É durante a leitura do volume II da História da Literatura Brasileira de Massaud Moisés que melhor se percebem os méritos do método por ele adotado no escrevê-la



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É durante a leitura do volume II da História da Literatura Brasileira de Massaud Moisés que melhor se percebem os méritos do método por ele adotado no escrevê-la. Método cujos fundamentos estão indicados sumariamente (talvez sumariamente demais) na introdução ao volume I, onde se diz que a ênfase será dada ali aos textos em si, considerados a um só tempo como documentos de um "contexto histórico-sóciocultural" e como testemunhos de "uma continuidade específica", a da diacronia literária. Com isso, acentua Massaud Moisés, as análises histórico-críticas a serem por ele empreendidas ao longo da sua História o serão sempre "de dentro para fora (partindo do texto) e não de fora para dentro". Os resultados que semelhante opção metodológica possibilita alcançar a quem saiba conjugá-la àquele discernimento e àquela figura crítica sem as quais método algum pode dar certo, estão muito bem ilustrados nos "achados" dessa obra de Massaud Moisés, achados que servem para vivificar uma sólida construção historiográfica, de alicerces plantados menos na cômoda e automática adesão ao consenso do que na leitura ou releitura quiçá cansativa, mas sempre compensadora, da maior parte do acervo literário dos dois períodos, a fim de chegar a uma visão própria e a um juízo fundamentado de cada obra individual. Foi isso que fez Massaud Moisés, como o dá a perceber a própria estrutura da sua História, em que as generalidades acerca do contexto histórico e da estética de cada período, ou mesmo das características de seus principais autores, servem apenas de moldura ao que realmente lhe importa: a análise e avaliação das obras literárias de per se. Nisso, deixa ele patente a sua inconformidade com um tipo de "tradição crítica, composta de juízos perpetuados em razão da lei da inércia", a que faz referência a certa altura do livro. (...) (continua na outra orelha) Capa: Rua Direita, Rio de Janeiro, final do séc. XIX. Rio de Assis. Imagens Machadianas do Rio de Janeiro. Aline Carrer (org.). #HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA

#MASSAUD MOISÉS l HISTORIA DA LITERATURA BRASILEIRA Volume II Realismo e Simbolismo EDITORA CULTRIX São Paulo #Copyright © 2001 Massaud Moisés Realismo - 5* edição Simbolismo - 5a edição O primeiro numero a esquerda indica a edição ou reedição, desta obra A primeira dezena a direita indica o ano em que esta edição, ou retdlçao foi publicada rdiçao Ano 2-3 4-5-6-7 8-9 04-05-06-07-08-09 Todos os direitos reservados EDITORA PENSAMENTO-CULTRIX LTDA Rua Dr Mano Vicente, 368 - 04270-000 - São Paulo SP Fone 6166-9000 - Fax 6166-9008 E-mail pensamento@cultnx com br http //www pensamento-cultnx com br que se reserva a propriedade literária desta obra #Para Aíaria Antonieta



#ÍNDICE REALISMO (1881-1902) I Preliminares II Prosa 11 25 Aluísio Azevedo, 28, Inglês de Sousa, 44, Adolfo Caminha, 54, Oliveira Paiva, 62, Rodolfo Teófilo, 68, Domingos Olímpio, 74, Machado de Assis, 79, Raul Pompéia, 101, Epígonos, 114, Lúcio de Mendonça, 115, Pardal Mallet, 116, Júlio Ribeiro, 117, Horácio de Carvalho, 119, Valenüm Magalhães, 119, Pápi Jr, 121, Antônio de Oliveira, 123, Antônio Sales, 125, Canto e Melo, 125, Contistas, 130, Pedro Rabelo, 131, Artur Azevedo, 131 in Poesia 136 Martins Jr, 138, Lúcio de Mendonça, 140, Fontoura Xavier, 141, Augusto de Lima, 143, Carvalho Jr, 145, Teofllo Dias, 146, Parnasianismo, 152, Alberto de Oliveira, 156, Raimundo Correia, 165, Olavo Bilac, 174, Vicente de Carvalho, 184, Epígonos, 192, Luís Delfino, 193, B Lopes, 197, Francisca Juba, 202, José Albano, 205 IV Ensaio 208 Tobias Barreto, 209, Artur Orlando, 209, Eduardo Prado, 210, Joaquim Nabuco, 211, Rui Barbosa, 217, Euchdes da Cunha, 222 V Teatro França Júnior, 237, Artur Azevedo, 240 230 #8 « História da Literatura Brasileira - VOLUME l SIMBOLISMO (1893-1922) I Preliminares II Poesia 245 247 265 Cruz e Sousa, 265, tmiliano Perneta, 275, Alphonsus de Guimaraens, 282, Eduardo Guimaraens, 291, Mário Pederneiras, 299, Outros Poetas, 306, Lívio Barreto, 307, Francisco Mangabeira, 307, Maranhão Sobrinho, 307, Durval de Morais, 307, Ernâni Rosas, 307, Edgard Mata, 308, Alceu Wamosy, 308, Auta de Sousa, 312, Dano Veloso, 316, Marcelo Gama, 321, Pedro Kilkerry, 324, Pereira da Silva, 326, Pethion de Vilar, 331, Sevenano de Resende, 334, Silveira Neto 337, Zefermo Brasil, 341 in Prosa 347 Poema em Prosa/Prosa Poética, 349, Conto, 352, Lima Campos, 354, Gonzaga Duque 355, Nestor Vítor, 359, Romance, 363, Rodrigo Otávio, 365, Gonzaga Duque, 364, Nestor Vítor, 368, Rocha Pombo 569 IV Belle Epoque (1902-1922) 375 Graça Aranha, 380, Coelho Neto 589, Lima Barreto, 597, Monteiro Lobato, 406, Adelino Magalhães, 411, Prosa Regionalista, 415, Afonso Annos, 416, Valdomiro Silveira, 419, Xavier Marques, 420, Lmdolfo Rocha, 421, Aíranio Peixoto, 425, Hugo de Carvalho Ramos, 425, Simões Lopes Neto, 426, Alcides Maia, 429, Alberto Rangel, 430, Fábio Lu/, 450 Roque Callage, 450, Prosa Gtadma, 431, João do Rio 451, Medeiros e Albuquerque, 452, Humberto de Campos, 432, Leo Vaz, 433, Hilário Tácito, 435, Júlia Lopes de Almeida, 454, Poesia, 454, Augusto dos Anjos, 455, Raul de Leom, 441, Outros Poetas, 445, Amadeu Amaral, 445, Hermes Fontes, 447, Gilka Machado, 448, Martins Fontes, 450, Moacir de Almeida, 452, Goulart de Andrade, 453, Batista Cepelos, 453, Gustavo Teixeira, 454, Alberto Ramos, 454, Bastos Tigre, 455, Catulo da Paixão Cearense, 455, Da Costa e Silva, 456, Ensaio, 457, Alberto Torres, 458, Oliveira Viana, 459, Vicente Licínio Cardoso, 459, Farias Brito, 462, Jackson de Figueiredo, 463 BIBLIOGRAFIA ÍNDICE DE NOMES 467 480 #REALISMO (1881-1902) #Machado de Assis por Henrique Bernardelll #I. Preliminares 10 Romantismo encontrara na cultura francesa, como vimos, condições favoráveis de enraizamento e propagação, mas suas breves conquistas não alcançaram de todo vencer os remanescentes