1. a história da Psicanálise Sigmund Freud Josef Breuer



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I – INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE
1. A História da Psicanálise



Sigmund Freud Josef Breuer
“Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação a portas fechadas e, às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas ações, dos seus propósitos e dos seus desejos."

(Padre Vieira, no Sermão de São Francisco Xavier Dormindo)


Sigmund Freud nasceu em Freiberg, na Morávia, em 1856, de família judaica. É filho do terceiro casamento de seu pai, que trabalhava no ramo de tecelagem. Aos 4 anos de idade, como os negócios do pai não iam bem, a família transfere-se para Viena. Nessa cidade, recebeu toda sua educação, ficando conhecido como o “Mestre de Viena”. O universo feminino em que viveu, com cinco irmãs, pode ter influenciado sua riquíssima e extensa obra, que tem a marca de sua neurose.

Destacou-se como aluno da escola secundária; estudioso, curioso, atento às preocupações humanas. Interessado em ciências naturais, prosseguiu estudos no campo da medicina.

Ingressou em Hospital Geral e entre os vários departamentos, o de Psiquiatria, sob a orientação de Meynert, que ele conhecia desde os tempos da escola, o impressionou bastante. No entanto, naquela oportunidade, dedicou-se à fisiologia, à anatomia cerebral e depois às doenças nervosas.

Em1878, conheceu o Dr Joseph Breuer, catorze anos mais velho, que se tornou seu amigo e incentivador, inspirando suas primeiras pesquisas no campo da Psicanálise. O Dr. Breuer pode ser aproximado à figura paterna e, inclusive, ajuda-o financeiramente em algumas situações. Foi uma grande e intensa amizade em sua vida, no entanto, seguem-se polêmicas e rompimento. Freud estava convencido de que deixaria sua marca na História; tinha autoconfiança em relação à sua carreira e ao peso de seu legado; era o único filho que tinha um quarto exclusivo para estudar. O ambiente familiar auxiliou-o bastante a ter força para seguir avante em sua carreira, quando suas idéias eram consideradas, no mínimo, polêmicas.

Em 1880, o Dr. Breuer iniciou o tratamento com Berta Pappenteim, mais conhecida como Anna O, uma das pacientes mais famosas da Psicanálise e utilizou algumas estratégias terapêuticas inovadoras, como a hipnose, (técnica terapêutica que faz com que o paciente se lembre e vá resgatando na memória algumas experiências passadas, visando, com isso, ao desaparecimento de alguns sintomas) para o tratamento da histeria, problema que afetava muitas mulheres naquela época; na maioria, jovens que alimentavam sonhos que não haviam conseguido realizar por conta da rigidez moral da época.

Após dois anos de tratamento, Breuer abandona o caso de Anna O; não dá continuidade às suas pesquisas e Freud o faz, pois se interessava profundamente pela histeria com toda a riqueza de sintomas que apresentava ao final do século XIX. Freud partiu da clínica, das relações que se estabeleciam entre ele e os pacientes, para elaborar modelos interpretativos - teorizar. Esta foi uma contribuição importantíssima à ciência  e ao campo da educação, pois o enfoque clínico tem sido utilizado no trabalho de capacitação de professores visando a auxiliá-los na reflexão sobre suas práticas.

Em 1882, Freud conhece Martha Bernays, jovem que virá a ser sua esposa em 1886.

Em 1885, segue para Salpêtrière, em Paris, na intenção de trabalhar com o neurologista Charcot. Consegue uma bolsa de estudos e faz um estágio sobre as diferentes manifestações da histeria e efeitos do tratamento hipnótico, com esse famoso e talentoso médico.


Dr. Jean Martin Charcot dando aula de hipnose na Salpêtrière


Fixou residência em Viena, em 1886 e teve acesso ao hipnotismo, instalando seu consultório, onde atendia pacientes histéricas, ora aplicando a técnica da hipnose, cujo princípio fundamental é a sugestão, ora a da pressão, na qual pressiona a fronte do paciente. Após alguns exercícios, Freud passou a acreditar que para além da hipnose poderia haver certos processos mentais que não obstante, permaneciam escondidos da consciência humana. Utilizando a hipnose, fazia perguntas às pacientes sobre a origem de seus sintomas. Acrescentou, em colaboração com Breuer, que os sintomas têm significado e são resíduos ou reminiscências de situações emocionais, porém, na maioria das vezes, tais sintomas não provinham de uma única cena traumática, mas da soma de significativa quantidade de situações similares.

