À Volta dos Livros



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Sequência 2, Página 74

Programa “À Volta dos Livros”: Ana Daniela Soares conversa com Maria João Lopo de Carvalho sobre o romance Padeira de Aljubarrota.

Primeira Emissão: 02 dez 2013

Duração: 05 m
- A Padeira de Aljubarrota é a protagonista do mais recente romance histórico de Maria João Lopo de Carvalho, a protagonista ou uma das protagonistas, porque há aqui algumas mulheres com papéis muito importantes neste livro?

- É verdade e não vamos dizer que é um livro feminista, porque não é, mas as mulheres aqui são muito fortes. Para já temos as duas personagens principais que são as duas Beatrizes. Ficamos a saber que o nome Beatriz é o nome mais comum em Portugal no século 2012, no século XXI para crianças que tenham agora entre nove e dez anos. As escolas estão cheias de Beatrizes. Portanto ainda bem, porque as mães das Beatrizes vão-se sentir identificadas com estas duas e não só. Portanto, temos uma Beatriz padeira e uma Beatriz rainha. Temos uma Beatriz que representa a força do povo português e da nacionalidade e uma Beatriz que, por estratégia política, foi casada ou foi mandada casar com o rei de Espanha, D. Juan, e que foi a causa absoluta da Batalha de Aljubarrota. Portanto o que é que nós temos na Batalha de Aljubarrota naquela altura conturbada de 1385? Temos dois lados de uma batalha: o lado português, onde se identificava a nossa padeira de Aljubarrota, Brites de Almeida, e o lado castelhano com a nossa rainha Beatriz, coitadinha, aos doze anos, sabia lá ela ao que ia por parte de Castela. Portanto foi isto que eu quis explorar neste livro. Foi uma narrativa cruzada entre duas mulheres de características completamente opostas.

- Que mudaram por completo o curso da história de Portugal?

- Completamente. Mudaram completamente o curso da história de Portugal. Se não fosse aquela vitória estrondosa entre dez mil portugueses comandados pelo Nuno Álvares Pereira, a quem eu presto aqui a minha homenagem, a minha vénia. Grande comandante que tanta falta nos faz hoje. Dez mil portugueses num lado do campo de batalha, trinta mil do outro lado, do lado castelhano. E por uma boa estratégia, uma excelente motivação e muita fé os portugueses conseguiram vencer em meia hora, coisa que eu não tinha a noção, a não ser quando comecei a estudar este assunto a sério. A Batalha de Aljubarrota demorou meia hora, o que é fabuloso.

- E neste caso falamos de duas Beatrizes em todas as componentes de que é construído um ser humano, e nomeadamente de uma mulher, falamos também de amor, de sexo…

- Falamos de todos esses ingredientes, não é? Claro que fazem parte da vida e fazem parte da Idade Média. Eu acho que não falamos aqui de amor, falamos de amores, vários tipos de amor, o amor em Portugal, em primeiro que tudo. O amor fraterno, o amor amizade, o amor à mãe, ao pai, o amor quase filial que a Beatriz rainha tinha ao marido, em vez de ser um amor- amor, paixão, era um amor quase obediência, como era naquela altura. E depois temos os amores clandestinos e secretos e tudo o que se passava entre conventos, por exemplo, na Idade Média. Sabe, quando eu comecei a viajar para o passado e a viajar para a época medieval, é assustador ao princípio, porque nós achamos que a época medieval é uma época de trevas, quando não é. Eu nunca vi tanta luz como naquela altura. E tanta luz inspiradora para escrever um romance, porque, de facto, passavam-se coisas interessantíssimas: a maneira com as pessoas encaravam a fé, que foi, aliás, um dos motivos para termos ganho Aljubarrota. Achávamos, achava Nuno Álvares Pereira e fez passar essa mensagem aos seus homens que Deus estava connosco, e a razão de Deus, a razão divina estava do nosso lado e portanto não havia a menor das hipóteses de perdermos a batalha, quando Deus estava do nosso lado e isso deu-nos uma extra força, não é? Um aditivo, vá lá, suplementar, e além de uma excelente estratégia, não íamos só com fé. E portanto a importância de Deus e de qualquer coisa de misterioso e de superior que nos comandava a vida, comandava tudo e a própria justiça humana, não é? A pessoa ia para a forca, por exemplo, pelo simples facto de fazer-se passar por homem; o caso desta padeira de Aljubarrota que nós temos todos no nosso imaginário, que era uma mulher muito masculina, muito, muito musculada, muito forte, muito combativa, uma verdadeira donzela guerreira, e, no fundo, se ela se vestisse de homem, se cortasse o cabelo, se apertasse os seios, aquilo era motivo de ir à forca.