clássicos nem os movimentos de idéias gerados no bojo da Revolução Francesa e inspirados no Enciclopedismo, tendo o Progresso como alvo e a Razão como força-motnz Como se não pudesse absorver as manifestações vanguardeiras do espírito científico setecentista, embora impelidas pelo mesmo ardor revolucionário, o Romantismo extremou-se no culto do sentimento e da natureza, deixando espaço aberto aos herdeiros convictos da Revolução, enfeixados sob o rótulo de Ideólogos' Contra eles, que propugnavam o experimentalismo e a observação, cultivavam o fato e, levados pela fé no antidogmatismo, propunham-se a organizar a ciência das idéias, - travaram-se, por volta de 1820, as derradeiras escaramuças em prol da estética romântica Derrotados, não por defenderem tais doutrinas, senão por lhes faltar o apoio da conjuntura, inclinada aos românticos, e a versatilidade es- 1 Para o balanço da evolução histórica e doutrinaria do Realismo, ver a seguinte bibliografia seletiva Charles Beuchat, Histom du Natumhsme Français, 2 vols, Paris, Corrêa, 1949, Pierre Cogny, Lê Naturahsme, Paris, PUF, 1953 (Col "Que sais-je?"), J-H Bornecque e Pierre Cogny, Realisme et Naturahsme, Paris, Hachette, 1958 (Col "Documents de France"), Rene Dumesml, Lê Reahsme et lê Naturahsme, Paris, dei Duca/de Gigord, 1955, Iilian R Furst e Peter N Sknne, Naturahsm, Londres, Methuen & Co Ltd, 1971 (Col "The Criticai Idiom"), Damian Grant, ReaUsm Londres, Methuen & Co Ltd, 1978 (Col "The Criticai Idiom"), Pierre Martmo, Lf Nflíuraíismf Frarifais, 4J ed, Paris, Armand Colin, 1945, René Wellek, Concepts ojLntiasm, New Haven/Londres, Yale University Press, 1963, Émile Zola, Lê Roman Experimental, 4" ed, Paris, Charpentier 1880 #12 História da Literatura Brasileira - VOLUME tilística dos adversários, - nem por isso deixaram de, reagindo contra a nova moda, prenunciar o advento do Realismo. Entretanto, as origens mais próximas do ideário realista devem ser procuradas nas artes plásticas, que conheciam, em meados do século XIX, um período de tal efervescência que não poucos homens de letras franceses, dentre eles Vítor Hugo, Gautier, Musset, também manejavam com habilidade o pincel ou o lápis. Nesse clima, não estranha que surgissem oposições à moda vigente: Gustave Courbet expõe, no salão de 1850-1851, o Enterro em Ornans, e, em 1853, As Banhistas, telas suficientemente escandalosas para serem recusadas na Exposição Universal de 1855. Revoltado, abre a sua própria mostra nos arredores e manda colocar na fachada o seguinte anúncio: "Lê Réalisme - G. Coubert/Exhibition de Quarante Tableanx de son Oeuvre". E na introdução ao catálogo da exposição, faz profissão de fé anti-romântica: começando por explicar que "o título de realista [lhe] foi imposto, assim como o título de românticos aos homens de 1830", põe-se contra o princípio da "arte pela arte" e termina por afirmar que o seu obfetivo consistia em "traduzir os costumes, as idéias, o aspecto de [sua] época segundo [sua] apreciação, em suma, fazer arte viva". Posteriormente, numa conferência pronunciada em Anvers (1861), o pintor acrescentaria, num rasgo de convicção e orgulho, que "o núcleo do Realismo é a negação do ideal O Enterro em Ornam foi o enterro do Romantismo". zzzO gesto indignado do artista rebelde - afinal de contas ainda a reagir como bom romântico - vinha acompanhado de manifestações literárias dirigidas no mesmo rumo: em 1848, Henri Murger publica, em folhetins, as Cenas da Vida Boâma, onde, a propósito de retratar os meios artísticos do tempo, focaliza os costumes da burguesia. Contemporaneamente, Champfleury, pseudônimo de Jules Husson, dá a público uma narrativa (Chien-Caillou, 1847) inspirada na vida de um gravador da época: em 185o, edita La Gazette, jornal efêmero, destinado à defesa e ilustração da causa realista, e no ano seguinte publica O Realismo, espécie de livro-manifesto. Aliando-se a Courbet, Champfleury tornou-se o verdadeiro campeão do realismo na arte. E Louis Edmond Duranty, seguindoIhe as pegadas, ainda no ano de 1857 lança a revista O Realismo, que circularia por alguns meses, fazendo apologia da missão social do escritor e repudiando as preocupações com o estilo. Ano-chave, esse de 1857, pois além de presenciar o auge da fase polêmica em favor das idéias realistas, marca o aparecimento de duas obras definidoras da mudança anunciada: As Flores do Mal, de Baudelaire, fonte das principais linhas de força da poesia moderna: e Aíadarne Bovary, de Flaubert, que inaugura, com a sua impiedosa crítica à hipocrisia burguesa, o romance realista. Pode-se dizer que o ano de 1857 assinala a vitória, na França, dos novos ideais sobre o Romantismo. Passados dez anos, Zola introduzia o romance naturalista com Thérèse Raquin, assim levando ao grau mais alto as propostas realistas no campo literário. Toda a querela entre românticos e realistas esbatia-se num horizonte cultural impregnado de tensões, anundadoras de metamorfoses que a própria re- Realismo (1881-1902) • 13 volução romântica implicava, como se, em verdade, os ideais de Chateaubriand, Lamartine e outros tivessem de ser negados para se verem concretizados: a rigor, como tem apontado a historiografia literária, não existe solução de continuidade entre o Romantismo e o Realismo, pois é de regra que entre as estéticas haja um liame estreito e profundo, mas também porque as veleidades romanticamente revolucionárias precisavam contradizer-se para se realizar. A íntima contradição em que flutuava a arte romântica pressupunha a necessidade de um movimento dialético para se efetivar, aparecendo na tese o sentimento e a idealidade, e na antítese o apelo à missão altruística que se impunham os homens de letras, e, portanto, o contacto com a realidade imediata. Exaurido o pólo egocêntrico, natural que buscassem o extremo oposto. A análise do quadro cultural e das obras escritas à luz do ideário realista (e naturalista) virá demonstrar, porém, que o substrato continuava a ser dominado pelo paradoxo original: além de persistir, a força da paixão alimentava uma visão do mundo ainda