Nessa época, trocava correspondência com outro amigo importante, o Dr. Fliess, otorrino alemão com o qual se vincula emocionalmente e, no início, fala de algumas de suas primeiras hipóteses que têm a ver com sua experiência na clínica. A partir dessa correspondência, fundamentam-se os alicerces da Teoria Psicanalítica.

Em 1892, Freud abandonou a técnica da hipnose e da pressão para deixar o paciente falar, pois levou em consideração que a pessoa/paciente podia aceitar ou não a sugestão. Surgiu, então, a técnica da associação livre, com a qual pedia para a paciente falar livremente tudo que lhe viesse à cabeça, sem censura, por mais estranho e absurdo que lhe parecesse. Diz que esse encadeamento leva à percepção de sobredeterminação. Mostrou que não era necessário usar a hipnose para a paciente histérica chegar ao estado que queria.

Em 1893, Freud formulou a teoria da sedução, referindo-se aos efeitos dos valores e regras sociais rígidas impostas aos filhos da sociedade dessa época.

Publicou, com Breuer, o texto "Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos", nesse mesmo ano e, em 1895, "Estudos sobre a Histeria" onde são relatados vários casos, inclusive o de Anna O; referiu a cura pela fala ou limpeza pela chaminé - método catártico. Passa a considerar a hipótese de que há uma questão sexual na histeria.

A evolução foi além do domínio da histeria, quando Freud observou que não era qualquer espécie de excitação emocional que estava por trás dos fenômenos da neurose, mas uma excitação de natureza sexual. Aqui ele tocou em pontos polêmicos, propondo idéias que dão destaque ao estudo da vida sexual, referindo-se aos efeitos dos valores e regras sociais rígidas, impostos aos filhos da sociedade dessa época.

Nesse mesmo ano, Freud analisou seu próprio sonho, que está relatado na sua obra “Interpretação dos Sonhos”, voltando para si mesmo o seu olhar de pesquisador. Para alguns estudiosos, esse é o momento inaugural da Psicanálise, pois a partir daí,  o sonho passa a ser fundamental na construção teórica e na clínica  psicanalítica. Ainda nesse ano de 1895, nasce sua filha, Anna Freud, que se torna, também, psicanalista.

Em1896, Freud fez uma conferência na Universidade de Viena sobre a etiologia sexual da histeria, colocando a hipótese de que, em sua etiologia, a histeria traz a marca sexual. Isso produziu enorme escândalo e dificultou a aceitação de Freud no meio acadêmico. É o estopim do rompimento com Breuer, que era conservador e estava inserido no grupo de cientistas. Freud se surpreende, pois achava que Breuer o apoiaria, o que colaboraria para a aceitação de sua tese.

Nesse mesmo ano de 1896, quando fez uma conferência, morre-lhe o pai, experiência das mais difíceis para o homem, após o que Freud passou a pensar em Édipo. Fazendo sua auto-análise, foi-se dando conta de que, como filho, alimentava pela mãe um amor incestuoso que só foi possível perceber após a morte do pai.

Freud tinha formação humanista muito forte; tinha uma produção intelectual intensa e por sua erudição consegue pensar em metáforas para as referidas explicações.

Por meio da mitologia, da arqueologia, foi buscando vestígios do passado na história das pessoas; por exemplo, amor incestuoso, mas inconsciente pela figura materna.

Freud mostrou que a sexualidade humana não se liga à genitalidade e que se organiza a partir de operações psíquicas. Propôs que as crianças já apresentam uma sexualidade muito diferente das outras espécies e que, na infância, não está comprometida ao órgão sexual, mas a sensações ligadas à sexualidade. Isso foi revolucionário para a época, quando se achava que a sexualidade ficava adormecida. A sexualidade humana tem basicamente uma questão que a torna diferente - é a questão da pulsão, pois nós não somos, tal como os animais, movidos por instinto, mas por pulsão, termo proposto por Freud para dar a idéia de algo que fica exatamente no limite entre o orgânico e o psíquico.