- Padeira de Aljubarrota, mulher de armas e heroína de Portugal, autoria de Maria João Lopo de Carvalho, edição da Oficina do Livro. Boas leituras.

Sequência 2, Página 76

Batalha: Mosteiro, Memória e Atualidade
Programa “A Alma e a Gente (VIII)” – Primeira emissão: 20 jul 2012

Duração: 22m

Programa da autoria de Prof. José Hermano Saraiva (pág. 76)
É o pórtico das capelas imperfeitas da Batalha. Chamam capelas imperfeitas a um Panthéon que o rei D. Duarte teve intenção de mandar construir. Não acabaram, D. Duarte, como sabem, reinou só cinco anos, morreu de peste em 1438, mas este pórtico, esta entrada ainda é do tempo dele. E o que ele mandou escrever aqui são centenas de vezes… era o seu compromisso como rei. É uma legenda que diz o seguinte:”Leauté Faray”, “Tã ya Serey” – “Eu farei justiça enquanto viver”. É um compromisso de honra do monarca ao cingir a coroa portuguesa. É preciso ter presente que a palavra lealdade vem de leal e leal vem do latim “legalis” – legal, lealdade é o mesmo que legalidade e legalidade quer dizer justiça.

Quem diz Batalha diz Mosteiro, o que não é completamente justo, porque o concelho da Batalha não é só o mosteiro. O que acontece é realmente isto, o mosteiro é tão importante que, a comparar com ele, o resto parece que nem se vê, é um pouco como o sol. Como sabem, de dia, o sol ofusca completamente e não deixa ver estrela nenhuma. Este mosteiro tem o papel de sol, não deixa ver mais nada no concelho.

Não é um concelho assim muito grande, é um concelho de cento e poucos quilómetros quadrados. Tem quatro freguesias. A população mudou completamente.

Começo a volta aqui, pelo Reguengo do Fetal. Veem ali um santuário? É o Santuário de Nossa Senhora do Fetal. É ainda uma imagem gótica, é uma lindíssima imagem de uma pedra muito fria e muito pesada, penso que é de alabastro e está ligado a uma lenda que realmente é muito bonita.

Andava uma pastorinha com as suas ovelhas e a pastorinha tinha tanta fome que, a certa altura, fechou os olhos e desatou a chorar e, quando abriu os olhos, viu por entre as lágrimas que pairava uma linda senhora resplandecente que lhe perguntou: “Tens fome? Vai para tua casa, diz a tua mãe que abra a arca do pão e podes matar a fome.”

A menina contou à mãe, a mãe abriu a tampa da arca e a arca estava cheia de pão rescendente. […]

A Batalha situa-se numa confluência de grandes rotas turísticas. Aquele mosteiro continua a ser um centro de peregrinação. Vêm aqui centenas de milhares de pessoas por ano.

O pelourinho que está na nossa frente foi inaugurado exatamente para comemorar o quinto centenário da ereção da Batalha a vila, é uma cópia muito rigorosa de um pelourinho manuelino e que foi destruído ali cerca de 1870 e fizeram-no desparecer.

Outro monumento que merece atenção, aqui mesmo no centro da vila da Batalha, é a igreja matriz. Este pórtico é mandado fazer pelo rei D. Manuel. É obra do mestre Boitaca. Esta igreja aqui na Batalha parece que devia ser consagrada a Santa Maria da Vitória, porque foi essa invocação que nos deu a vitória de Aljubarrota. Mas, D. Manuel não quis isso. A igreja da Batalha é da invocação da Santa Cruz. Era, portanto, uma apologia da lei nova.

Foi aqui que milhares de homens jogaram a vida para que Portugal pudesse continuar a ser uma nação independente e também foi aqui que milhares de outros homens, vindos de Espanha, vindos de França, perderam as vidas, e hoje respeitámo-los todos.