bafejada pelos ventos do idealismo, embora soprando noutra direção. De resto, quando o corifeu do Naturalismo, linha avançada da estética realista, declarava ser "a obra de arte um recanto da natureza visto através de um temperamento",2 apontava o dualismo inextricável, afinal de contas determinado pelo próprio objeto de arte, em que acabaria naufragando o propósito de objetividade que nutria a geração anti-romântica. Na verdade, nem é preciso recorrer à presença subterrânea de traços românticos para explicar a dualidade do movimento realista; basta pensar no abismo que separa toda teoria estética de sua prática: entre repelir a idealidade romântica em manifestos e folhetos carbonários e produzir obras coerentes com tais princípios, vai a distância que separa a utopia da realidade. E foi graças a essa contradição, inerente a todo movimento literário, que o Realismo pôde, à medida que se afastava do seu decálogo, gerar textos de superior valia estética. A revolução de fevereiro de 1848, na França, é o primeiro acontecimento a registrar nesse contexto: "o Realismo será filho da revolução de 1848, - ou antes, os acontecimentos de 1848, revelando-o a si próprio, lhe darão consciência de ser'? Nesse mesmo ano, Karl Marx dá início, com O Manifesto Comunista, a uma longa obra de análise da burguesia e do Capitalismo, de impacto ainda vivo, pelas ressonâncias gerais que desencadeou: e Renan escreve O Futuro da Ciência (inédito até 1890), testemunho de fé no valor da Ciência, no qual ecoava o magistério de Augusto Comte, cujas idéias se disseminariam por todos os quadrantes do saber. Seu Curso de Filosofia Positiva, exposto a partir de 1826, e publicado em seis volumes, entre 1830 e 1842, propunha-se como uma tentativa de sistematização do conhecimento humano em forma de pirâmide cujo vértice fosse ocupado pela Sociologia. E fazendo a apologia da Ciência, tinha o pensador como objetivo exercer benéficos influxos sobre o corpo social; para tanto, refutava a Teologia, porque baseada na fé e vulnerável à análise da Filosofia, e 2 Émile Zola, op aí, p 111 3 René Dumesml, op aí, p 16 #• 14 • História da Literatura Brasileira - VOLUME II a Metafísica, por não resistir ao crivo da Ciência Interessavam-lhe os fatos, concretos, "positivos", suscetíveis de análise e experimentação, de forma que, com base no bom senso, se procurasse saber não o "porquê", ou o "quê", ou "para quê", mas o "como" dos fenômenos reais Apesar da reação provocada, a filosofia positivista exerceu larga influência, de que resultaram "certas estreitezas de idéias e certas afirmações ridículas e pretensiosas de cientistas e romancistas naturalistas"4 Dentre os pensadores que se deixaram seduzir pela doutrina positivista, destacava-se Proudhon voltado para as questões sociais, num misto de individualismo e anarquia, pregava a abolição da propriedade privada, punha-se contra a Igreja, o Comunismo, o sufrágio universal, rejeitava o princípio da arte pela arte em prol de uma arte destinada à coletividade (Sistema das Contradições Econômicas, 1846, Do Princípio da Arte e sua Destmação Social, 1865, Teoria da Propriedade, 1866) Não menos vinculado ao pensamento de Comte, Taine se tornou "o verdadeiro filósofo do Realismo, seu teórico, foi ele que deu a fórmula do positivismo em matéria literária",5 preconizando a dependência da Psicologia à Fisiologia, dentro de uma concepção determinista de arte, segundo a qual três leis regeriam o produto da criação estética, a herança, o ambiente e o momento, conjugadas a um fator variável, pessoal, a faculte maítresse Tais idéias seriam retomadas e ampliadas por Zola, sobretudo no prefácio a Thérese Raqmn (1867) e O Romance Experimental (1880), O Naturalismo no Teatro (1881), Os Romancistas Naturalistas (1881) O pano de fundo científico e filosófico sobre que se projeta a renovação realista ainda é atravessado por outros cometimentos relevantes, como A Origem das Espécies (1859), de Darvvin, propondo a seleção natural como fator decisivo na evolução das espécies, de modo que o condicionamento do meio se manifestaria na escolha dos mais fortes e no repúdio aos menos resistentes, a Introdução ao Estudo da Mediana Experimental (1865), de Claude Bernard, defendendo o método experimental em Fisiologia, que serviria de base às teorias de Zola, as idéias de Schopenhauer, fundadas num pessimismo extremo (O Mundo como Vontade e Representação, 1818, Da Vontade na Natureza, 1856) o pensador alemão considerava que o ser humano, submetido a determimsmos morais, se destina à dor e ao sofrimento, e o mundo, imenso palco de ilusões, acena Com alegrias logo dissipadas pelo esforço em atingi-las 2 Excessivo valor à Ciência, é a primeira inferência a tirar do quadro cultural em que se desenrola a eclosão do Realismo A análise das obras inspiradas na mística científica mostrará até que ponto foi benéfica ou maléfica a subordinação da arte a um estatuto que lhe era ostensivamente antagônico Enquanto não chegar a hora de fazer o balanço entre a teoria e a prática, 4 Charles Beut-hat op ai vol I p 303 5 Pierre Martírio op aí, p 21 Realismo (1881-1902) • 15 • veiamos como a doutrina procurou enfrentar os problemas suscitados pela estranha aliança do Positivismo com a Imaginação Antes de mais nada, porem, é preciso não perder de vista que Realismo e Naturalismo, embora interligados a ponto de o segundo continuar, afirmando e exagerando, o primeiro," exibem características dlferençadoras que serão objeto de exame quando focalizarmos a prosa realista Acionados pelos ventos da positividade, e espectadores vibrantes da Revolução Industrial com as suas generalizadas mudanças no estilo de vida e de cultura, os realistas preconizavam uma arte literária diametralmente oposta à romântica, bastaria, por isso, inverter o código romântico para se chegar ao programa estético defendido pelos herdeiros da revolução de 1848 Ao invés do subjetivismo, propunham a objetividade, amparados na idéia positiva do fato real, em lugar da imaginação, a realidade contigente, assim, ao "eu", que os românticos erigiram como espaço