e exige uma resposta imediata do repórter, que tem seu tempo de criação limitado para selecionar os elementos mais significativos para ir ao ar. Cabe ao repórter conduzir a matéria: “[...] a ação determina o ritmo da reportagem e é a espinha dorsal da mesma” (PRADO, 1985, p. 88). Ademais, a reportagem simultânea permite maior proximidade com o ouvinte na medida em que o som ambiente entra na programação como elemento informativo e criativo.


A grande vantagem das reportagens simultâneas é o sentido de participação nos fatos que produz no ouvinte. Este sentido vem em primeiro lugar pelo ambiente acústico ou cenário sonoro da ação, que transmite com grande riqueza de matizes o ambiente e outras amostras sonoras definidoras e insubstituível pela narração verbal. (PRADO, 1985, p. 86)
Para Barbeiro e Lima (2001), o som ambiente contribui para dar o clima do acontecimento. “As reportagens ao vivo reproduzem sempre o som ambiente. [...] Sons de carros no trânsito, chuva, buzinas, execução de uma música, refrão de torcedores e manifestantes dão colorido especial à reportagem” (BARBEIRO e LIMA, 2001, p. 41).

Mas para que o som soe familiarização e não gere ruído, é preciso ter conhecimento sobre o cenário físico em que se irá gravar. Deve ser avaliado o ambiente que tenha sons mais suaves e menos lineares, como a música, pois pode prejudicar na hora da edição, deixando cortes bruscos.

Já a reportagem diferida é mais flexível e dá maior abertura para a criatividade, pois permite montagem com antecedência. Prado (1985, p. 90) a divide em três partes: introdução – com foco em atrair a atenção do ouvinte acerca do tema –, desenvolvimento – que dará a ideia do fato central – e encerramento – com função redundante, reforçará a informação principal noticiada.

Prado (1985, p. 89) destaca o elemento facilitador em se trabalhar com este tipo de reportagem:


[...] a possibilidade de incluir intervenções produzidas e buscadas à margem daquelas provocadas pela ação ou fato central. Aqui têm espaço as opiniões dos especialistas, ou o contraste entre os afetados pelos fatos e os ausentes do acontecimento. (PRADO, 1985, p. 89)
1.9 Radiodocumentário
O presente trabalho visa dar enfoque ao formato documental, fazendo-se necessário explanar o gênero do qual ele se atrela. Trata-se, pois, da categoria jornalística. Segundo Vigil (2003, p. 124), o radiojornalismo é, antes de tudo, um gênero documental, em que “mostra-se e demonstra-se o que aconteceu. A informação apresentada deve ser verídica”. O autor Barbosa Filho (2003 apud Lopez, 2010) defende que o documentário – assim como a nota, a notícia, o boletim, a reportagem, a entrevista, o editorial e a crônica – são gêneros jornalísticos que estão inseridos nos gêneros radiofônicos.

De acordo com Pessoa (2010, p. 494-495), o radiodocumentário é escasso no Brasil, diferente da Europa, dos Estados Unidos e de alguns países da África e da Ásia. Aqui, são valorizados os modelos tradicionais de jornalismo, como os boletins, os debates e as mesas redondas. Estes formatos têm custos menores frente ao aparato do documentário, tendo em vista as apurações, que podem se proceder via internet e telefone, a pauta factual diária, e o envolvimento de um ou dois repórteres. Dorne, Santos e Gonçalves (2015, p. 240) explicam que o gênero em questão muitas vezes consegue espaço nas emissoras educativas, já que a outra opção seriam as estações comerciais, que se interessam por outros formatos.


O documentário radiofônico também não é muito comum em rádios convencionais, tanto pela complexidade da produção quanto pelo tempo em que ocupa na grade de programação, o que nem sempre o torna viável em se tratando de rádios comerciais [...]. (DORNE; SANTOS; GONÇALVES, 2015, p. 241)
O radiodocumentário exige maior aprofundamento, pesquisa e fontes diversas, devendo ser priorizada a entrevista presencial (PESSOA, 2010, p. 495). Todo esse procedimento demanda dinheiro – empregado tanto nos profissionais envolvidos como na locomoção necessária durante o processo – e tempo – que é delimitado entre as informações mais factuais. Se algo acabou de acontecer, é esperado que ele seja noticiado nas televisões e, sobretudo, nas rádios. As notícias de última hora são procedimentos constantes neste meio, o que torna o tempo fator delicado.

Os efeitos sonoros devem ser equilibrados nos documentários. McLeish (2001, p. 194) alerta que não se devem realizar reproduções que imitem sons reais. Toda a composição deve ser de fato verídica. Têm-se o trabalho de captar o som real do que se deseja transmitir.