Eu devo-lhes dizer que eu próprio não sei bem como as coisas se passaram. É certo, os portugueses eram poucos, cerca de sete mil, todos mal armados, alguns só com um chuço, um ferro da lavoura. Os invasores eram muito mais, eram cinco vezes mais, trinta e cinco ou quarenta mil e da melhor cavalaria da Espanha e da França. Portanto, a desigualdade era enorme. Apesar de tudo, os portugueses ganharam. Como é que isso foi possível? Eu não sei. Há muitas maneiras de contar a história. Nós temos um genial cronista que é Fernão Lopes que conta isto já cerca de uns setenta anos depois, e sabem que nisto, história, cada um vai contando à sua maneira. O relato, a meu ver, mais importante é o de um grande cronista, é o Jean Froissart, a batalha deu-se no tempo dele. Claro que ele não estava cá, mas era um homem muito minucioso e foi até ali, à fronteira dos Pirenéus, ao Béardo ouvir escudeiros franceses sobreviventes da Batalha e perguntou-lhes como é que isso aconteceu, logo a seguir à batalha. Depois, passados uns anos, ouviu dizer que um dos capitães de Aljubarrota, João Fernandes Pacheco, estava no Mar do Norte, no porto da eclusa. Foi lá, esteve no navio dele seis dias, tomando nota pormenorizadamente e é isso que depois Froissart apresenta na sua crónica e o que ele conta é fundamentalmente o seguinte: Nun’Álvares, com o seu génio, escolhe uma posição em que os castelhanos vêm a galope convencidos que vão destruir aquele pequeno magote de gente que se lhe opõe, mas realmente o caminho está cheio de ciladas, os cavaleiros têm de percorrer um longo corredor que tem atiradores dum lado e doutro, atiram setas, atiram bestas, atiram pedras e começam a cair os cavaleiros, os cavalos tropeçam uns nos outros, viram que iam morrer ali todos e entregaram-se. Os sobreviventes fugiram, foram dizer ao rei de Castela “fomos vencidos” e há uma segunda fase da batalha. O rei de Castela vem com a grande maioria das suas tropas, mas é noite, caem outra vez na mesma cilada e o rei é obrigado a fugir para Santarém. Isto é uma batalha real, porque de um lado está o rei de Portugal, do outro lado está o rei de Castela, e portanto foi uma batalha decisiva.

Foi neste mesmo lugar que esteve o Condestável português, D. Nuno Álvares Pereira. Era uma tarde de agosto quentíssima. Esperou aqui desde o meio-dia até ao pôr-do-sol o ataque das tropas castelhanas e passou torturas de sede. Ele nunca mais se esqueceu disso e não quis que os outros passassem pelo drama que ele passou e, depois da batalha, mandou construir aqui uma capela com esta ordem: “de um dos lados tem que haver sempre uma bilha de água fresca para quem aqui passar não ter que sofrer sede como eu passei”.

A pequena capela mandada construir pelo Condestável chama-se hoje Capela de S. Jorge. O rei D. João I mandou nessa altura oferecer uma imagem do S. Jorge, é esta. S. Jorge montado num cavalo e com uma lança está a matar o mal. O mal aqui era a invasão estrangeira e o S. Jorge… eu acho que o S. Jorge até é parecido com o D. João I. Há aqui uma outra recordação dos tempos do Condestável, é uma imagem de Santa Maria e que tem uma grande devoção popular. É uma imagem do século XV. Portanto, é possivelmente a própria imagem ante a qual se ajoelhou o Santo Condestável.

A senhora que está junto de mim é a senhora D. Alice Rosa que é tetraneta de uma outra senhora que era tetraneta que era tetraneta e outra vez tetraneta até chegar ao tempo de Aljubarrota. Tetraneta de uma mulher desse tempo que, no campo, guardou esta pá. Esta é, segundo a lenda, a verdadeira pá, com que a padeira de Aljubarrota, dentro de um forno, matou sete castelhanos.



Hoje a lenda conta-se quase como se a padeira de Aljubarrota fosse assim uma Joana D’Arc, uma heroína. A lenda conta que era feíssima, que tinha seis dedos em cada mão. A padeira de Aljubarrota certamente simboliza a resistência popular que foi verdade. Mas, reparem, o povo não fez dela uma fada. Ela tem ao alto a pá. Se, em vez de pá, fosse vassoura era bruxa de certeza.

Hoje todas as nações ibéricas vivem como irmãs numa paz fraterna. Mas, Aljubarrota permanece como uma lição. Os portugueses no século XIV encontraram-se numa fase extremamente difícil da vida nacional e souberam ultrapassar essa crise, porque estiveram todos unidos à volta de Nuno’ Álvares e do seu rei.


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