ideal para suas pervagações fantasistas e imaginárias, os realistas opunham o "não-eu", a realidade física, o mundo concreto A tônica situa-se, portanto, no "não-eu", o "eu" não mais paira, como no Romantismo, acima da realidade, mas no nível da realidade, a ponto de confundir-se com ela e submeter-se às mesmas leis que a governam E para alcançar a meta desejada, sabiam necessário repelir o sentimento em favor da única via de acesso à realidade concreta a inteligência Racionalistas, como pedia o cientificismo da época, procuravam a verdade impessoal e universal, não a individual, como julgavam os românticos E a verdade localizava-se, a seu ver, na realidade, concebida como o mundo dos fenômenos físicos, suscetíveis de captação pelos sentidos Para tanto, abandonaram as preocupações teológicas e metafísicas, identificadas com o universo romântico, e aderiram à visão do mundo sugerida pelas ciências O dado positivo, como ensinava Comte, passa a substituir o "mistério" e as alegorias do idealismo romântico, e os fatos, observáveis, documentáveis, anahsáveis, expenmentáveis, a ocupar o território antes dominado pelo devaneio e a fantasia Buscam, enfim, comportar-se perante a arte como autênticos cientistas Descortinada ao natural, a Psicologia se lhes afigura sujeita às leis da Fisiologia, em íntimo paralelismo os caracteres, pintados ao vivo, patenteiam desvios e mazelas, ao contrário da visão romântica inspirada nos estereótipos imaginários, o dia-a-dia, com as suas formas agressivas de violência, sujeira e fealdade, entra a preterir a ideahdade repassada de beleza pura e irreal No plano político, defendiam idéias republicanas e, não raro, socialistas, repudiavam a Monarquia, o Clero e a Burguesia, considerando-as peculiares ao Romantismo, e contemplavam a História como uma dimensão da cultura igualmente subordinada a determinismos inflexíveis Na esteira de Taine, admitiam 6 Segundo ressalta Damian Grant op aí p 44, o primeiro a enfatizar o caráter amphficdtivo do Naturalismo foi Hamilton Wnght Mabie, em 1885, ver ainda Pierre Martmo, op ai, pp 1-2 #16 História da Literatura Brasileira - VOLUME l que a obra de arte, bem como o ser humano, está condicionada ao tnnômio herança, ambiente e momento, em simbiose com a faculte maüresse, o que significava postular que todo ser vivo é escravo das leis universais que regem o Cosmos Incluindo o ser humano, tal simetria pretendia que entre a vida e a matéria bruta houvesse similitude: "a ciência prova que as condições de existência de todo fenômeno são as mesmas tanto nos corpos vivos como nos brutos; daí que a Fisiologia se aposse, paulatinamente, das certezas da Química e da Física"." O Homem deixava, assim, de ser o centro do Universo e medida de todas as coisas, como pedia o Romantismo egolátrico, para se transformar numa engrenagem do mecanismo cósmico e natural, com funções análogas às das outras peças, pertencentes ao reino animal, vegetal ou mineral. Concepção mecanicista, atenta à fenomenologia do real, refratária ao invisível e ao oculto, postulando uma teoria do conhecimento que não dava margem a dúvidas ou aporias instrumentadoras da especulação, num otimismo em relação à Ciência que logo se mostraria excessivo e tão idealista quanto o adversário que anelava derrubar, exerceu notável influência em todas as províncias literárias. Criada em tal ambiência, a obra literária passou a ser considerada utensílio, arma de combate, voltada para a transformação do corpo social, tendo em vista um limite de perfeição calcado nas conquistas da Ciência. Repelindo a "arte pela arte", desinteressada e egocêntrica, os adeptos do Realismo, sobretudo os mais ortodoxos, pregavam a arte compromissada, ou engajada. Os poetas, endeusando a Ciência como veículo apropriado à solução dos males sociais decorrentes dos valores burgueses, acreditavam que seus poemas devessem estar a serviço das causas redentoras e não da confissão estéril de vagos estados d'alma; em suma, entendiam que devessem produzir poesia científica, revolucionária, polêmica, erguida em nome da modificação completa das estruturas sociais. Por sua vez, os romancistas faziam obra de tese: à semelhança do cientista que, no laboratório, empreende seguidas experiências objetivando o conhecimento positivo de um fato, o romancista se valeria da narrativa para demonstrar que a situação dramática, protagonizada por figurantes submissos aos fatores hereditários, ambientais e de momento, fatalmente deveria resolver-se de acordo com as forças em presença. O romance deixava de ser fabulação de ordem sentimental para ser experimental: Zola, seu teórico, principia dizendo que "o romancista parte à procura de uma verdade", e termina por asseverar que o romance experimenta] (..) é simplesmente o processo verbal da experiência, que o romancista repete sob os olhos do público. Em suma, toda a operação consiste em tomar os fatos na Natureza, e a seguir estudar-lhes o mecanismo, que age sobre eles pelas modificações das circunstâncias e dos meios, sem jamais se afastar das leis da Natureza No fim, processa-se o conhecimento do homem, o conhecimento científico, na sua ação individual e social." 7 Émile Zola, op ai, p. 15. 