Se quiser o som de sirenes de navio, o zumbido de um enxame de abelhas zangadas, ou crianças numa sala de aula recitando poesia, terá de fazer essas coisas acontecerem enquanto deixa o gravador ligado. Uma vez que esses sons são típicos do som verdadeiro, são reais. Mas falsificar o barulho de um evento real, por exemplo, uma manifestação violenta com pessoas atirando pedras, vidros quebrando, talvez até disparos de arma de fogo, pode facilmente desorientar o ouvinte, a não ser que seja apresentado como uma simulação. (MCLEISH, 2001, p. 194)
O aprofundamento no assunto é uma característica forte do documentário. McLeish (2001) explica que para se conseguir bom enquadramento, é preciso focar em uma das partes que compõe o assunto geral da pauta abordada:
É comum que os temas para programas se apresentem como idéias (sic) que de repente se tornam óbvias. Com frequência (sic) têm a ver com questões contemporâneas, tais como as relações raciais, o desenvolvimento urbano, a poluição e o meio ambiente, a pesquisa médica. O programa pode explorar em detalhes um único aspecto de um desses assuntos, tentando examinar em termos gerais como a sociedade enfrenta as mudanças. (MCLEISH, 2001, p. 191)
O autor McLeish (2001, p. 191) detalha outros tipos de documentário, tais quais: os que focam em uma pessoa, atividade e evento. A postura informativa prevalece em todos os subgêneros, mas além disto, é preciso entreter o ouvinte. Um recurso que ajuda neste aspecto é a inclusão de um narrador, pois coloca uma pessoa a mais na equipe e dinamiza a exposição do conteúdo. As escolhas das falas das fontes devem ser estratégicas – de modo que elas sejam mais impactantes que a do locutor – e bem sinalizadas – com apresentações antecedentes mesmo que a voz já tenha sido utilizada ao decorrer do programa. Quando não bem trabalhada, este último ponto pode se tornar um grave defeito estrutural, como enfatiza McLeish (2001):
O defeito mais comum nos documentários não diz respeito ao conteúdo mas à estrutura. Exemplos desses problemas são a “sinalização” insuficiente, a reutilização de uma voz que foi ouvida anteriormente sem repetir a identificação, ou a mudança na convenção no que se refere ao narrador ou entrevistador. (MCLEISH, 2001, p. 196)
A opção de não o utilizar um narrador também é viável, para isso, é necessária uma montagem estratégica para que o ouvinte não se perca, como por exemplo, fazer uma breve apresentação para ser dita pelo próprio entrevistado.
Há estilos de documentário que não fazem uso de links. Cada matéria flui naturalmente numa seqüência (sic), apontando para a frente, numa sobreposição inteligível. Isso não é fácil, mas em geral cria uma atmosfera mais emocionante. (MCLEISH, 2001, p. 193-194)
Outra característica do documentário, segundo Lopez (2010, p. 89) e Prado (1985, p. 94), é o aprofundamento em debates, que se dá por meio do maior detalhamento das informações. Prado (1985, p. 94) destaca o debate como uma "fórmula de apresentação da polêmica". O autor defende que a polêmica costuma ser o ponto central da discussão pautada, e no gênero em questão, ela deve priorizar o tema e não o confronto de ideias. O documentário, portanto, deve mostrar os dados que comprovam as teses levantadas no programa. Não cabe ao jornalista mostrar o seu posicionamento, ele tem de expor informações suficientes para que o ouvinte forme a sua própria opinião (PRADO, 1985, p. 94-95).

Quando ao tempo de duração dos documentários, McLeish (2001, p. 192-193) fala que geralmente eles variam de 30 minutos a uma hora. Para instruir o produtor, o autor sugere que seja escrito um briefing respondendo onde se quer chegar com o programa e o que se deseja deixar para o ouvinte. Também devem ser evidenciadas as informações principais e as fontes que serão utilizadas.


1.10 Semelhanças com os programas especiais
Como já mostrado anteriormente, os documentários são raros na programação brasileira. São poucos os autores que estudam e citam a categoria em suas pesquisas, assim defende Pessoa (2010, p. 496), que critica a pouca assistência bibliográfica na área de documentário radiofônico. Ela diz que o gênero que mais se aproxima são os programas especiais. Outros autores como Ortriwano (1985) e McLeish (2001), também admitem esta semelhança.

Para Ortriwano (1985, p. 92), são programas especiais aqueles que fazem análises aprofundadas de determinado assunto, trazendo informações textuais e sonoras, com ressalva para as entrevistas. Quanto ao teor, Ortriwano (1985, p. 93) fala que o programa especial pode ser ocasional – em situações que mereçam destaque pela relevância história – e periódico – com abordagem de fatos importantes em cada edição. Já os programas jornalísticos tradicionais, de acordo com Dorne, Santos e Gonçalves (2015, p. 241-242), vão dar prioridade ao factual enquanto que os documentais vão priorizar assuntos mais frios, mas devendo deixar bem clara a sua relevância para os dias atuais.



O documentário preza a veracidade dos fatos. Frente aos programas especiais, este é um fator determinante. Segundo Pessoa (2010, p. 496-497), os especiais permitem elementos fictícios na narrativa, podendo conter “canções folclóricas, poesias, encenações radiofônicas ou outros tipos de ilustração ficcional sobre o tema.” McLeish (2001) esclarece as características do gênero documental em contraponto ao modelo de programa especial na perspectiva da veracidade do conteúdo:
Se o produtor tem a intenção de oferecer um relato equilibrado, elaborado e verídico sobre algo ou alguém, então trata-se de um documentário. Se ele não se sente tão preso à veracidade e a intenção original é dar asas à imaginação, mesmo que o material, a fonte, seja real, trata-se de um especial. (MCLEISH, 2001, p. 191)
Em uma hierarquia de complexidade na produção e aprofundamento no conteúdo, primeiro vem o radiodocumentário e depois os programas especiais, que por suas vezes, são mais complexos que as reportagens, os boletins e outros formatos jornalísticos.


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