Aos poucos, Freud foi reformulando suas próprias concepções e desvendando segredos humanos. Em 1897, época do Édipo (experiência edípica de matar o próprio pai em sonho e a culpa pelo amor incestuoso), Freud ponderou que fatos que fazem parte da fantasia são muito importantes na Psicanálise.

Abandonou a teoria da sedução, dizendo não mais acreditar nos relatos de suas histéricas. Recorreu à teoria da fantasia, segundo a qual os elementos relatados na construção da história de cada paciente não faziam parte da realidade, mas, mesmo não tendo sido experiências reais, a maneira como são relatadas, tem um peso para produzir sintomas. Freud percebeu que, no momento em que a pessoa fala, seja uma experiência empírica ou fantasiosa, o valor para o analista é o mesmo; a fantasia vai revelar, de alguma forma, como é difícil para essas pacientes assumir conscientemente seus discursos de que, ao contrário, elas é que procuram  ser seduzidas. Se a primeira teoria causou tanto furor, a segunda foi menos polêmica, no entanto, a comunidade científica continuou a não aceitá-lo.

Nessa época, escrevia cerca de duas a três cartas por dia para o Dr. Fliess, independentemente das respostas. Para Freud, eram momentos de muitas questões que não haviam sido pensadas antes, como: a questão do sonho, o que é um aparelho psíquico, como ele se organiza, como se estrutura. Extremamente inventivo, produtivo, Freud passava de doze a dezesseis horas diárias em seu gabinete, atendendo pacientes e dedicando-se a estudos, pesquisas, correspondência.

1900, ano da publicação do livro “A Interpretação dos Sonhos”, deixou marcas profundas na cultura ocidental e representou a revolução paradigmática produzida por Freud, tirando o homem do centro de sua própria consciência, da mesma forma que Copérnico tirou a terra do centro do universo, Darwin tirou o homem do centro da criação e Marx tirou o homem do centro de sua própria história, dizendo que o homem é o resultado dessa história. A noção de inconsciente configura a ruptura de Freud com a epistemologia hegemônica do século XX.

Para Freud, o sonho revela como funciona o psiquismo humano e ele considerava o sonho como a via régia para o inconsciente, e também o guardião do sono e uma formação do inconsciente que está diretamente relacionada ao desejo, é um regus (semelhante a uma carta enigmática). O sonho acabou sendo uma espécie de matéria-prima privilegiada na teoria freudiana, a partir da qual o grande mestre vai aprimorando suas lições. A interpretação dos sonhos é a via de acesso ao conhecimento do inconsciente, que produz suas formações: os sonhos, os lapsos, os atos falhos, os esquecimentos, os chistes, o sintoma. Por definição, o inconsciente é inapreensível e o que dele se pode apreender são suas formações.

Com, aproximadamente, cinqüenta anos de idade e fumante inveterado, Freud desenvolveu um câncer na mandíbula, fez várias operações e teve que colocar uma prótese. Seu médico falava que, em alguns momentos, Freud pensou que tal câncer poderia estar ligado ao fato de ele lidar com os problemas de fundo psíquico, onde o que estava em questão era o inconsciente; aquilo que não podia ser manifestado e que acabava interferindo no corpo. A psicossomática é mais ou menos contemporânea a essa época, embora Freud não se tenha dedicado exclusivamente a essa questão.


No desenvolvimento de sua teoria, abandonando o método catártico, Freud mostrou a ocorrência de uma situação específica, a transferencial em que  aprofundou o uso do método da associação livre e assinalou  a ocorrência do recalque. Tal estudo levou-o a adotar o conceito do inconsciente, inicialmente compreendido como a consciência, da qual nada se conhecia. Para compreender a origem dos sintomas, Freud foi levado, cada vez mais, à história do paciente, chegando aos primeiros anos de vida, isto é, à infância. Dessa forma, descobriu a

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