8 Idem, lindem, p 8 Realismo (1881-1902) • 17 • E como a prevenir objeções a esse mecanismo determinista, acrescenta, não sem contradizer-se: "partimos dos fatos verdadeiros, que são nossa base indestrutível, mas, para lhes mostrar o mecanismo, é preciso que produzamos e dirijamos os fenômenos; eis aí nossa parte de invenção, de talento, na obra".' Fazia-se, desse modo, obra de observação e acusação, uma vez que, retratando a burguesia dominante, se mostrava a um só tempo a derrocada das instituições sustentadoras da visão romântica do mundo. Espelho e ataque, satisfazia-se com revelar o mal interno do corpo social sem lhe oferecer a terapêutica, salvo a que motivava a impiedosa análise: o desmoronamento da classe monárquico-burguês-clerical. Para demonstrar a tese, os realistas escolhiam casos patológicos, não por considerá-los excepcionais mas porque os julgavam indícios das mazelas que corroíam a sociedade. Verdadeiramente, pretendiam banir a exceção à romântica, sobrenatural ou decorrente de privilégios aristocráticos, em favor da média dos homens, mas esqueciam-se, apesar do afã cientificista, de que a normalidade não passava de abstração, resultante da mesma preconcepção que desejavam expulsar da cidade das Letras. Assim, o patológico torna-se regra, pois a tese preconizada não admitia que o corpo social pudesse ter órgãos saudáveis. Reducionismo, ainda que de base científica, explica que os realistas constituíssem as narrativas com material previamente selecionado, que lhes permitisse pôr em confronto vetores sociais propulsionados por componentes genéticos degenerados, e ambientes saturados pelo farisaísmo da classe média, tudo à espera das circunstâncias favoráveis à irrupção. Determinismo de herança, meio e momento, com toda a aparência de científico, mas que se evidenciará, na prática, atentatório aos princípios inerentes ao texto literário; de onde as contradições, mesmo quando o escritor elaborava conscienciosamente o seu artefato à luz da Ciência, e a evolução progressiva no rumo do contrário, fruto do cansaço e do exagero. 3 Precedida duma série de cometimentos, que serão discriminados na altura própria, a renovação realista inaugurou-se entre nós com a publicação de O Mulato, de Aluísio Azevedo, em 1881, ano em que ainda aparecem as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, ambas como que apontando as duas trilhas por onde há de singrar o Realismo. Em 1902, com o surgimento de Canoa, de Graça Aranha, e de Os Sertões, de Euclides da Cunha, pode-se considerar encerrada a época realista. O cenário histórico dessa vintena de anos é dos mais fecundos e tensos do nosso século XIX, a começar da expansão do Positivismo, misto de religião, filosofia e ciência, que se tornaria a ideologia dominante, às claras ou não, em vários acontecimentos relevantes. com efeito, a doutrina positivista, que vinha ganhando adeptos nas décadas anteriores, conhece agora uma fase de amplo desenvolvimento. "Em l» de janeiro de 1881, a Sodedade Positivista do Rio de Janeiro já comemorava, em público, a Festa da Humanidade", e via seus associados pas- 9 Uem, ibidan, p l o #• 18 • História da Literatura Brasileira - VOLUME l sarem de 5 em 1878 para 55 naquele ano, e 174 no fim do decênio I0 E buscando a esperada coerência entre o programa doutrinário e a ação entram os seguidores de Comte a intervir em questões do momento, como a imigração chinesa, que julgaram abominável, e o projeto de instalação de uma universidade (ambos de 1881), que também repudiaram com o argumento de que era "um atentado à liberdade espiritual", além de, enaltecendo a "pedantocracia", ir "favorecer apenas a um pequeno número de privilegiados"" Nos eventos que hão de marcar o último quartel do século XIX, o Positivismo, na sua forma ortodoxa ou não, estará presente, inspirando ou determinando posições, ora de indiferença perante a atividade política, ora de intervenção direta nos acontecimentos Em 1883, num clima repleto de presságios, estoura a "Questão Militar", espécie de resposta à "Questão Religiosa", que deflagrara na década anterior Tudo começou Com a proibição de os militares, nessa altura revelando altos índices de politização, relativamente ao passado imediato, se manifestarem em assuntos de política Infringida a ordem expressa do ministro da Guerra, o protesto dos interessados acendeu a crise graças à adesão do Marechal Deodoro, motivada mais por "solidariedade Com os camaradas do que [por] conivência com a política"12 A questão chegava ao ápice estava-se em 1885, e o clima era de pré-sublevação Benjamm Constant, positivista heterodoxo, inflamava os cadetes da Escola Militar com as suas idéias A República estava no ar A polêmica explode em todos os lugares, desde os jornais ao Parlamento, num "diálogo de surdos"," incapaz de pôr cobro à situação crítica Ante o perigo iminente de uma subversão da ordem pública, tratou o Conselho Supremo Militar de reduzir as determinações proibitivas, mas sem resolver o impasse Por fim, o Senado, compreendendo que a crise se tornara insustentável, apela ao Imperador, e as restrições foram suspensas em maio de 1887, dando por encerrada a "Questão Militar" Nessa conjuntura explosiva, em que aos poucos certas facções do País iam tomando consciência dos males que a enfermavam, uma questão paralela à dos militares ganha novo alento a abolição da escravatura Naquele mesmo ano de 1883, Joaquim Nabuco dá a lume O Abolicionismo, livro com que pretende "concorrer, unindo em uma só legião os abolicionistas brasileiros, para apressar, ainda que seja de uma hora, o dia em que vejamos a Independência completada pela Abolição, e o Brasil elevado à dignidade de país livre, como o foi em 1822 à de nação soberana, perante a América e o mundo"4 Como se sabe, Nabuco tornar-se-ia doravante, por meio de conferências e discursos parlamentares, um dos baluartes da causa abolicionista, então em marcha batida para o desfecho Em 1885, a Lei Saraiva-Cotegipe punha em liberdade os escravos sexagenários, 10 João Cruz Costa Lonlnbmção a Hislona das Meias no Brusií Rio de Janeiro José Olympio 1956 pp 179 e ss 11 Um, íbidm pp 203 205 12 Pedro Calmon, Historia do Brasil 5 vols S Paulo Nacional 1947 vol IV pp 500-507 13 Sérgio Buarquc de Holanda, fiisto/w Geral da Livihzução Brasileira t II O Brasil Monárquico vol 5 Do Império a República', S Paulo DIFEL 1972 pp 306 e ss 14 Joaquim Nabuco O Abolicionismo, S Paulo Instituto Progresso Editorial 1949, p XII Realismo (1881-1902) • 19 • SSim cumprindo uma etapa necessária para a emancipação final, que se dana m 15 de maio de 1888, pela mão da Princesa Isabel estando ausente D Pedro II A Lei Áurea, como passou a ser conhecida, decorria não só do pensamento abolicionista da Princesa Isabel como da mescla de dois fatores "o fato decisivo foi, de um lado, a força irreprimível da opinião pública, bem trabalhada pelo abolicionismo e de outro, a tomada de consciência dos próprios escravos, que às vezes largavam em massa as fazendas"" Não raro à sombra da Abolição,16 as idéias republicanas vinham ganhando corpo desde 1870, quando são lançadas as bases do Partido Republicano Combalido o espírito monárquico, mercê da extinção do regime escravocrata, puderam os adeptos da República acelerar os passos na consecução de seus ideais, ajudados pela crescente manifestação de liberalidade no seio das Forças Armadas Facilitava os esforços conjugados de uns e outros a letargia que grassava pelo Império, era questão de dias a derrubada de D Pedro II O clima era de conspiração, encarnada na figura do Marechal Deodoro Até que os acontecimentos se precipitam, anunciando o golpe de morte na Monarquia, desferido no dia 15 de novembro de 1889 com a proclamação da República, subia ao poder o próprio Marechal Deodoro da Fonseca Passada a euforia inicial, a Nação viveria anos convulsionados por questões políticas e econômico-financeiras Se, de um lado, a imigração de trabalhadores europeus, notadamente de italianos, recrudescera após 1891, a ponto de nesse ano haverem chegado mais de 200 000, e se, graças à corrente imigratória, a lavoura do café conhece um surto de prosperidade, sobretudo em São Paulo, - de outro, a Nação presenciava, entre otimista e estupefata, a corrida à Bolsa, a desenfreada especulação, a descontrolada emissão de moeda, a ganância pelo lucro fácil e fictício, em suma, tudo quanto passou à História com o nome de Encilhamento (1890-1892), e que Taunay fixaria num de seus romances A crise não se fez esperar, com danosos reflexos na instável economia, baseada fundamentalmente no plantio do café No plano social, alguns acontecimentos abalam a Nação, como a Revolução Federalista, deflagrada em fevereiro de 1893, no Rio Grande do Sul, pelos partidários do governo federal (de onde serem chamados de federalizai ou maragato*,), insatisfeitos com a ditadura de Júlio de Castilhos, e a Revolta da Armada, ocorrida em 6 de setembro do mesmo ano, em repúdio à intenção que o Marechal Floriano, sucessor de Deodoro, manifestara de permanecer no governo até o fim do mandato que vinha preencher A insurreição, com vários lances dramáticos, incluindo a organização de um governo provisório dos rebeldes, em Florianópolis, somente seria debelada em março do ano seguinte Prudente de Morais sucederia ao Marechal Floriano em 1894, como o nosso primeiro presidente civil o seu quatriênio de governo seria marcado por 15 Sérgio Buarque de Holanda op aí, p 286 16 José Mana Bello, Historia da Republica, 3J ed, rev e acres S Paulo, Nacional, 1956, PP 39 e ss #• 20 • História da Literatura Brasileira - VOLUME II instabilidade política e pela Campanha de Canudos (1896), desencadeada contra os jagunços reunidos no arraial de Canudos, no sertão baiano, para realizar as promessas místicas do seu líder, Antônio Vicente Mendes Maciel, ou Antônio Conselheiro. Suspeitando que pretendessem atentar contra a República, ou temendo que o movimento se alastrasse, o governo estadual e federal organiza várias expedições contra os seguidores de Conselheiro, até dizimá-los a 5 de outubro de 1897. Euclides da Cunha, que presenciara a luta, relataria em Os Sertões (1902), uma das obras fundamentais de nossa cultura, as peripécias da Campanha. , . , , ,,.,,, 4Esbatida sobre um cenário histórico traumatizado por inquietações políticas, sociais e econômicas, a produção literária atinge nas últimas décadas do século XIX o ponto de maturidade: pela intensificação da vida literária, pela densidade das obras escritas, pode-se dizer que chegamos ao momento em que a literatura brasileira inicia a caminhada para alcançar a sua plena identidade e o nível de literatura madura e autônoma. A prosa de ficção, expressa em romances e contos, bifurcar-se-á nas vertentes realista e naturalista, tendo de permeio o afluente representado pelo estilo impressionista. Quanto à poesia, cultiva-se ortodoxamente o decálogo realista, na chamada poesia científica, e desenvolve-se uma linhagem de feição anti-romântica, mas que se prestará a equívocos, na medida em que implicar desobediência ao cientificismo da época: a poesia parnasiana. O teatro, por seu turno, volta a chamar a atenção dos escritores, embora nem sempre com resultados satisfatórios; o drama de consumo, puxado à comédia ou pintalgado de tensão, predomina. E uma tendência nova surge, a do ensaísmo, que se manifestará, em forma pura ou em mescla com outras modalidades de expressão literária, na pena dum Joaquim Nabuco, dum Rui Barbosa, dum Euclides da Cunha, para apenas citar os mais importantes. A síntese das atividades literárias nos quadros do Realismo não ficaria completa sem uma referência à crítica e à historiografia. Restringindo-nos tãosomente aos adeptos das idéias realistas, no setor da crítica merecem destaque Raimundo Antônio da ROCHA LIMA, cuja morte precoce, aos vinte e três anos, não permitiu que as promessas em Crítica e Literatura, publicado no ano de sua morte (1878), se concretizassem em textos mais coerentes do ponto de vista metodológico, superada que fosse a oscilação, de resto própria da idade, que Capistrano de Abreu, prefaciando-lhe o volume, bem assinalou. E Adolfo Caminha, das vocações mais autênticas para a crítica que houve nessa época, com suas Cartas Literárias (1895), marcadas por equilíbrio e bom senso, qualidades inerentes ao ofício de crítico, mas nem por isso menos raras entre nós, para as quais, já nos idos de 1952, um crítico chamava justamente a atenção.17 17 Wilson Martins, A Crítica Literária no Brasil, S Paulo, Departamento de Cultura, 1952, pp 80-81, 2a ed, 2 vols, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983, vol I, pp 297 e ss. Realismo (1881-1902) • 21 • Nem sempre identificada pelo equilíbrio e o bom senso foi a atividade críHe Araripe Júnior, o que mais longe conduziu a ortodoxia determinista, e a posteridade se habituou a colocar junto a Sílvio Romero e José Veríssimo, Malmente estabelecendo cotejos de resultado desigual conforme a óptica escolhida- ora o situam como o mais importante, ora como o menos relevante da tríade Sua copiosa produção, hoje praticamente reunida nos cinco volumes publicados pela Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, entre 1958 e 1970, fundamenta-se no cientificismo de Taine, Spencer, Buckle, Comte e outros, com ênfase no meio geográfico e no nacionalismo literário, que se torna estreito em razão desse mesmo determinismo. Conquanto abraçasse as teorias e procurasse fazer a "psicologia" dos autores à luz do fisiologismo em moda, cedeu ao fascínio do biografismo e da subjetividade, numa contradição que talvez explique a disponibilidade para com o Simbolismo, que foi dos primeiros a anunciar, e as limitações do estilo. Oscilante, contraditório, pois que aderira a doutrinas que não se prestavam à crítica sem levar à rigidez metodológica e à simplificação meio ingênua dos fatores da criação literária, - Araripe Júnior tem o mérito de algumas intuições ainda hoje válidas (como no tocante a Alencar, Gregório de Matos, o Simbolismo), de observações úteis à historiografia literária, e uma assiduidade à crítica que nenhum do tempo pôde realizar com semelhante volume e constância. E, last but not least, é de citar a atividade crítica de Machado de Assis, repartida com as outras várias que praticou, denotando uma inclinação ainda mais acentuada para o equilíbrio e o bom senso, que fazem dele, mesmo nesse particular, a figura-paradigma de nossas letras; alguns de seus pronunciamentos, não obstante expendidos no calor da hora, continuam valendo intrinsecamente e como modelo de compostura crítica, manifesta no artigo "Ideal de Crítico", estampado na primeira fase de sua carreira, em 8 de outubro de 1865, e que seria cumprido à risca nos anos subseqüentes. No mesmo ano em que se proclamava a Abolição (1888), Sílvio Romero publicava sua História da Literatura Brasildra, com ares de monumental, graças ao volume de páginas e à quantidade de informações e autores que abrange, não raro pela primeira vez, segundo um critério desejadamente naturalista, no qual se misturam "o critério popular e étnico para explicar o nosso caráter nacional" e "o critério positivo e evolucionista da nova filosofia social, quando tratar de notar as relações do Brasil com a humanidade em geral".18 Munido, portanto, de uma tábua de valores fundamentalmente cientificista, o historiador, em busca da coerência que perseguiu desde a primeira hora, resolve adotar o vocábulo literatura" com "a amplitude que lhe dão os críticos e historiadores alemães", na qual se compreendem "todas as manifestações da inteligência de um povo: política, economia, arte, criações populares, ciências... e não, como era de costume supor-se no Brasil, somente as intituladas bclas-letras, que afinal cifravam- 18 Silvio Romero, História da Literatura Brasileira, 4" ed, 5 vols., Rio de Janeiro, José OlymPIO, 1949, vol. I, p 42 #• 24 • História da Literatura Brasileira - VOLUME l organismo social. Daí o constante intuito de evidenciar que a debilidade da família, base da pirâmide social burguesa, reside na falsa educação de seus membros, voltados - graças a uma concepção materialista da realidade, em que o dinheiro é a mola principal -, para os prazeres envilecedores. A despreocupação que a riqueza faculta gera um vácuo preenchido pela elegância taful de homens e mulheres, e pelos vícios mundanos, não raro descambando no tédio e na monotonia suicida. Destituídos de ideal, vivem o dia-a-dia norteados apenas pelo instinto de conservação. As personagens femininas encarnam mulheres educadas como bonecas de luxo, a gastar as horas vazias e inúteis na leitura de narrativas sensuais que lhes excitam ainda mais a futilidade e as chamam para um viver artificial que lhes acena com a fuga da sem-razão de tudo. Em tal clima deliqüescente, propiciado pelo dinheiro fácil, não poucas vezes ganho por meios ilícitos ou duvidosos, é natural que a mulher sucumba ao primeiro conquistador habilidoso e galante, gerado pelo mesmo sistema burguês. O adultério torna-se fatalidade, ou antes, determinação de forças alheias à vontade, assim reduzida a zero: vergada ao peso da herança, ao influxo diluidor do meio e ao conluio das circunstâncias, a burguesa oca não tem como resistir ao assédio erótico. Derrubadas as barreiras da conveniência ou das aparências, atira-se à realização dos sentidos, e com ela arrasta o casamento e, por tabela, o próprio sistema burguês. De onde, torpedear o casamento significava, para os realistas, trazer à luz as falhas das instituições que o sustentavam e nele se apoiavam: a Burguesia, como sistema de vida, a Monarquia, como sistema de governo, e a Igreja, como sistema ideológico. Romance de tese, por conseguinte, é o romance realista, tese segundo a qual a decomposição do corpo social se deve, em última análise, às instituições, que não acompanharam o progresso da Ciência e, com isso, deixaram de adaptar-se às novas situações criadas. Uma sociedade melhor haveria de surgir das cinzas da Burguesia e era preciso apressar-lhe a queda, para que logo se descortinasse o mundo futuro, ainda vagamente delineado, mas que se afigurava aos realistas intimamente adstrito à República e ao Socialismo. A tese, insinuava-a o progresso científico, e a função do romance consistia em mostrá-la ao vivo, o mais dramaticamente possível. De onde os exageros, a ênfase no patológico, com o fito de não deixar margem a se admitir que a sociedade, tal como se apresentava, pudesse ter esperanças de salvação. Sabemos que a tese, ainda que subsidiada pela Ciência, sofria de erosão profunda, manifesta nas contradições internas (personagens e situações que negam, à revelia do escritor, a tese preconizada), e pelo fato de levar ao paroxismo da rigidez cadavérica a coerência postulada: tornando opaca a realidade à custa de submetê-la ao crivo de um conhecimento científico inflexível, forçoso foi que a concebessem como organismo morto, habitado mais por joguetes, ou estereótipos, que por seres humanos. Sabemos hoje que a univocidade "científica" da ficção realista é o maior reparo que se lhe pode fazer, embora se reconheça que deu um grande passo, no sentido de liberar o romance das peias que o limitavam. > < Realismo (1881-1902) • 25 • Fstruturalmente, o romance procura inovar, refletir as tendências científiintriga romântica cede passo à análise, e o romance evolui em câmaraíerta numa seqüência morosa de "tomadas", a dar a impressão do próprio de'lar dos acontecimentos presididos pela lei da monotonia e do tédio. E em T r da horizontalidade romântica, prevalece a verticalidade da sondagem psilósica com vistas ao conhecimento das causas profundas (genéticas) do mportamento individual. A narrativa alonga-se, arrasta-se, num andamento pausado, pois não interessa o entrecho mas o pormenor, físico ou moral, que forneça o retrato da coletividade (de onde as minúcias do cotidiano banal, como a alimentação, e a tendência para reunir os figurantes em grupos socialmente coesos, como no teatro, restaurante, turfe, etc.). Reduzida a intriga a duas ou três circunstâncias gerais, logo dadas a conhecer ao leitor a fim de lhes tirar qualquer ranço de mistério, o romance flui geometricamente, de modo que os ingredientes narrativos se ajustam como peças dum quebra-cabeça, sem dar margem a surpresas ou sobressaltos. Desprezada a hipótese de a realidade apresentar alogicidade ou imprevistos, o romancista divisa-a como palco onde tudo se pode conhecer graças aos princípios científicos, subordinados ao apelo da Razão. Faltaria acrescentar que se trata, no geral, de romance urbano, em razão de a burguesia encontrar na cidade o seu espaço ideal, protagonizado não mais pelos adolescentes românticos, mas por adultos. No quadro geral da ficção produzida nessa época, impõe-se diferençar a tendência realista da naturalista, partindo da observação de que se distinguem mais em grau e acidente que em substância, dado que se fundamentam nas mesmas bases científicas e filosóficas, mas discrepam no modo como as exploram. Para tanto, temos de considerar duas espécies de Realismo, o exterior e o interior. O primeiro caracteriza-se pela visão do real, real sensível, fundada nos princípios científicos, segundo os quais a vida psicológica das personagens é suscetível de ser conhecida e analisada visto que se manifesta por meio de gestos, palavras, contorno do rosto, etc., enfim, os aspectos fenotípicos. Tal psicofisiologismo, articulando-se à influência do meio, considerado o fator mais decisivo, permite que o comportamento dos protagonistas seja matematicamente previsível. Quando a preocupação pela análise se aguçar, sobretudo levando em conta os componentes hereditários: a questão da hereditanedade tem grande influência sobre as manifestações intelectuais e passionais do homem. Ainda atribuo importância considerável ao meio/ estaremos na atmosfera naturalista. Se no caso do romance realista podemos falar em visão estética, no do naturalista a visão se torna acentuadamente científica; o romance assume caráter experimental, como Zola, na esteira de Taine e Claude Bernard, teorizava e praticava: • Emile Zola, LeRoman Experimental, 4* ed, Paris, Charpentier, 1880, p 18 #26 História da Literatura Brasileira - VOLUME l Eis em que consiste o romance experimental: possuir o mecanismo dos fenômenos no interior do homem, mostrar as engrenagens das manifestações intelectuais e sensuais conforme nos ensina a Fisiologia, sob a influência da hereditariedade e das circunstâncias ambientais, depois mostrar o homem vivendo no meio social que ele próprio criou, que modifica todos os dias, e no âmago do qual experimenta, por sua vez, contínua transformação' A Ciência, que enforma o Realismo exterior, ganha vulto no interior do romance naturalista a fim de cooperar na luta que se travava contra os males da educação romântica. Mas também se buscava apoio na Ciência para a visão pessimista da realidade, fruto de se destacarem, predominantemente, os aspectos patológicos, anormais, conduzindo não raro ao obsceno ou asqueroso. Ao contrário dos realistas, que suspendiam a inspecção do corpo social quando deparavam as pustulações repelentes, os naturalistas avançam para descrever as repugnâncias hospitalares, movidos pelo afã de levar a cabo o compromisso com a medicina experimental. Partem da hipótese de que as personagens, burguesas, padecem de enfermidades orgânicas, além de morais ou situacionais, enquanto os realistas preferiam atribuir-lhes causas de ordem educacional. De onde aqueles propugnarem a reforma da sociedade por meio do saneamento genético, e estes, de uma terapia ocupacional; aqueles, propõem cirurgia ou, quando menos, a psicanálise social; estes, a psicologia reeducativa. Os naturalistas repelem os escritores idealistas, "aqueles que se refugiam no desconhecido pelo prazer de aí ficar, somente têm gosto nas hipóteses mais arriscadas, e desdenham submetê-las ao controle da experiência, sob pretexto de que a verdade está nelas e não nas coisas".4 Assim, o romance torna-se documental, próximo da reportagem, espécie de História do presente, ou "inquérito geral sobre a Natureza e o Homem".5 Em suma, o Naturalismo "consiste unicamente no método experimental, na observação e na experiência aplicadas à Literatura".6 Se Zola encarna o Naturalismo e Flaubert o Realismo, é flagrante a oposição entre ambos em matéria de teoria estética, a ponto de o autor de Madame Bovary se referir ao confrade em carta a Turquenieff nos seguintes termos: a Realidade, a meu ver, não é senão um trampolim Nossos amigos estão persuadidos de que somente ela constitui todo o Estado Este materialismo me indigna e, quase todas as segundas-feiras, tenho acessos de irritação ao ler os folhetins desse bravo Zola. Após os Realistas, temos os Naturalistas e os Impressionistas Que progresso1 Bando de farsantes, que desejam acreditar e fazer-nos acreditar que descobriram o Mediterrâneo7 3 Idem, íbidem, p 19 4. Idem, íbidm, p 35. 5 Idem, ibuiem, p 37 6 Idem, íbidem, p 46 7 Flaubert, carta a Turquenieff, de 8 de novembro de 1877, apua J.-H. Bornecque e Píerré Cogny, Réahsme et Naluralisme, Paris, Hachette, 1958, p 22 ,<:'..
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